Do esqui ao vinho: como combinar neve e enoturismo na mesma viagem ao Chile

Depois de passar pelas pistas de Valle Nevado, viagem segue por vinícolas de Santiago à região de Santa Cruz

Depois dos dias dedicados ao esqui no Valle Nevado, a segunda parte da viagem pelo Chile muda de cenário e de ritmo. O foco agora são os vinhos, em um roteiro que passa por vinícolas, degustações, gastronomia e hospedagens ligadas à produção vitivinícola do país, em especial o cabernet sauvignon.

Esta etapa da viagem foi realizada em parceria com a Wines of Chile, organização que reúne produtores e trabalha na promoção dos vinhos chilenos no mercado internacional. O enoturismo é uma das opções para quem visita o país, especialmente no inverno, quando pode ser combinado com os dias de esqui na Cordilheira dos Andes.

Vinho de um lado, neve do outro: dá para ter os dois na mesma viagem ao Chile
Vinho de um lado, neve do outro: dá para ter os dois na mesma viagem ao Chile - Márcio Diniz/Catraca Livre

Em 2025, o Chile superou a marca de 800 mil turistas brasileiros, impulsionado pelo forte interesse em roteiros de enoturismo e pela consagração da Vinícola VIK, localizada no Vale de Millahue, eleita a melhor vinícola do mundo pelo ranking The World’s 50 Best Vineyards 2025.

O Chile é o quarto maior exportador de vinhos do mundo. Cerca de 18% da produção total é destinada ao mercado brasileiro. Em 2025, foram 8,5 milhões de caixas para o Brasil, com um destaque especial para os vinhos de alta gama, que cresceram 5% em valor.

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Uma vinícola histórica dentro de Santiago

A proximidade com Santiago facilita a inclusão das vinícolas no roteiro. A menos de 30 minutos da capital, o Vale do Maipo reúne propriedades que permitem conhecer diferentes momentos da produção de vinhos no Chile, entre caves, vinhedos e degustações.

Vinhedos da Cousiño Macul com a Cordilheira dos Andes ao fundo
Vinhedos da Cousiño Macul com a Cordilheira dos Andes ao fundo - Márcio Diniz/Catraca Livre

Uma delas é a Cousiño Macul, fundada em 1856 e ainda administrada pela família fundadora. Os vinhos são elaborados a partir de nove variedades: Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Cabernet Franc, Petit Verdot, Chardonnay, Sauvignon Gris e Sauvignon Blanc Riesling. Mais de 60% da produção corresponde a vinhos tintos.

Na Cousiño Macul, os tours permitem conhecer diferentes etapas da produção de vinho e a história da propriedade. No passeio tradicional, o visitante percorre a vinícola onde são produzidos vinhos premium e ícones, passa pelas antigas cubas utilizadas no século 19, pelas caves centenárias e pelo museu. A visita dura cerca de uma hora e inclui três degustações, além de uma taça de vinho de presente e acesso ao Jardim de Macul.

A Viña Cousiño Macul cultiva 9 variedades principais de uvas em seus vinhedos no Chile
A Viña Cousiño Macul cultiva 9 variedades principais de uvas em seus vinhedos no Chile - Márcio Diniz/Catraca Livre

Para quem busca uma experiência mais longa, o Tour Premium dura cerca de uma hora e meia e acrescenta à visita três degustações da linha Premium acompanhadas de harmonizações. Há ainda o passeio de bicicleta pelo vinhedo, com quatro degustações e duração aproximada de 1h30, disponível para maiores de 18 anos. Os tours custam a partir de CLP$ 37.500 (Cerca de R$ 210, por pessoa).

Entre caves e vinhedos

Em Alto Jahuel, a Viña Santa Rita reúne produção de vinhos, patrimônio histórico e paisagem em uma mesma visita. Fundada no século 19, a propriedade mantém vinhedos históricos, construções de arquitetura colonial e jardins centenários. As visitas guiadas passam pelas antigas caves de envelhecimento, onde barricas de carvalho armazenam rótulos da vinícola, e relacionam a produção de vinho a episódios da história do Chile.

