Nos fervedouros do Jalapão, a água sobe com tanta força que o corpo boia sem esforço, e a região do Tocantins guarda o maior remanescente de Cerrado protegido do país
Os fervedouros, as dunas alaranjadas e as cachoeiras ficam no Mosaico do Jalapão, no leste do Tocantins
O Jalapão, no leste do Tocantins, junta dunas alaranjadas, cachoeiras de água transparente e fervedouros, nascentes em que a água sobe com tanta força que o corpo fica boiando. A região integra o Mosaico do Jalapão, que o ICMBio aponta como o maior remanescente de Cerrado protegido do Brasil.

Um mosaico de áreas protegidas com mais de 3 milhões de hectares
O centro turístico da região é o Parque Estadual do Jalapão, criado pela Lei estadual 1.203, de 12 de janeiro de 2001. O texto da lei fixa a área do parque em 158.885 hectares e entrega a administração ao Naturatins, o Instituto Natureza do Tocantins.
Vizinha ao parque fica a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, unidade federal gerida pelo ICMBio. Segundo o plano de manejo integrado do fogo da estação, ela protege cerca de 707 mil hectares de Cerrado em Mateiros, Ponte Alta do Tocantins, Almas e Rio da Conceição, além de Formosa do Rio Preto, já na Bahia.
Com outras unidades, como o Parque Nacional Nascentes do Rio Parnaíba, as duas formam o Mosaico do Jalapão, reconhecido pelo Ministério do Meio Ambiente em setembro de 2016. O documento do ICMBio afirma que o conjunto passa de 3 milhões de hectares e compõe “o maior remanescente de Cerrado protegido por unidades de conservação de proteção integral no Brasil”.
Essa divisão pesa no roteiro: na Serra Geral, o plano do ICMBio só prevê visitação com objetivo educacional, conduzida pela própria unidade. Os passeios clássicos ficam no parque estadual e nos arredores de Mateiros e São Félix do Tocantins, cidades que concentram as principais atrações, de acordo com o guia de viagens Melhores Destinos.
Dunas, serra e cachoeiras dentro do parque estadual
As dunas são o cartão-postal. De acordo com o governo do Tocantins, elas chegam a 40 metros de altura e ficam ainda mais bonitas no fim da tarde, quando o sol se põe atrás da areia.
Essa areia tem origem conhecida. Um estudo de geomorfologia publicado na revista Geonomos, da UFMG, mostra que a Serra do Espírito Santo serve de área fonte para a formação das dunas. A serra tem trilha com vista panorâmica.
Na lista de atrativos controlados pelo Naturatins aparecem ainda a Cachoeira da Velha e a Prainha do Rio Novo. É no Rio Novo que o órgão mantém um projeto de pesquisa com o pato-mergulhão, ave que o ICMBio classifica como criticamente ameaçada de extinção.
Quem gosta de paisagens que misturam areia e água doce pode guardar para outra viagem o parque maranhense de dunas e lagoas reconhecido pela Unesco.
Por que o corpo boia nos fervedouros?
O fervedouro parece uma piscina de areia branca, mas é uma nascente. O estudo da Geonomos explica que ele surge do afloramento ascendente de um aquífero confinado: a água subterrânea sai pelo fundo com forte pressão no sentido vertical.

Essa força mantém a areia muito fina em suspensão e empurra para cima quem entra no poço, o que dá a sensação de flutuar. Os pesquisadores observam que os fervedouros quase sempre aparecem em zonas de veredas, as áreas úmidas típicas do Cerrado.
Cada fervedouro tem regras próprias de banho e de permanência, e o guia passa as orientações antes da entrada.
Qual é a melhor época para ir?
O parque pode ser visitado o ano todo, mas a estação seca, de maio a setembro, é o período que recebe mais visitantes, segundo o governo do Tocantins. Mesmo nesses meses, a areia fofa das estradas causa atolamentos com frequência, alerta o guia Melhores Destinos.
O fim da seca pede atenção: o plano do ICMBio registra que os grandes incêndios nos gerais do Jalapão passaram a se concentrar nessa fase do ano. O Naturatins adota o manejo integrado do fogo há 10 anos, informou o governo do Tocantins em janeiro de 2025.
Como chegar ao Jalapão sem atolar no caminho
Não há aeroporto no Jalapão. A porta de entrada é Palmas, a capital do Tocantins, e a região fica a cerca de 300 quilômetros dela, segundo o guia Melhores Destinos. O trecho até Ponte Alta do Tocantins, de 150 quilômetros, é asfaltado; dali até Mateiros são mais 160 quilômetros de terra.
O mesmo guia recomenda veículo 4×4 com motorista acostumado à areia, porque carros comuns costumam atolar. Há também uma questão de regra: em 2021, uma instrução normativa do Naturatins passou a exigir guia de turismo ou condutor cadastrado no Cadastur e licenciado pelo órgão para entrar em atrativos do parque, como as dunas, a Serra do Espírito Santo e a Cachoeira da Velha.
Para quem tem pouca experiência em estrada de areia, contratar uma agência é a escolha mais sensata. Antes de fechar o pacote, pergunte quais regras e horários estão valendo.
Para dormir, a pequena cidade de Mateiros, conhecida pelo artesanato de capim-dourado, costuma servir de base para quem quer ficar perto dos principais atrativos. É uma viagem que pede planejamento e paciência com a estrada, e o primeiro mergulho num fervedouro paga o esforço.