Rodas, encontros e liberdade: skate une mulheres em rolês em São Paulo
Projeto mostra que aprender a andar de skate pode ser o começo de algo maior: pertencimento, amizade e fortalecimento coletivo entre mulheres
O que começa como um desejo individual pode, com o tempo, se transformar em um movimento coletivo. Foi assim que nasceu o SkateparaElas, criado por Amanda Saraiva 39 anos, após perceber a ausência de mulheres no skate.
“Comecei a andar em 2015 e não via e nem encontrava outras mulheres andando também. Pensei que se eu criasse uma forma de facilitar a inserção de mulheres no skate poderia trazer muitas para a prática do esporte.”
Sem ser professora na época, Amanda decidiu agir. “Naquele tempo eu não era professora de skate, mas eu resolvi ajudar ensinando outras mulheres a base inicial do skate.”
O que parecia uma iniciativa simples logo mostrou que havia algo maior acontecendo.

O nascimento de uma comunidade
Desde o primeiro encontro, em 2019, ficou claro que o impacto ia além da prática esportiva. “Desde o primeiro encontro do SkateParaElas em 2019 eu percebi que não era só sobre skate…Andar e aprender juntas nos trouxe muita segurança e auto confiança! Além de ser muito mais divertido.”
A experiência coletiva se tornou o centro do projeto. O skate virou um ponto de encontro, mas o que realmente cresceu foi o vínculo entre as participantes.
“Com o passar dos anos fomos unindo pelo skate. Mulheres incríveis que usam o skate como um verdadeiro ato de liberdade e se ajudam mutualmente nas ações do projeto. E na vida também.”

Acolhimento como base de tudo
Um dos pilares do SkateparaElas é a construção de pertencimento desde o primeiro contato. A proposta do projeto se apoia em um ambiente acolhedor, pensado para que qualquer mulher que chegue, especialmente pela primeira vez, se sinta confortável e bem-vinda.
Os encontros vão além da prática do skate e começam com algo essencial: a escuta. As participantes são convidadas a se apresentar e compartilhar o que as motivou a aprender a andar de skate, criando um espaço de troca logo no início da experiência.
Esse momento funciona como um gatilho de conexão. Ao perceberem que dividem histórias, inseguranças e desejos semelhantes, as mulheres passam a se reconhecer umas nas outras, fortalecendo laços de empatia e tornando o grupo mais unido desde os primeiros minutos.
O resultado é uma rede que cresce de forma orgânica. “Muitas vão sozinhas e fazem amizades, começam a frequentar outras ações do projeto o que nos torna essa grande comunidade feminina”, diz Amanda.
Uma cultura de apoio que se sustenta
Dentro do grupo, a lógica é simples: quem aprende, ensina. Muitas que aprenderam os primeiros passos no início do projeto ainda frequentam os aulões e ajudam quem está chegando e ainda não sabe.
Essa dinâmica reduz barreiras e elimina a competitividade. “SkateParaElas não é só um ambiente onde você se relaciona com o skate, mas onde você se relaciona com outras mulheres sem competitividade mas com empatia. Todas estamos aprendendo.”

Quebrando barreiras e resgatando sonhos
O projeto também enfrenta um obstáculo comum: a ideia de que existe idade certa para começar. “É bem comum a frase: “não tenho mais idade para aprender skate..” mas também é bem comum essa frase vir seguida de: ‘Eu era louca para aprender skate quando criança!’.”
Mais do que aprender algo novo, muitas participantes estão realizando um desejo antigo, muitas vezes reprimido.
“A visão de um esporte infantilizado tem mudado, e também o desejo de realização do sonho de infância para muitas”, observa Amanda.
Comunidade como forma de ocupar espaço
O impacto do SkateparaElas ultrapassa o grupo. Ele dialoga com a presença feminina no esporte e com a construção de novos espaços de pertencimento.
“Acredito que iniciativas como a minha ajudam a unir mulheres através de um interesse em comum; o skate é o nosso mas toda iniciativa que trabalha para unir mulheres faz todo sentido, seja qual for o esporte ou interesse em comum.”

E essa união gera visibilidade e mudança. “Quando nos unimos no skate temos mais presença, voz e respeito no esporte!”
Hoje, o SkateparaElas não é apenas sobre aprender manobras. É sobre criar um espaço onde mulheres se reconhecem, se apoiam e crescem juntas, dentro e fora das pistas.