Psicoterapeuta: “Quem se sente só mesmo cercado de gente costuma ter passado anos mantendo relações em que dava mais do que recebia”

A falta de troca nas amizades pesa mais do que o número de pessoas por perto

Sentir-se só mesmo acompanhado é mais comum do que parece, e para o psicanalista e psicoterapeuta francês Pascal Anger a explicação está menos na quantidade de relações e mais na natureza delas. A reportagem de Nina Parage para a revista Psychologies, publicada em 4 de novembro, resume a ideia: quem tem essa sensação costuma ter passado anos mantendo relações em que dava mais do que recebia.

“Dá para se sentir sozinho estando muito acompanhado”, diz Anger. Ele descreve um sentimento que todo mundo já viveu: aquele momento de desânimo em que a pessoa se sente incompreendida e sem conexão com quem está em volta. A revista trata isso como um sinal de alerta.

Poucos laços em que dar e receber andam juntos fazem mais diferença – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Poucos laços em que dar e receber andam juntos fazem mais diferença – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

A solidão tem a ver com reciprocidade

Para o psicoterapeuta, a amizade verdadeira é rara, e as que existem cabem nos dedos de uma mão. O que define esse laço não é a frequência dos encontros nem a distância, mas a confiança, a reciprocidade e a ausência de julgamento. Dá para passar muito tempo sem se ver e, no reencontro, sentir que nada mudou.

Os números citados pela Psychologies ajudam a entender o descompasso. Segundo o barômetro da amizade do instituto francês Ifop, 8 em cada 10 pessoas veem os amigos como um respiro no dia a dia, mas metade dos franceses diz não ter mais do que três amigos de verdade, uma tendência mais forte entre os jovens de 18 a 24 anos.

Por que dá para estar rodeado e se sentir sozinho?

A Organização Mundial da Saúde separa os dois conceitos. Isolamento social é a falta objetiva de contatos. Solidão é o sentimento doloroso que nasce da distância entre as conexões que a pessoa deseja e as que de fato tem. Em relatório de junho de 2025, a OMS estimou que 1 em cada 6 pessoas no mundo é afetada pela solidão.

Quando as conversas ficam na superfície, ninguém pergunta de verdade como você está e você representa um papel em vez de ser quem é, o entorno vira cenário. Às vezes a sensação é passageira, ligada a uma fase de transição. Outras vezes indica que o círculo de amigos não acompanhou a pessoa que você se tornou.

Sinais de que a relação pesa mais de um lado

Anger descreve a amizade tóxica como “uma amizade assimétrica em que se sofre com a malevolência do outro, que não nos ajuda a ter confiança em nós mesmos e que nos rebaixa sem parar”. Ele lembra que esse tipo de vínculo é construído a dois, às vezes de forma consciente, às vezes sem perceber. A revista lista alguns sinais de alerta:

  • evitar certos assuntos por medo de julgamento;
  • sair dos encontros esgotado em vez de recarregado;
  • ter a impressão de dar sem nunca receber;
  • fazer coisas que não combinam com você só para ser aprovado pelo outro.

Como começar a mudar o jogo

O primeiro passo sugerido pelo psicoterapeuta é olhar para si com honestidade e perguntar se é o próprio estado emocional que não vai bem e do que você precisa para seguir em frente. Ele também propõe um teste simples: se um amigo ligasse de madrugada com o coração partido, você estaria disposto a ouvir? A resposta diz muito sobre o que você sente por essa pessoa.

A partir daí, fica mais fácil notar quem pergunta de volta e onde a sua energia está indo sem retorno. Aceitar diferenças também conta, já que muitas relações melhoram quando deixamos de exigir que o outro pense igual a nós.

Menos quantidade, mais laços de mão dupla

Ter poucos amigos não é problema em si, e a psicologia mostra que um círculo menor depois dos 60 não significa isolamento. O que pesa é a falta de troca. Se a solidão persiste e atrapalha o dia a dia, um psicólogo pode ajudar. No Brasil, as unidades básicas de saúde do SUS e as clínicas-escola de psicologia das universidades são portas de entrada, e o CVV atende de graça pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Em resumo: observe quem retribui, pergunte a si mesmo o que está faltando e invista em poucos vínculos em que dar e receber andem juntos.