Camurim Grande, a casa de praia que virou refúgio de luxo em Maragogi (AL)

Pousada entre o rio e o mar combina gastronomia, bem-estar e uma paisagem construída pelos próprios donos ao longo de mais de três décadas

Há lugares que parecem ter sido desenhados pela natureza. Outros são construídos aos poucos, ao longo de décadas, por quem aprendeu a conhecer cada árvore, cada curva do rio e cada mudança da maré. A história da Pousada Camurim Grande, em Maragogi (AL), pertence às duas categorias.

Quando o casal Marcelo Lacerda e Cristiana Freire, a Kiti, chegaram ali, o acesso à pequena península nem sequer existia. O terreno era parte de um projeto de loteamento e havia pouca ou quase nenhuma vegetação, depois de a área ter sido desmatada para dar lugar aos lotes.

A bela e ampla piscina da Camurim Grande, em Maragogi (AL)
A bela e ampla piscina da Camurim Grande, em Maragogi (AL) - Márcio Diniz/Catraca Livre

Para chegar à futura casa de praia, o casal precisou negociar, comprar áreas vizinhas e, mais tarde, construir uma ponte sobre o rio.

“Estamos aqui há mais de 30 anos. Cheguemos e não tinha nenhuma dessas árvores ao nosso redor”, conta Marcelo apontado para a exuberante castanheira próxima à piscina.

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Oásis verde pé na areia

As árvores vieram com o tempo. Muitas foram plantadas pelos pais de Marcelo, outras pelo próprio casal. Coqueiros, mangueiras, cajueiros e outras espécies cresceram até transformar o terreno em um bosque à beira-mar.

Antiga casa de praia da família se transformou numa das pousadas mais luxuosas de Maragogi (AL)
Antiga casa de praia da família se transformou numa das pousadas mais luxuosas de Maragogi (AL) - Divulgação

Hoje, são cerca de 850 árvores espalhadas pela propriedade. Entre elas, a vida também ganhou espaço. Iguanas e pequenos lagartos cruzam os caminhos, saguis aparecem entre as copas e arriscam uma leve interação, pássaros ocupam os jardins e coelhos —sim, e são muitos— circulam livremente pela pousada. Principalmente durante o café da manhã, quando não é raro vê-los por perto, como se também fizessem parte da rotina da pousada.

Dos mais de cinco hectares que formavam originalmente a área, apenas cerca de 5% foi ocupado pelas construções. As 20 acomodações aparecem entre o verde, enquanto manguezais e jardins fazem a passagem entre a casa, o rio e o mar.

Interior de um dos aconchegantes chalés da Camurim Grande, em Maragogi (AL)
Interior de um dos aconchegantes chalés da Camurim Grande, em Maragogi (AL) - Divulgação

Talvez seja por isso que a Camurim Grande tenha uma atmosfera diferente. Há ali algo que não se constrói apenas com arquitetura ou decoração, que aliás, são de muito bom gosto e requinte. É a sensação de estar em uma casa que foi cuidada durante décadas e que, em algum momento, abriu suas portas para que outras pessoas também pudessem experimentar aquele lugar.

A casa, aliás, era exatamente isso: uma casa de praia –ela ainda existe e parte inferior foi transformada no restaurante onde são servidos o café da manhã, almoço e jantar. A pousada surgiu depois, quase como uma extensão natural dessa história. Um grupo de amigos de Brasília, que queria passar o Réveillon reunindo toda a família, lançou ao casal o desafio de construir alguns bangalôs para acomodá-los. A ideia foi adiante e acabou dando origem à pousada.

Recepção da pousada Camurim Grande
Recepção da pousada Camurim Grande - Márcio Diniz/Catraca Livre

A história da propriedade continuaria, então, a ser construída aos poucos. Marcelo e Kiti seguiram adquirindo terrenos que faziam parte do antigo loteamento até reunir toda a área em uma única propriedade. O que poderia ter sido dividido em dezenas de lotes permaneceu como um território contínuo, hoje com cerca de oito hectares e aproximadamente 600 metros de frente para o mar.

A decisão de manter apenas 20 acomodações também faz parte dessa história. Em vez de ocupar o espaço conquistado, o casal escolheu preservar o espaço que sempre marcou o lugar.

