Fani García, especialista em digestão: “Quando há intestino irritável, normalmente há um desequilíbrio na microbiota”

A bioquímica espanhola também defende que o jeito de comer pesa tanto quanto o cardápio para o intestino

A bioquímica espanhola Fani García, especialista em digestão, relaciona o intestino irritável a uma alteração nas bactérias que vivem no intestino. “Quando há um intestino irritável, normalmente há um desequilíbrio na microbiota. Pode ser um supercrescimento de micróbios ou cândida”, afirmou ela no podcast Focus On, segundo reportagem do jornal argentino La Nación.

A fala chama atenção porque a síndrome do intestino irritável é uma das queixas mais frequentes nos consultórios, de acordo com a própria especialista. Mas a ciência ainda não fechou a questão: a microbiota é uma peça do quebra-cabeça, não a explicação completa.

Comer devagar e em horários regulares está entre as orientações da especialista – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Comer devagar e em horários regulares está entre as orientações da especialista – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

O que Fani García disse sobre a microbiota

Na entrevista, a especialista, que também tem formação em psiconeuroimunologia, explicou que boa parte dos pacientes chega ao consultório por causa do intestino irritável, também chamado de cólon irritável. Ela ligou as queixas a possíveis alterações na microbiota intestinal, o conjunto de microrganismos que habitam principalmente o intestino.

Para o tratamento, Fani García citou medidas do dia a dia: manter horários regulares para comer, identificar os alimentos que causam desconforto e praticar atividade física com frequência. Ela também chamou atenção para o sono e o controle do estresse, por causa da ligação entre o sistema nervoso e o funcionamento do intestino.

Como a síndrome do intestino irritável se manifesta

Segundo o Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Digestivas e Renais dos Estados Unidos (NIDDK), ligado aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), o sintoma principal é dor abdominal, muitas vezes relacionada às evacuações, acompanhada de mudanças no hábito intestinal. Dependendo do tipo, aparecem diarreia, prisão de ventre ou as duas, alternadas.

Inchaço, sensação de evacuação incompleta e muco esbranquiçado nas fezes também podem ocorrer. O NIDDK destaca que a síndrome pode ser dolorosa, mas não causa outros problemas de saúde nem danifica o sistema digestivo. É uma condição crônica, com sintomas que vão e voltam.

No Brasil, a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde informa que o problema atinge entre 5% e 10% da população adulta e é mais comum em mulheres jovens.

A microbiota explica tudo?

Não. O NIDDK afirma que os médicos ainda não sabem com certeza o que causa a síndrome. A hipótese mais aceita é uma combinação de fatores, que muda de pessoa para pessoa: problemas na comunicação entre cérebro e intestino, infecções intestinais anteriores, intolerâncias alimentares, ansiedade, depressão e genética.

As bactérias entram nessa lista. O instituto americano diz que especialistas acreditam que alterações bacterianas, como o supercrescimento de bactérias no intestino delgado, podem ter papel na síndrome. A página do Ministério da Saúde também inclui o desequilíbrio da microbiota entre os fatores possíveis, ao lado da motilidade intestinal alterada e da sensibilidade maior à dor.

Ou seja, a fala de Fani García aponta para um caminho que a ciência investiga, mas não deve ser lida como diagnóstico. Quem tem sintomas precisa de avaliação médica, não de um teste de microbiota feito por conta própria.

O jeito de comer também conta

“Às vezes, é mais importante como comemos do que o que comemos para nos sentirmos bem”, disse a especialista ao podcast. Ela sugere observar a relação com a comida: comer rápido por causa do estresse, servir porções muito grandes ou beliscar o dia inteiro para matar fomes passageiras.

A orientação brasileira segue linha parecida, com um alerta importante. Segundo a Biblioteca Virtual em Saúde, cortar glúten e lactose sem comprovação de intolerância não é recomendado, e a dieta deve ser ajustada caso a caso, com médico e nutricionista. Probióticos específicos podem ser indicados, mas sob acompanhamento profissional.

A síndrome não tem cura definitiva, mas tem tratamento, de acordo com o Ministério da Saúde. Isso inclui alimentação, cuidado emocional e, quando necessário, remédios escolhidos conforme o tipo e a intensidade dos sintomas.

Quando procurar um médico

Dor abdominal frequente com mudança no ritmo intestinal merece consulta. O NIDDK lista sinais que levam o médico a investigar outras doenças: anemia, sangramento retal, fezes com sangue ou pretas com aspecto de piche e perda de peso. Nesses casos, a avaliação não deve esperar.

Para entender melhor o lado emocional do problema, a Catraca já explicou como as emoções podem desencadear os sintomas do intestino irritável. E, se o incômodo maior for o inchaço, vale ler sobre quando o excesso de gases deixa de ser normal.