Espírito Santo aposta na Mata Atlântica para atrair novos turistas
Montanhas Capixabas estruturam rota que conecta parques, reservas e hospedagem e começam a mirar também viajantes da Europa e da Argentina
Durante muito tempo, o Espírito Santo permaneceu fora dos principais circuitos turísticos nacionais, apesar de reunir praias, montanhas, gastronomia e áreas preservadas de Mata Atlântica. Nos últimos anos, porém, o estado começou a se apresentar de forma mais organizada ao restante do país —e agora ensaia também passos no mercado internacional.
Nas Montanhas Capixabas, esse movimento passa pela criação de produtos capazes de transformar atrativos que funcionavam de maneira independente em uma viagem integrada. Um dos exemplos é a Rota Caminhos da Mata Atlântica Capixaba, apresentada ao mercado nacional durante a ABAV Expo 2026.

O roteiro conecta parques, reservas particulares, hospedagens, gastronomia e produção rural nos municípios de Castelo, Domingos Martins e Vargem Alta. A intenção é ampliar o circuito turístico para além de Pedra Azul, um dos nomes mais conhecidos da região, sem transformar o crescimento do número de visitantes em um processo de massificação.
Para Ramadan Bullus, gerente-geral do Natureza Eco Lodge, a procura por viagens ligadas à natureza ganhou força a partir da pandemia e encontrou a região em um momento de maior estruturação. A expansão, entretanto, precisa acompanhar a capacidade do destino de receber novos visitantes.
“A gente acredita que não dá para ser de uma hora para outra. Tem que ser cadenciado para que todo mundo se estruture e a região cresça como um todo. Temos exemplos do que não fazer”, afirma.
Essa visão também ajudou a mudar a relação entre os empreendimentos locais. Em vez de cada negócio tentar funcionar como um destino isolado, a aposta passa pela integração entre hospedagem, reservas, parques, produtores, gastronomia e prestadores de serviços.
“A gente entendeu que não conseguiria fazer nada sozinho”, diz Ramadan.
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Uma rota pela Mata Atlântica
Lançada regionalmente durante a RuralturES, em Venda Nova do Imigrante, a Rota Caminhos da Mata Atlântica Capixaba foi estruturada ao longo de aproximadamente dez meses. O projeto é liderado pelo Sebrae/ES, com apoio do Montanhas Capixabas Convention & Visitors Bureau e participação de empreendedores e lideranças locais.

Fazem parte do roteiro o Parque Estadual de Pedra Azul, o Parque Estadual de Forno Grande, a Reserva Ambiental Águia Branca e a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Kaetés. Experiências relacionadas a cafés especiais, produção de morangos, gastronomia, turismo rural e observação de aves completam a oferta.
A região está inserida no Corredor Ecológico Pedra Azul–Forno Grande, área que conecta remanescentes de Mata Atlântica na serra capixaba. É justamente a biodiversidade que começa a ganhar peso na estratégia turística das montanhas.
Em Vargem Alta, a Reserva Ambiental Águia Branca protege cerca de 2.200 hectares de Mata Atlântica e registra mais de 350 espécies de aves. No mesmo território está o Natureza Eco Lodge, com 30 acomodações entre chalés e apartamentos.
Para Adriana Denadai, gerente de Sustentabilidade e Comunicação do Grupo Águia Branca, a integração entre conservação e turismo permite transformar a biodiversidade em parte da experiência do visitante sem dissociá-la da preservação da área. Trilhas, cursos d’água e áreas de floresta compõem as atividades realizadas na reserva, com percursos guiados e autoguiados.

Somada a outras áreas protegidas próximas, essa estrutura permite distribuir as experiências pelo território, em vez de concentrar os visitantes em um único atrativo.
Turismo cresce, mas destino quer evitar a massificação
A estruturação de produtos ocorre paralelamente ao fortalecimento da governança turística. Para Ivair Segheto, gerente do Sebrae na unidade de Vitória (ES), esse processo precisa envolver iniciativa privada, entidades e poder público.