Cave da Viña Santa Rita, em Alto Jahuel
Cave da Viña Santa Rita, em Alto Jahuel - Márcio Diniz/Catraca Livre

A vinícola foi eleita a mais bonita do mundo pelo The World”s 50 Best Wineries 2025, pela revista Forbes, e recebeu o título de “Melhor Experiência de Enoturismo Responsável” pela Organização Mundial de Enoturismo (OMET) em 2024.

O passeio inclui degustações comentadas, caminhadas pelos jardins e uma visita ao Museo Andino, que reúne uma das principais coleções privadas de arte pré-colombiana do país. As peças ajudam a apresentar aspectos da história e da cultura dos povos originários da região andina.

A gastronomia também faz parte da experiência. O Restaurante Doña Paula ocupa um antigo casarão colonial que integra o conjunto histórico da propriedade e homenageia a personagem ligada ao período da independência chilena. O espaço preserva paredes de adobe, vigas aparentes, móveis de época e obras de arte coloniais, enquanto o cardápio combina receitas tradicionais chilenas e pratos de inspiração internacional, com vista para os jardins e os vinhedos do Vale do Maipo.

Interior da Café La Panadería
Interior da Café La Panadería - Márcio Diniz/Catraca Livre

Para uma parada mais informal, o Café La Panadería funciona na antiga padaria da fazenda. O espaço preserva parte das instalações originais, incluindo fornos e equipamentos utilizados no passado, e serve cafés, sucos naturais e refeições leves. No local também estão expostos os chamados Carros de Sangre, antigos vagões puxados por cavalos que faziam o transporte entre a propriedade e a cidade de Buin.

Aos pés da Cordilheira dos Andes

Em Pirque –a cerca de 1h de  carro de Santiago–, a Viña El Principal está aos pés da Cordilheira dos Andes, na região do Alto Maipo, onde os vinhedos se encontram com a paisagem das montanhas. A propriedade recebe visitantes para tours pelas instalações e degustações que apresentam os vinhos como expressão do terroir local.

A Viña El Principal é reconhecida por seus vinhos de produção limitada e rótulos ultra-premium
A Viña El Principal é reconhecida por seus vinhos de produção limitada e rótulos ultra-premium - Márcio Diniz/Catraca Livre

O Tour El Principal é a principal opção para quem quer conhecer o processo de produção. Com duração de uma hora e meia, a visita passa pelos processos de elaboração e pela calicata, área usada para observar as características do solo, antes de chegar à degustação de quatro vinhos: Kiñe, Calicanto, Memorias e El Principal. Os rótulos são acompanhados por queijos. O valor é de CLP$ 72.990 (R$ 410), por pessoa.

Outra possibilidade é o passeio ao pôr do sol, com duas horas de duração. Depois da visita aos vinhedos, o roteiro segue para um mirante com vista panorâmica, onde são servidos charcutaria e três vinhos da propriedade: Kiñe, Calicanto e Memorias. A experiência inclui ainda música ambiente e acontece no fim da tarde. Neste caso, o valor é CLP$  77.900 (R$ 430).

Há também uma opção que combina vinho e gastronomia por CLP$ 102.900 (R$ 570). O passeio pela zona rural começa com uma visita à vinícola, à sala de envelhecimento e à adega. Depois, o grupo segue para o mirante, onde é servido um almoço inspirado no churrasco chileno, com carnes, saladas, acompanhamentos e sobremesa, acompanhado por três vinhos da propriedade.

Os rótulos da El Principal servidos na degustação
Os rótulos da El Principal servidos na degustação - Márcio Diniz/Catraca Livre

As experiências são oferecidas de segunda a sábado e podem ser realizadas em espanhol, inglês ou português. A programação inclui diferentes durações e formatos, permitindo escolher entre uma visita dedicada à produção, um passeio no fim da tarde ou uma experiência que combina degustação e almoço diante da Cordilheira dos Andes.

Vinhos, Feng Shui e cantos gregorianos

No Vale de Apalta, no coração de Colchagua, a cerca de duas horas de carro de Santiago, a Viña Montes ocupa uma propriedade de 400 hectares, sendo 124 hectares de vinhedos. Dedicada à produção de vinhos premium e ultra premium, a vinícola concentra ali também uma parte importante de sua proposta de enoturismo, que combina visita às instalações, degustações e gastronomia.

