Mercado de férias compartilhadas ganha espaço no Brasil ao focar em experiências

Mercado de multipropriedade mais que dobrou em seis anos; entenda como funcionam os modelos de propriedade, timeshare e direito de uso

Aproveitar um período de férias garantido na alta temporada a cada ano, ter acesso a um empreendimento turístico sem comprar o imóvel inteiro e dividir os custos de utilização são algumas das possibilidades oferecidas pelo mercado de férias compartilhadas. No Brasil, o setor reúne modelos como timeshare, multipropriedade e direito de uso. Embora tenham em comum a proposta de organizar o acesso a períodos de hospedagem, eles se diferenciam na relação do consumidor com o imóvel e na forma de contratação.

O crescimento da multipropriedade dá a dimensão desse mercado. O número de empreendimentos passou de 109, em 2020, para 224 em 2026, avanço de 105,5% em seis anos. Os projetos estão distribuídos por 99 cidades de 18 estados e reúnem 44.027 unidades habitacionais, mais de 1,26 milhão de frações imobiliárias e R$ 100,5 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV) potencial.

Ipioca Beach Residence & Resort opera no modelo de multipropriedade
Ipioca Beach Residence & Resort opera no modelo de multipropriedade - Divulgação/MME Vacation Club

Os dados fazem parte do relatório Cenário do Desenvolvimento de Multipropriedades no Brasil 2026, elaborado pela Caio Calfat Real Estate Consulting. Do VGV potencial, 66% já foram comercializados e 34% correspondem ao estoque. A disponibilidade varia conforme o estágio dos empreendimentos: entre os projetos prontos, 8,9% das frações permanecem disponíveis; nos que estão em construção, o índice chega a 41%; nos lançamentos, a 69,5%.

A distribuição regional também mostra a presença da multipropriedade em diferentes partes do país. O Sul concentra 70 empreendimentos, entre projetos prontos, em construção e em lançamento. É a região com o maior número de projetos, à frente de Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Norte.

Entre eles está o Amazon Parques & Resorts, em Penha, no litoral norte catarinense, que adota o sistema de multipropriedade. O complexo hoteleiro é afiliado à RCI, rede de intercâmbio de férias que permite aos proprietários utilizarem seus períodos de hospedagem também em outros destinos.

Conheça os diferentes modelos de férias compartilhadas

Embora timeshare e multipropriedade estejam associados ao conceito de férias compartilhadas, os dois modelos não significam a mesma coisa. No Brasil, o timeshare é o modelo mais antigo e está ligado à comercialização do direito de utilização de um empreendimento turístico por determinado período. A multipropriedade, por sua vez, tem natureza imobiliária e ganhou uma estrutura jurídica específica com a Lei nº 13.777, de 2018.

Na multipropriedade, o consumidor compra uma fração do imóvel e passa a ter direito de propriedade sobre ela. Essa aquisição está vinculada a períodos determinados de utilização. Além de utilizar a unidade durante o período previsto, o comprador tem participação na propriedade do imóvel. Os custos condominiais são proporcionais à fração adquirida.

Amazon Parques & Resorts contará com cerca de 200 unidades de multipropriedade e três torres
Amazon Parques & Resorts contará com cerca de 200 unidades de multipropriedade e três torres - Divulgação

No direito de uso, a lógica contratual garante ao cliente a fruição de semanas inteiras de hospedagem a cada ano durante o período contratado, sem aquisição patrimonial do imóvel. Já o timeshare funciona através de um sistema de pontos —semelhante a um programa de milhas—, em que o cliente compra um saldo de pontos para resgatar em diárias.

Enquanto na multipropriedade e no direito de uso a contratação é feita por semanas fechadas (se o cliente utilizar menos dias do que o contratado naquela semana, perde os dias restantes), no timeshare há maior flexibilidade fracionada, permitindo reservas mais curtas (como 2 ou 3 dias). Por outro lado, no timeshare a garantia de uma semana específica depende da disponibilidade no momento do resgate dos pontos; se o cliente demorar para reservar, corre o risco de não encontrar vaga na data desejada, ao passo que no direito de uso a semana anual já fica devidamente assegurada em contrato dentro da temporada contratada.