Segundo ele, o plano de marketing desenvolvido para o Espírito Santo passou a oferecer uma diretriz para o posicionamento do estado, enquanto entidades regionais, como o Montanhas Capixabas Convention & Visitors Bureau, ganham espaço na articulação entre os diferentes participantes da cadeia turística.
A Rota Caminhos da Mata Atlântica Capixaba faz parte desse movimento. Depois de ser apresentada regionalmente, a ABAV Expo representou a primeira exposição mais ampla do produto a agências, operadoras e profissionais de turismo de diferentes partes do Brasil.
A intenção é fazer com que as montanhas sejam comercializadas como uma viagem composta por diferentes experiências —e não apenas como uma sucessão de atrativos visitados separadamente.
O próximo movimento passa por cruzar as fronteiras brasileiras.
Argentina será primeiro teste internacional
Um dos mercados escolhidos para essa aproximação é a Argentina. Segundo Segheto, um voo fretado experimental está programado para outubro, com cerca de 150 argentinos viajando para o Espírito Santo.
A operação é acompanhada por ações comerciais no país vizinho. Representantes capixabas participam de capacitações e encontros para apresentar o Estado aos profissionais que comercializam viagens no mercado argentino.
“É mostrar mais uma alternativa, uma oportunidade de um novo mercado, para que eles possam conhecer também o Espírito Santo”, afirma Segheto.
O fretamento servirá ainda como teste para avaliar a viabilidade de operações futuras. A expectativa é que os resultados ajudem a indicar se existe espaço para avançar na conectividade regular.
“Por que não, já no próximo verão, termos alguma experiência de um voo por semana? Essa é a nossa expectativa”, diz.
Para o público argentino, a aposta inicial está principalmente no litoral. Nas montanhas, porém, outro mercado internacional começa a entrar no radar: a Europa.
Observadores de aves colocam Espírito Santo no radar
O Natureza Eco Lodge participou recentemente de uma feira especializada em observação de aves na Inglaterra. Segundo Ramadan, os contatos realizados durante o evento já despertaram o interesse de seis grupos. Conversas com empresas que comercializam viagens para europeus durante a ABAV reforçaram essa percepção.
“O europeu dá mais valor ao turismo de experiência e de natureza. Talvez isso esteja nascendo para a gente, mas eles já admiram esse tipo de viagem”, afirma.
Ramadan chama atenção para uma característica desse público. Não se trata necessariamente de pagar mais por cada serviço, mas de consumir uma quantidade maior de produtos durante a permanência no destino.
“Ele compra o voo, o transfer, a hospedagem, a experiência, o guia, o transfer interno, toda a alimentação. Quer consumir tudo o que o lugar tem porque não sabe quando vai voltar. Então, não é que ele pague mais caro; ele acaba gastando mais pelo número de experiências”, diz.
Entre os produtos que começam a ser preparados para esse viajante estão programas específicos de birdwatching. Os roteiros podem durar três, cinco ou sete dias, dependendo das espécies procuradas e do grau de dificuldade da observação.
Até sete dias em busca de uma ave
Para os observadores especializados, encontrar determinada espécie pode determinar toda a programação da viagem. “Eles vão cedo para a mata e voltam só quando veem. São resilientes. Se não veem em um dia, voltam no outro”, conta Ramadan.
Uma das espécies que despertam interesse é a saíra-punhalada, ave ameaçada associada à Mata Atlântica. Segundo o gerente, um exemplar havia sido avistado na região poucos dias antes da entrevista.
O potencial não se restringe aos observadores especializados. Trilhas de menor dificuldade permitem avistar diferentes espécies em um mesmo percurso e podem funcionar como porta de entrada para viajantes que nunca fizeram uma viagem dedicada à observação de aves.
A região também já participou do Global Big Day, mobilização internacional em que observadores registram o maior número possível de espécies durante um único dia. Segundo Ramadan, a área chegou a ocupar a primeira colocação na Mata Atlântica em número de espécies observadas em uma das edições.
Agora, a aposta é transformar essa biodiversidade em um produto capaz de chegar às prateleiras de operadoras especializadas. Para Ramadan, esse passo só se tornou possível depois de uma etapa de preparação da hospedagem, da reserva e dos serviços oferecidos no entorno.
“A gente tinha outras prioridades estruturantes do hotel e da reserva e agora se vê pronto para receber esse turismo internacional. A hospedagem está pronta, a reserva está pronta com nossa equipe de apoio e os guias e parceiros também estão homologados”, afirma Ramadan.
Com diferentes reservas e parques próximos, os roteiros podem ser ajustados conforme o objetivo de cada viajante. Para alguns, isso significa passar dias atrás de uma única ave rara. Para outros, preencher uma lista com dezenas de espécies enquanto percorrem um trecho de Mata Atlântica que o Espírito Santo começa, agora, a apresentar para quem vem de fora.