Virar a noite estudando pode fazer você aprender menos: entenda o papel do sono na memória

Por EdiCase

Para muitos estudantes, principalmente às vésperas de uma prova importante, reduzir o tempo de descanso pode parecer uma boa estratégia para ganhar mais horas de estudo. No entanto, a neurociência mostra que essa escolha pode não ser tão vantajosa. Mais do que um período de descanso, o sono desempenha um papel importante na consolidação das informações aprendidas.

A meta-análise “Bayesian meta-analysis reveals the mechanistic role of slow oscillation-spindle coupling in sleep-dependent memory consolidation“, publicada em 2025 na revista científica eLife, reuniu dados de 23 estudos e 297 tamanhos de efeito para investigar justamente a relação entre mecanismos do sono e retenção de memória. O trabalho identificou uma associação entre o acoplamento preciso e forte de dois padrões de atividade cerebral que acontecem durante o sono profundo (as oscilações lentas e os chamados fusos do sono) e a consolidação das memórias.

Segundo o médico Renato Gama, professor da pós-graduação em Neurologia da Afya Educação Médica do Rio de Janeiro, o cérebro não simplesmente “desliga” durante o sono. Ao contrário, ele passa por processos fundamentais para transformar informações recentes em memórias mais estáveis.

“Durante o sono, principalmente nas fases mais profundas, o cérebro reorganiza as informações adquiridas durante o período de vigília. É como se ele fizesse uma seleção e integração do que foi aprendido, fortalecendo determinadas conexões entre os neurônios. Por isso, dormir depois de estudar é parte do processo de aprendizagem, e não uma interrupção dele”, afirma o neurologista.

Sono ajuda a consolidar a memória

Durante o dia, o estudante entra em contato com uma grande quantidade de informações. Parte delas permanece temporariamente disponível, mas isso não significa que tenha sido consolidada como memória de longo prazo.

É durante o sono que diferentes mecanismos contribuem para essa consolidação. A mesma pesquisa publicada na eLife investigou especificamente a relação entre as oscilações lentas e os fusos do sono. Os resultados apontaram que, quanto mais preciso e forte é o acoplamento entre esses dois padrões de atividade durante o sono profundo, maior tende a ser a retenção das informações.

O fenômeno é particularmente observado no lobo frontal e está relacionado à forma como o cérebro processa e estabiliza as memórias adquiridas anteriormente. Para Renato Gama, isso ajuda a explicar por que passar mais tempo diante dos livros nem sempre significa aprender mais.

“Existe uma diferença entre exposição ao conteúdo e aprendizagem. O estudante pode passar cinco ou seis horas lendo, mas, se estiver privado de sono, pode ter dificuldade para consolidar aquilo que estudou. A memória depende tanto do momento em que adquirimos a informação quanto do que o cérebro faz posteriormente com ela.”

Reduzir o tempo de sono para estudar pode prejudicar a atenção e dificultar o acesso às informações aprendidas (Imagem: Rimma Bondarenko | Shutterstock)
Reduzir o tempo de sono para estudar pode prejudicar a atenção e dificultar o acesso às informações aprendidas (Imagem: Rimma Bondarenko | Shutterstock)

Estudar até de madrugada atrapalha?

Não necessariamente a madrugada em si é o problema. O principal fator é sacrificar horas de sono para aumentar o tempo de estudo. Uma pessoa pode ter preferência por estudar à noite e manter um bom desempenho se conseguir preservar duração e regularidade adequadas do sono. O problema aparece quando o estudo noturno se prolonga às custas do descanso. Nesse caso, o estudante reduz justamente o período em que o cérebro realiza processos importantes para a consolidação da memória.

A privação de sono também pode prejudicar funções necessárias para o próprio estudo, como atenção, concentração, velocidade de processamento e capacidade de recuperar informações. “Se o estudante passa a noite estudando e dorme poucas horas, ele não perde apenas o período de descanso. No dia seguinte, pode apresentar redução de atenção, maior sonolência e dificuldade para acessar informações que já estavam disponíveis. É um efeito que pode criar um ciclo: estuda mais, dorme menos, aprende com menos eficiência e precisa de ainda mais tempo para estudar”, explica o médico da Afya.

Descanso adequado é fundamental para a aprendizagem

De acordo com o especialista, dormir depois de estudar é tão importante quanto estudar. O ideal é que o sono seja incorporado à rotina de preparação para as provas, e não tratado como algo que pode ser eliminado quando o conteúdo se acumula.

A memória também depende de outros fatores, como o tipo de informação aprendida e características individuais. A própria meta-análise identificou diferenças relacionadas ao tipo de memória, ao envelhecimento, à frequência dos fusos e à localização desses eventos no cérebro.

Por isso, para quem está se preparando para vestibulares e concursos, a estratégia não deve ser transformar o sono em tempo perdido. Estudar, fazer pausas, revisar o conteúdo e dormir fazem parte de um mesmo processo de aprendizagem.

“Não existe ganho real em trocar sistematicamente sono por horas adicionais de estudo. O melhor rendimento acontece quando o estudante consegue equilibrar aquisição de conhecimento e recuperação. O sono não é o que vem depois do aprendizado: ele também participa da construção da memória”, conclui Renato Gama.

Por Maria Clara Montanha