Viña Montes ocupa uma propriedade de 400 hectares
Viña Montes ocupa uma propriedade de 400 hectares - Márcio Diniz/Catraca Livre

A sede foi inaugurada em 2004, depois de a vinícola ter iniciado sua produção em áreas arrendadas. A construção foi planejada segundo os princípios do Feng Shui, técnica milenar chinesa que orientou a organização dos diferentes espaços, incluindo a área de produção. A arquitetura acompanha a paisagem de Apalta e estabelece uma relação direta entre os vinhedos e os ambientes da vinícola.

Um dos espaços que fazem parte do percurso é a sala das barricas de carvalho, onde os vinhos passam pelo processo de envelhecimento. O ambiente recebe canto gregoriano durante esse período, uma prática adotada pela vinícola a partir da ideia de que as vibrações sonoras podem interferir na qualidade da bebida.

A visita pode ser feita em diferentes formatos. Os tours percorrem os vinhedos e as áreas de produção, apresentam as etapas de elaboração dos vinhos e terminam com degustações. São três opções de tours e duas modalidades de degustações especiais, realizadas em grupos pequenos, geralmente de até oito pessoas. As experiências com grupos pequenos custa entre CLP$ 50 000 e CLP$ 65 000 (R$ 275 e R$ 360), por pessoa.

A experiência pode continuar à mesa no Fuegos de Apalta, restaurante instalado entre os vinhedos da propriedade e comandado pelo chef argentino Francis Mallmann. Conhecido pelo trabalho com fogo, o chef levou para Colchagua uma cozinha baseada em diferentes técnicas de cocção, com carnes, pescados e vegetais preparados na brasa, na lenha e em outros métodos.

Lomo liso a la parrilla com batatas em dominó, um dos pratos do menu do Fuegos de Apalta
Lomo liso a la parrilla com batatas em dominó, um dos pratos do menu do Fuegos de Apalta - Márcio Diniz/Catraca Livre

O restaurante foi concebido para que a cozinha faça parte do ambiente da refeição. O fogo está no centro da operação e também se relaciona com a paisagem dos vinhedos que cercam o espaço. O almoço pode ser acompanhado pelos vinhos da própria Viña Montes, aproximando a produção da vinícola da experiência gastronômica.

O vinho desce pela gravidade

Ainda no Vale de Colchagua, a Clos Apalta combina referências da tradição francesa com as características do terroir chileno. A vinícola pertence à família francesa Marnier Lapostolle e ocupa uma propriedade de 600 hectares, dos quais 200 são destinados aos vinhedos. O restante da área é formado por vegetação nativa.

Em 2008, a vinícola recebeu o título de Vinho do Ano da Wine Spectator pelo Clos Apalta 2005. Foi o primeiro vinho sul-americano a receber essa honraria.

A vinícola opera de forma biodinâmica e possui uma arquitetura revolucionária de formato cilíndrico construída na encosta de uma montanha de granito
A vinícola opera de forma biodinâmica e possui uma arquitetura revolucionária de formato cilíndrico construída na encosta de uma montanha de granito - Márcio Diniz/Catraca Livre

Fundada em 1994, a Clos Apalta passou a operar na atual estrutura em 2005. A construção foi projetada em formato de ninho de pássaros e organiza a produção em sete níveis, cinco deles subterrâneos. A estrutura chega a 35 metros de profundidade e foi projetada para resistir a terremotos, uma característica considerada na arquitetura de construções no Chile.

A visita começa pelos vinhedos e segue até o chamado ninho de pássaros, onde fica a adega de produção. O desenho da construção permite que o vinho avance pelas diferentes etapas utilizando a gravidade, reduzindo a necessidade de bombas durante o processo. Antes de chegar à área de produção, os visitantes passam por um mirante cercado por 24 vigas de pino laminado.

A vinícola Clos Apalta oferece dois tipos de tour com degustação
A vinícola Clos Apalta oferece dois tipos de tour com degustação - Márcio Diniz/Catraca Livre

O número das vigas faz referência ao período médio de envelhecimento dos vinhos de alta gama produzidos na propriedade. A fermentação e a maturação são realizadas em barricas de carvalho francês, dentro da estrutura subterrânea.

