Psicóloga do Supernanny espanhol: “O que mais irrita os adolescentes é os pais repetirem as coisas mil vezes e ficarem fiscalizando”

A especialista propõe cumprimentar antes de cobrar e trocar o sermão por consequências combinadas

Quando os pais repetem a mesma ordem várias vezes, os adolescentes costumam ouvir pressão, e não um lembrete. A psicóloga espanhola Rocío Ramos-Paúl, conhecida pela versão espanhola do programa Supernanny, fez a pergunta aos ouvintes do matinal Atrévete, da rádio Cadena Dial, sobre o que mais incomodava neles na adolescência, e ela mesma respondeu: “Que te repitam mil vezes as coisas e que te fiscalizem”.

A fala foi recuperada pelo jornal espanhol ABC, que reuniu as estratégias da psicóloga para conseguir colaboração dos filhos sem transformar a casa num disco arranhado de “arruma o quarto” e “larga o celular”.

Combinar regras e consequências com antecedência reduz a necessidade de cobrar – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Combinar regras e consequências com antecedência reduz a necessidade de cobrar – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Por que repetir a mesma ordem não funciona

A intenção dos pais é boa: insistir para que o filho aprenda a ser responsável. O problema, segundo o ABC, é que o adolescente pode viver esses lembretes como desconfiança e como invasão da autonomia, justamente na fase em que mais busca independência e reconhecimento.

Ramos-Paúl lembra que os pais costumam passar o dia dizendo “estuda”, “põe a mesa” ou “arruma o armário” numa etapa em que o conflito já está presente o tempo todo. Quanto mais a ordem se repete, menos peso ela tem, e a frustração cresce dos dois lados.

O primeiro passo é mudar a recepção em casa

A sugestão inicial da psicóloga parece simples demais: ao chegar em casa, cumprimentar o filho e perguntar como foi o dia, mesmo que ele esteja largado no sofá, sem ter arrumado nada e sem estudar. A ideia é segurar a calma com o sorriso, já que o adulto tem mais condição de manter essa postura do que o adolescente.

Essa mudança de tom costuma surpreender o jovem, que espera a cobrança de sempre. A conversa sobre tarefas fica para depois, num momento combinado.

Como trocar a cobrança por consequências combinadas?

O segundo passo é negociar regras e avisar antes quais serão as consequências. Ramos-Paúl dá um exemplo: “Você tem que estudar e cumprir sua hora de estudo todos os dias. Se não, vai ter que fazer isso no fim de semana, no tempo em que sai com os amigos”.

Depois disso, o combinado é lembrar no máximo três vezes, e não mil. A parte mais difícil para os pais, diz ela, é ficar quietinho esperando a escolha do filho e cumprir a consequência se ele não fizer a sua parte, sem correr atrás dele o tempo todo.

O serviço de saúde do governo de Victoria, na Austrália, segue a mesma linha no guia Better Health Channel: a comunicação negativa, que vira bronca e gritaria, é causa comum de conflito crônico com adolescentes, e as regras da casa funcionam melhor quando definidas junto com eles.

O que os pais ganham ao parar de repetir

Para a psicóloga, o resultado é duplo: os pais se livram das mil repetições que os filhos detestam e ainda educam alguém que pode se tornar responsável, organizado e capaz de cumprir as regras da convivência. A responsabilidade passa a ser do jovem, e não do adulto que vigia.

No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente considera adolescente quem tem entre 12 e 18 anos, uma fase longa em que a relação com os pais muda bastante. Dar escolhas com limites claros ajuda nessa transição, assim como evitar que os pais façam tudo pelos filhos.

Na prática, menos falas e mais combinados

Cumprimente antes de cobrar, combine poucas regras com consequências claras, lembre uma ou duas vezes e cumpra o que foi dito. Recompensas fora de hora também atrapalham, como mostra a psicologia sobre pais que usam doce como prêmio. Se a convivência estiver marcada por brigas constantes, isolamento ou mudanças bruscas de comportamento, vale buscar a orientação de um psicólogo ou do pediatra que acompanha a família.