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Afeganistão: casal brasileiro conta como foi viajar sob a sombra do talibã

Em 2007, a arquiteta Michelle Weiss e o administrador de empresas Roy Rudnick largaram tudo para viajar o mundo a bordo de um 4x4

Por: Redação

O casal brasileiro Michelle Weiss, 36 anos, e Roy Rudnick, 46, faz parte da restrita lista de brasileiros que estiveram no Afeganistão a passeio. Em 2016 eles cruzaram o país de carro numa aventura que durou 16 dias sob a sombra do grupo extremista talibã.

Michelle e Roy presenciaram os costumes e tradições dos afegãos que viviam ‘escondidos’ dos guerrilheiros, que ainda não dominavam todo o Afeganistão à época. De acordo com o casal de São Bento do Sul, norte de Santa Catarina, a população afegã conseguia levar uma vida “normal”, apesar da extrema pobreza.

Afeganistão casal brasileiro
Crédito: Arquivo pessoalMichelle e Roy Rudnick em uma estrada próximo a Sarhad, no Afeganistão

“Guerras não nos fascinam, muito pelo contrário, mas temos corações de viajantes, quanto mais vemos, mais queremos ver”, diz Roy.

Parte da aventura é contada no livre “Mundo por Terra – Onde Terminam as Estradas”, o segundo escrito pelo casal de aventureiros.

“Presenciamos um acontecimento, no país vizinho Paquistão, em 2008, em que aviões militares estavam indo bombardear o Afeganistão e aquilo despertou em nós uma curiosidade imensa em conhecer como era a vida lá. Como vivem seus habitantes em meio a tanta instabilidade e combates”, relata o casal brasileiro no livro.

Afeganistão
Crédito: Arquivo pessoalO casal brasileiro Roy Rudnick e Michelle Weiss em uma yurt (cabana) no Afeganistão

Em 2008, a capital Cabul e outras cidades importantes estavam “protegidas” pelos aliados das forças do governo afegão, porém muitas estradas de acessos entre elas eram controladas pelos talibãs. Estrangeiros eram frequentemente alvos de sequestros e atentados.

Em 2016 o sonho de conhecer o Afeganistão se tornou realidade. Roy e Michelle contam que quando entraram no pais, nas proximidades da cidade de Ishkashim, a emoção se confundiu com a razão.


#DicaCatraca: sempre lembre de usar a máscara de proteção, andar com álcool em gel, respeitar o distanciamento social e sair de casa somente se necessário! Caso pertença ao grupo de risco ou conviva com alguém que precise de maiores cuidados, evite passeios presenciais. A situação é séria! Vamos nos cuidar para sair desta pandemia o mais rápido possível. Combinado?


Cruzando o Afeganistão de carro

Mesmo sabendo das condições de segurança, Michelle e Roy estavam receosos. E bastou cruzar a fronteira para tudo mudar. Havia muitos homens pelas ruas e as poucas mulheres que circulavam na pequena cidade, cobriam-se por completo com burcas azuis com um véu em frente aos olhos para que nada delas aparecesse em público.

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Crédito: Arquivo pessoalRoy e Michelle na Karakoram Highway, na divisa do Paquistão com o Afeganistão e eu vai até a divisa com a China

De Ishkashim seguiram num pequeno motorhome 4×4, com placa brasileira, por uma das piores estradas que já dirigiram. O casal relata que para rodar 210 km levaram dois dias e meio.

A região de Ishkashim fica no nordeste do Afeganistão, que se estende por 350 km até a China, tendo ao norte o Tadjiquistão e ao sul o Paquistão, conhecido como Corredor de Wakhan –criado no final do século 19 pelo Império britânico para impedir a Rússia de chegar à Índia durante a ocupação e considerado um dos lugares mais remotos do planeta.

No trajeto, Michelle e Roy presenciaram os costumes e tradições do povo local, que vivia distante do talibã à época.

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Crédito: Arquivo pessoalA fronteira do Paquistão com o Afeganistão

“Os encontros que tínhamos com os locais pelo caminho colaboravam para manter o nosso ritmo lento, pois ao acenar para alguém recebíamos de volta um sorriso tão sincero que nos comovia. Percebíamos que os acenos vinham do coração, de pessoas de uma pureza e inocência sem igual”, descreve o casal.

