A psicologia explica: dá para sentir a dor dos outros sem absorvê-la, e treinar a compaixão reduz o desgaste da empatia em excesso
Pesquisas mostram que a compaixão permite acolher quem sofre sem tomar o sofrimento para si
Ter empatia não significa carregar a dor dos outros. A psicologia e a neurociência mostram que sentir junto com alguém que sofre é diferente de afundar no sofrimento dele, e que a compaixão, a vontade de cuidar e ajudar, protege contra o desgaste que a empatia em excesso pode provocar.
O tema ganhou eco nesta semana numa entrevista da Vanity Fair Itália, em que a autora Irene Bandera diz que, na infância, “ninguém ensina que você pode sentir a dor dos outros sem precisar tomá-la para si”. A frase resume uma linha de pesquisa conduzida pela neurocientista Tania Singer e pela pesquisadora Olga Klimecki no Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e Cerebrais Humanas, na Alemanha.

Empatia e contágio emocional não são a mesma coisa
Num artigo de 2014 na revista Current Biology, Singer e Klimecki definem empatia como a capacidade de compartilhar o que o outro sente, tanto nas alegrias quanto nas dores. Segundo as autoras, na empatia a pessoa sente com o outro sem se confundir com ele: continua sabendo que aquela emoção pertence a outra pessoa.
Quando essa separação entre o eu e o outro desaparece, as pesquisadoras falam em contágio emocional, um precursor da empatia que já aparece nos bebês. Na prática, é quando a angústia de quem você ouviu passa a parecer sua.
O que acontece quando a dor do outro pesa demais?
Em um estudo publicado na Social Cognitive and Affective Neuroscience, Klimecki, Singer e colegas treinaram voluntários primeiro para ressoar com o sofrimento alheio e, depois, para cultivar compaixão. Diante de vídeos com cenas de sofrimento humano, o treino de empatia aumentou as emoções negativas e a atividade na ínsula anterior e no córtex cingulado médio anterior, regiões ligadas à percepção da dor do outro.
Os autores escrevem que compartilhar em excesso as emoções negativas alheias pode ser prejudicial e virar fonte de burnout. É o que a pesquisa chama de sofrimento empático, o desgaste de quem absorve a dor que vê.
A compaixão funciona como antídoto
No mesmo estudo, a etapa seguinte, de treino de compaixão, reverteu o aumento das emoções negativas e elevou os relatos de emoções positivas. No cérebro, entrou em ação outra rede, que inclui o estriado ventral, o córtex cingulado anterior pregenual e o córtex orbitofrontal medial. A conclusão dos autores é que treinar a compaixão pode ser uma estratégia para superar o sofrimento empático e fortalecer a resiliência.
Um trabalho anterior do grupo, publicado na Cerebral Cortex, usou um curso de um dia de meditação de bondade amorosa, segundo reportagem do Greater Good Science Center, da Universidade da Califórnia em Berkeley. As emoções negativas não sumiram, mas os participantes ficaram menos abalados. Klimecki resumiu assim: “A compaixão é um bom antídoto. Ela nos permite nos conectar ao sofrimento dos outros sem ficarmos angustiados demais”.
Como cultivar a compaixão sem se anular
Os pesquisadores definem compaixão como sentir preocupação com o sofrimento do outro e desejar melhorar o bem-estar dele. A diferença está no foco: em vez de reviver a dor, a atenção se volta para o cuidado.
No treino, os participantes direcionavam sentimentos de carinho a si mesmos, a uma pessoa próxima, a alguém neutro, a quem estava em dificuldade e a desconhecidos. A reportagem do Greater Good cita outros caminhos para essa postura no dia a dia: estimular a cooperação, praticar atenção plena, evitar culpar os outros e acolher o que o outro sente sem adotar aquele sentimento como seu.
Acolher sem carregar: o que levar para a rotina
Ouvir uma amiga em crise, cuidar de um familiar doente ou acompanhar notícias pesadas não exige absorver tudo. Perceber quando a tristeza do outro virou a sua e reservar tempo para recarregar ajudam a evitar o esgotamento social e emocional, assim como deixar de lado o hábito de agradar a todos o tempo todo.
Se a tristeza, a insônia ou a irritação persistirem, procure um psicólogo. No SUS, dá para começar pelo posto de saúde do bairro, que faz o primeiro acolhimento e encaminha para o cuidado em saúde mental quando necessário.