O luxo, então, ganha outro significado. Está no silêncio de uma manhã sem compromissos, na água morna da maré, no café tomado sem pressa, na sombra de um castanheiro, no céu que muda de cor ao entardecer.

Pousada combina gastronomia, bem-estar e uma paisagem construída pelos próprios donos ao longo de mais de três décadas
Pousada combina gastronomia, bem-estar e uma paisagem construída pelos próprios donos ao longo de mais de três décadas - Márcio Diniz/Catraca Livre

E está, sobretudo, no tempo.

Porque na Camurim Grande não é preciso preencher o dia. Basta caminhar, olhar o mar, ouvir o vento entre os coqueiros e deixar que Maragogi aconteça devagar.

É nesse ritmo que a experiência começa a ganhar outras dimensões —à mesa, no contato com os sabores da região, e também nos momentos dedicados ao bem-estar, que ocupam um lugar importante na proposta da pousada.

Gastronomia que nasce do território

A gastronomia da Camurim Grande segue o mesmo princípio que orientou a construção da pousada: respeitar o tempo e o lugar. À frente da cozinha está o chef pernambucano Rogério Costa, que trabalha com uma culinária contemporânea marcada pela valorização de ingredientes locais, frescos e sazonais do litoral alagoano.

Na Camurim Grande, o café da manhã também acontece sem pressa. Servido até o meio-dia, reúne frutas frescas, bolos preparados na própria pousada, sabores regionais, espumante, sucos da estação e receitas afetivas. Não há uma mesa única nem um horário rígido. O hóspede pode escolher onde quer começar o dia —à beira da piscina, na própria acomodação, no restaurante ou diante do encontro do rio com o mar.

A proposta se estende às outras refeições. Peixes, frutos do mar e ingredientes encontrados na região aparecem em preparos contemporâneos, ao lado de receitas que preservam referências da cozinha nordestina. O resultado é uma cozinha que procura valorizar o que vem de perto, respeitando a sazonalidade e deixando que os ingredientes tenham protagonismo.

Há ainda experiências que reforçam essa relação entre comida e paisagem. Uma delas acontece sobre a antiga ponte da propriedade, recuperada durante a pandemia e transformada em um pequeno mirante sobre o manguezal. É ali, especialmente nos momentos de maré baixa e ao entardecer, que a pousada serve seu tradicional chá da tarde. Mais do que uma refeição, o momento funciona como uma pausa —dessas em que a paisagem também passa a fazer parte da mesa.

O corpo também entra no ritmo

Se a gastronomia desacelera o dia pelo paladar, o Spa Verde Camurim propõe fazer o mesmo pelo corpo. Criado por Cristiana Freire, o espaço reúne massagens terapêuticas, rituais corporais e experiências sensoriais pensadas para aliviar tensões e favorecer uma sensação de equilíbrio.

Na Camurim Grande, o café da manhã também acontece sem pressa
Na Camurim Grande, o café da manhã também acontece sem pressa - Márcio Diniz/Catraca Livre

A relação de Cristiana com esse universo, porém, vai além dos tratamentos. Toda a linha de amenities da pousada foi desenvolvida por ela, dos sabonetes aos óleos essenciais e produtos corporais. Todos são veganos e também estão disponíveis para compra, permitindo que parte da experiência da Camurim Grande acompanhe o hóspede depois da viagem.

A paixão pelos sabonetes começou durante a pandemia, conta Cristiana. O que surgiu naquele período como uma descoberta pessoal acabou se transformando em uma linha própria, criada artesanalmente e integrada à proposta de bem-estar da pousada.

Toda a linha de amenities da pousada foi desenvolvida pela Kiti
Toda a linha de amenities da pousada foi desenvolvida pela Kiti - Márcio Diniz/Catraca Livre

As terapias combinam diferentes técnicas, aromas botânicos, óleos essenciais e movimentos adaptados ao ritmo de cada pessoa. Entre massagens, banhos de ervas, sauna a vapor e rituais sensoriais, o spa prolonga a mesma ideia que atravessa a experiência da pousada: não é preciso preencher o tempo o tempo todo. Em alguns momentos, basta desacelerar, ouvir o próprio corpo e deixar que o lugar faça parte desse intervalo.