Na parte mais profunda da construção está a adega, onde ficam cerca de 7 mil garrafas. É também nesse espaço que a visita apresenta outra dimensão da produção da Clos Apalta, que elabora três linhas de vinhos de alta gama.

A produção anual chega a aproximadamente 300 mil garrafas, das quais 90% são destinadas à exportação. Entre os rótulos da vinícola estão Prelude, Le Petit Clos e Clos Apalta, que dá nome à propriedade.

Os tours são privativos e exigem no mínimo duas pessoas. O percurso dura entre uma hora e uma hora e meia e inclui os vinhedos, o mirante do ninho de pássaros, o interior da estrutura e, ao final, uma degustação.

A cave onde são guardados os vinhos da família
A cave onde são guardados os vinhos da família - Márcio Diniz/Catraca Livre

A experiência também pode se estender para a hospedagem. Dentro da propriedade está o Clos Apalta Residence, hotel integrante da rede Relais & Châteaux, que permite permanecer no mesmo ambiente onde os vinhos são produzidos.

Os tours têm valores entre CLP$ 40 mil e CLP$ 80 mil (R$ 220 e R$440) por pessoa, de acordo com a experiência escolhida.

Vista de um dos chalés do Clos Apalta Residence
Vista de um dos chalés do Clos Apalta Residence - Márcio Diniz/Catraca Livre

Seguro-viagem é recomendado para esportes de neve

Com a proximidade geográfica e a oferta de estações de esqui, o Chile se tornou uma das principais opções para quem busca contato com a neve na América do Sul. Mas, antes de colocar os equipamentos e subir a montanha, especialistas recomendam atenção a um item que costuma ser deixado em segundo plano: o seguro-viagem.

Apesar de não ser aceito diretamente pelo Valle Nevado, o viajante pode contratar uma proteção para a viagem e, em caso de algum incidente dentro da estação, precisa realizar o pagamento do atendimento e posteriormente solicitar o reembolso à seguradora, conforme as regras do plano contratado.

Teleféricos facilitam o transporte de hóspedes e visitantes no Valle Nevado
Teleféricos facilitam o transporte de hóspedes e visitantes no Valle Nevado - Divulgação

Por isso, é importante verificar se a cobertura escolhida inclui atividades esportivas na neve. Nem todos os seguros oferecem atendimento para práticas consideradas esportivas ou de aventura, e algumas modalidades podem exigir contratação específica.

Além das despesas médicas, planos voltados para esse perfil de viagem podem incluir assistência em situações como acidentes, necessidade de remoção médica e outros imprevistos relacionados ao deslocamento.

A recomendação ganha relevância principalmente porque muitos visitantes chegam às estações de neve sem experiência anterior em esqui ou snowboard. O contato inicial com as pistas envolve aprendizado técnico e adaptação às condições da montanha.

Plano com cobertura para viajantes brasileiros

Entre as opções disponíveis no mercado está o Plano Flat, da Assist Card, que trabalha com preço fixo de acordo com o período da viagem, independentemente do destino escolhido. Para viagens de 1 a 15 dias, o valor informado é de US$ 120 (cerca de R$ 620); para períodos de 16 a 30 dias, o custo é de US$ 180 (R$ 920).

Contratar um seguro-viagem deve fazer parte do orçamento da viagem; assistência custa bem menos do que se imagina
Contratar um seguro-viagem deve fazer parte do orçamento da viagem; assistência custa bem menos do que se imagina - Márcio Diniz/Catraca Livre

O produto oferece cobertura médica de US$ 250 mil (cerca de R$ 1,27 mi), valor superior ao de planos tradicionais com cobertura de US$ 60 mil (R$ 310 mil), mantendo uma faixa de preço fixa para os viajantes. A contratação também permite maior previsibilidade no planejamento da viagem.

O plano foi desenvolvido para atender diferentes perfis de viajantes, incluindo aqueles que buscam destinos internacionais e atividades que exigem atenção maior com assistência médica.

Além da cobertura de saúde, alguns planos da Assist Card incluem benefícios como acesso a salas VIP em aeroportos brasileiros para clientes de determinadas categorias.

*O jornalista viajou a convite do Valle Nevado e Wines of Chile, com seguro da Assist Card