Muito além do asfalto: coletivo feminino usa o motociclismo para curar, empoderar e conectar mulheres pelo Brasil

Sem mensalidades, o Movimento Aceleradas conecta mulheres pelo país usando o motociclismo como ferramenta de cura, apoio econômico e liberdade

Se você fechar os olhos e imaginar o universo do motociclismo, é bem provável que a primeira imagem que venha à cabeça seja um clube tradicional, majoritariamente masculino e cheio de regras. Mas, nas estradas do Brasil, uma revolução silenciosa (e muito potente) está mudando esse cenário. E o melhor de tudo: o verdadeiro combustível desse movimento não é a gasolina, são as pessoas.

Estamos falando do Movimento Aceleradas, uma rede nacional que há mais de duas décadas conecta mulheres de diferentes idades, histórias e realidades através das duas rodas. O projeto foi plantado em 2005 pela jornalista especializada Eliana Malizia, uma das pioneiras na cobertura jornalística do setor no Brasil.

Naquela época, ela já reunia mulheres para viagens e passeios, incentivando a ocupação feminina em um espaço dominado por homens. O batismo oficial veio em 2019, inspirado no portal de conteúdo que Eliana havia criado anos antes.

“Muito além das motos, o Movimento Aceleradas é uma rede nacional de acolhimento, empoderamento e transformação feminina”, define Eliana.

“O movimento não é feito por mim. Ele é feito por milhares de mulheres que estão sempre em movimento, crescendo, aprendendo, realizando sonhos e ajudando umas às outras. Eu apenas tive a felicidade de acender essa chama.”

Nem motoclube, nem regras: apenas apoio mútuo

Diferente dos formatos tradicionais, o Aceleradas não cobra mensalidades, não exige um tipo específico de moto (você pode ir até de garupa) e não impõe obrigações. O foco é fazer com que as mulheres cresçam juntas, em um ambiente seguro e inclusivo.

O coletivo promove de tudo um pouco: workshops de pilotagem para iniciantes, rodas de conversa online com psicólogas, treinamentos de segurança e encontros focados em moda circular e sustentabilidade.

Um dos destaques é o projeto “Juntas Somos Mais”, que rola toda segunda-feira nos grupos do movimento, onde as participantes divulgam seus próprios negócios e serviços, fortalecendo a independência financeira umas das outras.

O engajamento social também dita o ritmo do grupo. Anualmente, o Aceleradas organiza um evento lindíssimo no Outubro Rosa. Mulheres em tratamento oncológico sobem nas motos e carros, vestidas com peças vintage e acessórios cor-de-rosa, desfilando pelas ruas como um símbolo de força e superação, enquanto arrecadam recursos para ONGs.

A estrada como resgate: a história de Cibele

Se o asfalto pudesse falar, ele contaria inúmeras histórias de mulheres que chegaram ao movimento carregando dores profundas e saíram de lá pilotando a própria vida. A trajetória de Cibele Sayuri é a prova viva de que a moto pode ser uma ferramenta poderosa de cura.

Após uma vida marcada por instabilidades, perdas traumáticas e relacionamentos onde se anulou por completo, Cibele se via emocionalmente esgotada. “Se eu olhar para trás, acho que passei grande parte da minha vida tentando me encaixar”, relembra.

Refletindo sobre o processo de viver relações tóxicas, ela pontua: “O processo de se perder é silencioso. Sutil. Quando você percebe, deixou de existir dentro da própria vida.”

O reencontro com a amiga de infância, Eliana Malizia, foi o ponto de virada. Aos poucos, Cibele começou a viajar na garupa e, em uma viagem para Minas Gerais, tudo mudou: “O vento no rosto, o som do motor de alta cilindrada, o pôr do sol, a estrada. Alguma coisa aconteceu dentro de mim naquela viagem. Era como se eu estivesse respirando de novo.” Essa faísca a levou a tirar a habilitação, comprar sua primeira moto e, fortalecida, pedir o divórcio no final de 2025.

“Hoje a estrada é minha terapia. Minha oração silenciosa. Meu reencontro comigo mesma. Eu canto dentro do capacete, converso sozinha, rio, penso na vida. A moto me devolveu uma sensação que eu tinha perdido há muitos anos”, relata Cibele.

Para outras mulheres que enfrentam batalhas parecidas, ela deixa um recado: “A gente não pode negociar a própria identidade. (…) Mas recomeçar é possível. Mesmo depois do trauma. Mesmo depois da dor. Mesmo depois de achar que acabou. Toda vez que choveu, parou.”

Acelerando para o futuro e para as telas

Movimento Aceleradas
Movimento Aceleradas - Eliana Malizia / Arquivo Pessoal

Em um país que já soma cerca de 10 milhões de mulheres motociclistas, o Aceleradas prova que a cultura de duas rodas é sobre autoconhecimento. O sucesso do coletivo, hoje apoiado por um time de conselheiras e instrutoras voluntárias, é tão grande que 2026 marca um novo capítulo: a trajetória do grupo vai virar livro e documentário, registrando o impacto real da força coletiva na vida dessas mulheres.

Para quem busca liberdade, uma rede de apoio incrível e, de quebra, sentir o vento bater no rosto, o convite está feito.

Serviço: Bora acelerar junto?

Se você sentiu a chamada e quer fazer parte dessa rede (lembrando: não precisa nem ter moto para começar, basta querer estar perto!), o processo é super simples e 100% gratuito.