O casal conta que as mulheres que vivem no campo não usam burcas como as da cidade, pois pertencem a uma etnia diferente –os chamados wakhi. Usam lenços para cobrir as cabeças e se vestem da forma tradicional abusando das cores e adornos compondo imagens bonitas e elegantes.

Como na região o serviço médico é escasso, cada vez que paravam o carro, alguém morador pediu remédios. Mas, segundo eles, algumas ONGs trabalhavam para melhorar o padrão da vida local e havia muitas escolas ao longo caminho.

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Crédito: Arquivo pessoal As simpáticas crianças afegãs

O casal brasileiro relata no livro que o Ministério de Relações Exteriores da Noruega aproveitou alguns anos de estabilidade política na região (antes de 2008) e ajudou a desenvolver melhorias na infraestrutura para o turismo. Foram criadas pousadas e restaurantes, mas, com o reaparecimento dos talibãs, os turistas sumiram e toda a estrutura ficou subutilizada.

No ano em que estiveram lá, em 2016, o Vale Wakhan recebeu apenas 100 estrangeiros e no ano anterior, metade disso.

Sarhad é a última vila do vale e demarca o término da estrada. O casal diz que o cenário é maravilhoso: casas de barro, mulheres trabalhando em tarefas rotineiras, homens conduzindo animais de carga e compenetrados nas suas plantações. Tudo acontece ao mesmo tempo em meio a uma belíssima luz que reflete no vale e rebate no alto das montanhas que chegam a 7 mil metros de altitude.

Viajando a pé

Mas a viagem de Michelle e Roy pelo Afeganistão não se resumiu ao carro. Pela estrada ter terminado em Sarhad, os dois seguiram a pé, acompanhados por um afegão local e mais dois burros de carga por 160 km pelas montanhas Hindu Kush, a parte ocidental do Himalaia.

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Crédito: Arquivo pessoalRoy Rudnick com pães para a viagem pelo Afeganistão

Lá, o casal brasileiro voltou no tempo tendo a oportunidade de se deparar com caravanas de iaques –bois da montanha, que transportavam suprimentos às comunidades wakhis e quirguizes que vivem isolados próximos ao lago Chaqmaqtin, a mais de 4 mil metros de altitude. As caravanas da Rota da Seda deviam ser assim, aliás, elas não passavam longe dali.

Além das histórias sobre as diferenças culturais dos povos, as burocracias nas fronteiras, as amizades, os problemas mecânicos, a comunicação, o casal carrega na bagagem experiências inesquecíveis vivenciadas na passagem pelo Afeganistão, como o convívio feminino neste mundo islâmico.

“Viajar por este mundo predominantemente masculino é difícil sob o ponto de vista de uma mulher. Lá elas não são nada, não têm direitos. Ficam em casa, trancadas, quase sem nenhum contato com o mundo externo. A lei masculina diz que devem ser preservadas”, relata Michelle.

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Crédito: Arquivo pessoal Parte da viagem pelo Afeganistão foi feita a pé

“Seus maridos defendem o costume, dizendo que isso acontece porque as admiram, porque as respeitam, mas, em minha opinião, é bem ao contrário. Se elas fossem respeitadas, não precisariam se esconder para não serem assediadas”, completa Michelle, que teve o contato com o mundo islâmico não apenas no Afeganistão, mas em outros países do Oriente Médio durante suas viagens, como Paquistão, Ira e Turquia.

Michelle e Roy revelam que queriam conhecer a cultura dos afegãos e entender como era viver tão próximos ao talibã, que surgiu com objetivo de restaurar a paz e a segurança em um Afeganistão marcado pela guerra civil, mas, durante 20 anos, suas ações foram pautadas na recuperação do território e em expulsar os Estados Unidos e a OTAN do país, desde a ocupação em 2001.

Duas ‘voltas ao mundo’

Em 2007, a arquiteta Michelle Weiss e o administrador de empresas Roy Rudnick largaram tudo para viajar o mundo a bordo de um pequeno motorhome 4×4.

volta ao mundo
Crédito: Arquivo pessoalO casal brasileiro Michelle Weis e Roy Rudnick já deram duas “voltas ao mundo”

Desde então, o casal já cruzou cinco continentes, passando por 103 países e rodou mais de 300 mil km em 2.230 dias (6 anos e 2 meses) na soma das duas viagens.

Toda a aventura é relatada no projeto o “Mundo por Terra“, que resultou em dois livros.

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