Psicóloga: “Há uma diferença enorme entre não se magoar mais com algo e não conseguir mais sentir o que aquilo provoca dentro de nós”
Frases como “tanto faz” podem esconder cansaço emocional, e a perda de interesse pede atenção
Quem está ficando emocionalmente indiferente costuma deixar pistas na própria fala, em frases como “tanto faz” ou “não espero mais nada”. Para a psicóloga Ana Maria Sepe, fundadora do site italiano de psicologia Psicoadvisor, esse afastamento nem sempre é sinal de maturidade: “Há uma diferença enorme entre não se magoar mais com algo e não conseguir mais sentir o que aquilo provoca dentro de nós”.
Em artigo publicado nesta quarta-feira (4) no Psicoadvisor, a especialista, pesquisadora em psicanálise, reúne seis frases do dia a dia que podem esconder um distanciamento emocional progressivo. Ela ressalva que uma frase isolada não define o estado psicológico de ninguém. O que pesa é a frequência, o contexto e a mudança em relação ao jeito habitual de sentir e agir.

Nem toda calma significa que a dor foi superada
Segundo Sepe, muitas pessoas que se tornam indiferentes passaram boa parte da vida sentindo demais. Elas se preocupavam e tentavam entender e agradar os outros. Em geral não houve um acontecimento dramático, mas um acúmulo de pequenas decepções, expectativas frustradas e tentativas de conversa que ficaram sem resposta.
Há dois caminhos possíveis, diz ela. Num, a pessoa elaborou a experiência e criou limites mais saudáveis. No outro, aprendeu a se afastar do que sente porque entrar em contato com isso ficou cansativo demais.
Quais frases podem indicar distanciamento emocional?
Em tradução livre, as frases do artigo são:
- Faça como quiser, para mim tanto faz.
- Não tenho mais vontade de explicar como me sinto.
- Já não espero mais nada de ninguém.
- Antes eu teria ficado muito mal, agora não sinto mais nada.
- Não tenho mais força nem para ficar com raiva.
- Não consigo mais me empolgar com nada.
Para a especialista, por trás do “tanto faz” muitas vezes está alguém que deixou de acreditar que seria ouvido, porque expressar uma necessidade virava briga ou crítica. Já quem não espera mais nada de ninguém pode desenvolver uma autossuficiência defensiva: não pede ajuda, não mostra vulnerabilidade e confunde isso com independência.
O cansaço emocional também aparece no corpo
Sepe lembra que não expressar uma emoção não significa deixar de senti-la. O corpo pode continuar dando sinais, como tensão muscular, inquietação, mudanças no sono e dificuldade para relaxar. A pessoa parece tranquila por fora, mas segue lidando com o estresse. Esse desgaste pode se misturar com o cansaço que muitas mulheres sentem depois dos 35 anos.
A falta de força até para a raiva, segundo ela, costuma aparecer em quem vive sobrecarregado há muito tempo, cuidando de todos e evitando qualquer conflito. Sem pausas para se recuperar, surgem fadiga, irritação, sono ruim e dificuldade de lidar com as próprias emoções. Rever a forma como você trabalha, come e descansa ajuda a enxergar de onde vem parte dessa sobrecarga.
Quando a falta de interesse merece atenção
A última frase pede mais cuidado, porque o distanciamento atinge também o que antes dava prazer. A psicóloga cita a anedonia, a perda da capacidade de sentir prazer, que pode aparecer em alguns quadros depressivos, mas ressalta que a falta de interesse também pode ter outras causas psicológicas, médicas ou ligadas a medicamentos. Quando persiste, sobretudo com cansaço intenso e sono alterado, merece avaliação profissional.
No Brasil, o Ministério da Saúde descreve entre os sintomas da depressão a impressão de ter perdido a capacidade de sentir alegria e a apatia, que alguns pacientes resumem como um “sentimento de falta de sentimento”. Só um profissional consegue diferenciar esse quadro de estresse prolongado ou esgotamento.
Como buscar ajuda sem abrir mão da sensibilidade
Ninguém precisa se tornar indiferente para parar de sofrer, defende Sepe. Para ela, maturidade emocional não é ser impermeável, e sim reconhecer uma emoção, entender o que ela diz e decidir como agir. Dá para criar limites firmes sem achar que ninguém importa.
Psicólogos e psiquiatras são os profissionais indicados para avaliar sinais assim, e o SUS oferece atendimento gratuito pela Rede de Atenção Psicossocial, com os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), segundo o guia do Ministério da Saúde sobre burnout. Para quem precisa conversar agora, os voluntários do CVV ouvem sem custo e com sigilo no 188, a qualquer hora, além de chat e e-mail.