A origem dos modelos ajuda a entender essa divisão. O timeshare surgiu na Europa nas décadas de 1960 e 1970, inicialmente com a comercialização de períodos de uso de imóveis turísticos. A partir dos anos 1980, o formato passou a incorporar sistemas de intercâmbio e maior participação de redes hoteleiras. No Brasil, chegou antes da multipropriedade e se desenvolveu principalmente em resorts.

Um mercado com diferentes formas de viajar

A multipropriedade ganhou espaço no Brasil principalmente a partir da década de 2010 e passou a ter uma estrutura jurídica específica com a regulamentação de 2018. O modelo também alterou a forma de desenvolvimento de empreendimentos turísticos, permitindo a comercialização de frações desde o lançamento dos projetos.

Ipioca Beach Home Collection está atualmente em construção e com previsão de entrega para 2027
Ipioca Beach Home Collection está atualmente em construção e com previsão de entrega para 2027 - Divulgação/MME Vacation Club

Na prática, os diferentes formatos permitem que empresas ofereçam alternativas para consumidores com diferentes orçamentos e interesses. A escolha envolve fatores como o período de utilização, o interesse em ter uma fração imobiliária e a preferência por serviços incluídos na hospedagem.

É o que ocorre com a MME Vacation Club, que possui mais de 7 mil famílias clientes e atua na praia de Ipioca, em Maceió (AL). A empresa trabalha com diferentes empreendimentos e modelos de acesso às férias, permitindo que o consumidor escolha o período de utilização e o formato de propriedade de acordo com seu perfil e orçamento. Os custos são proporcionais ao tempo adquirido.

O Ipioca Beach Residence & Resort, já concluído e em operação, funciona em regime de multipropriedade. O empreendimento reúne unidades para famílias, áreas de lazer, piscinas, restaurantes e serviços de resort, além de estar localizado próximo à praia.

Outro projeto da empresa é o Ipioca Beach Home Collection, atualmente em construção e com previsão de entrega para 2027. O empreendimento terá unidades maiores, arquitetura com características residenciais e uma proposta mais privativa, mantendo o regime de multipropriedade.

Para ampliar as possibilidades de utilização, a MME mantém uma parceria com a RCI. O sistema de intercâmbio permite trocar períodos de hospedagem por estadias em outros destinos participantes. Assim, o período contratado em Ipioca pode ser utilizado em diferentes localidades.

Direito de uso chega a novo empreendimento

O próximo projeto da MME segue uma estrutura diferente. Em fase de lançamento, o Ipioca Mar Resort All Inclusive tem previsão de entrega para 2030 e será operado em regime de direito de uso.

A proposta reúne hospedagem, lazer, alimentação e serviços em um sistema all inclusive. O empreendimento será voltado a famílias e consumidores que buscam concentrar os serviços das férias em um único local, com alimentação e bebidas incluídas na hospedagem.

Vista do Ipioca Beach Residence & Resort, em Maceió
Vista do Ipioca Beach Residence & Resort, em Maceió - Divulgação/MME Vacation Club

Nesse caso, o consumidor não adquire uma fração imobiliária. O que é contratado é o direito de utilizar o empreendimento durante o período estabelecido. Segundo as informações fornecidas pela empresa, o projeto é o único empreendimento no Brasil a seguir esse modelo e pode representar uma economia de até 45% nas férias.

A diferença entre os formatos também aparece na relação com o imóvel. Na multipropriedade, existe um vínculo de propriedade sobre uma fração da unidade. No direito de uso, o vínculo é contratual e está relacionado ao período de utilização. No timeshare, essa relação também é estruturada a partir do direito de uso, embora existam diferentes formatos de contratação e sistemas de pontos.

Os modelos coexistem no mercado de férias compartilhadas e atendem a diferentes formas de contratação e utilização. Na multipropriedade, o consumidor adquire uma fração do imóvel; no direito de uso, compra o acesso ao empreendimento durante o período previsto em contrato; e, no timeshare, a utilização pode ser organizada por períodos ou sistemas de pontos.

A possibilidade de intercâmbio é outro elemento presente nesse mercado. Sistemas como o oferecido pela RCI permitem que consumidores que adquiriram períodos em empreendimentos participantes tenham acesso a outros destinos. Com isso, a utilização pode ser ampliada para além do local originalmente contratado.