Museus orgânicos mantêm a memória de Uberaba viva

Rota integrada ao Geoparque Uberaba transforma casas, oficinas e ateliês em espaços de memória, reunindo artesãos, artistas e guardiões de tradições locais

Nem toda memória está guardada em uma sala de exposição. Em Uberaba, no Triângulo Mineiro, algumas das histórias que ajudam a explicar a identidade da cidade estão em cozinhas onde receitas atravessam gerações, em oficinas onde instrumentos musicais continuam sendo produzidos, em ateliês onde artistas trabalham diariamente e em espaços onde antigos ofícios permanecem vivos.

Essa é a proposta da Rota dos Museus Orgânicos Geoparque Uberaba, iniciativa que integra o território reconhecido pela Unesco e transforma artistas, artesãos e guardiões da memória local nos protagonistas da experiência turística.

Peças em exposição no Museu de Arte Sacra de Uberaba
Peças em exposição no Museu de Arte Sacra de Uberaba - Márcio Diniz/Catraca Livre

O conceito é diferente de um museu tradicional. Os espaços não foram adaptados para parecerem museus. Eles continuam funcionando como casas, oficinas, luterias e ateliês. O visitante entra no ambiente onde o trabalho acontece e acompanha de perto processos criativos, técnicas artesanais e histórias construídas ao longo do tempo.

O “orgânico” é justamente essa característica: a vida segue acontecendo no local. O produto turístico não é uma exposição estática, mas o contato direto com quem produz, cria e mantém determinado conhecimento.

A criação da Rota dos Museus Orgânicos começou a ser estruturada em 2025, a partir de um trabalho de turismo de base comunitária desenvolvido pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Inovação (SEDEC). Inspirado em uma experiência consolidada no Geoparque Araripe, no Ceará, com apoio do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o projeto foi lançado oficialmente em junho deste ano e propõe uma nova forma de apresentar Uberaba aos visitantes, conectando cultura, território e as histórias de quem preserva os saberes locais.

O projeto reúne nove espaços culturais vivos que valorizam os saberes, as tradições e os artistas locais
O projeto reúne nove espaços culturais vivos que valorizam os saberes, as tradições e os artistas locais - Márcio Diniz/Catraca Livre

Para a diretora de Turismo da SEDEC, Maria Aparecida Basílio, a proposta é colocar os próprios moradores no centro da experiência turística. “Esse trabalho se transformou em um turismo de experiência e vem ganhando destaque no mundo inteiro”, afirma.

Segundo a diretora, a iniciativa também dialoga com o perfil dos visitantes que chegam à cidade, tradicionalmente atraídos pela pecuária zebuína e pela ExpoZebu, considerada a maior feira de gado zebu do mundo. “As pessoas querem conhecer o território, querem viver experiências diferentes quando vêm para cá”, explica.

Maquetes de edifícios históricos de Uberaba feitas pelo artesão José Eduardo Araújo
Maquetes de edifícios históricos de Uberaba feitas pelo artesão José Eduardo Araújo - Divulgação/PMU

Cidinha, como é carinhosamente conhecida, destaca que o projeto também segue os princípios estabelecidos pela Unesco para os Geoparques Mundiais, nos quais a comunidade local desempenha papel central na preservação e valorização do patrimônio. “Geoparque é feito de pessoas para pessoas. O nosso território precisa ser bom para o turista, mas, principalmente, para o morador, valorizando e dando o protagonismo que a comunidade merece”, resume.

Sabores que atravessam gerações em Uberaba

Em Peirópolis, a Doceria Mestre Darci apresenta uma tradição que desperta uma memória afetiva ligada aos sabores da infância. Na casa da doceira Dona Darci, doces caseiros preparados a partir de receitas transmitidas entre gerações revelam uma parte da cultura gastronômica de Uberaba.

Dona Darci produz doces há décadas em Peirópolis
Dona Darci produz doces há décadas em Peirópolis - Márcio Diniz/Catraca Livre

Quem visita o espaço encontra sabores que atravessam décadas, como pingo de leite, puxa, bala de coco, goiabada, bananada, cocada e geleia de mocotó. A produção também incorpora novidades, como o doce de figo recheado com doce de leite, mantendo a tradição ao mesmo tempo em que cria novas combinações.

Mais do que provar os doces, o visitante conhece a história por trás das receitas e da mulher que ajudou a preservar esses sabores, transformando a doceria em um espaço de memória e encontro entre gerações.

O fazer artístico como patrimônio

A Rota dos Museus Orgânicos também revela a produção artística contemporânea de Uberaba. No Espaço de Arte Ateliê Hélio Siqueira e Paulo Miranda, o visitante acompanha processos de criação de dois nomes importantes das artes visuais da cidade. O projeto nasceu em 1983, a partir da iniciativa de Hélio Siqueira, e ganhou uma nova dimensão em 1986, com a parceria de Paulo Miranda, com o objetivo de consolidar uma “Grande Galeria” para movimentar a cena artística regional.

Esculturas em barro do artista Hélio Siqueira
Esculturas em barro do artista Hélio Siqueira - Márcio Diniz/Catraca Livre

O espaço funciona como ateliê de produção e galeria viva, reunindo obras originais em diferentes linguagens, como cerâmica, tecelagem, gravuras e pinturas em grandes formatos. Mais do que observar trabalhos finalizados, o público conhece o ambiente onde a criação acontece.

A rota também inclui histórias familiares ligadas à preservação de ofícios, como a Casa do Cleofas Galeria de Arte. Inaugurada em março, o espaço funciona em um casarão histórico restaurado –que foi o lar de infância da matriarca da família, Anita Braga Bezerra–, dedicado à preservação, exposição e comercialização das obras autorais do artesão Antônio Cleofas, que atua na região desde 1979.

Interior da Casa do Cleofas Galeria de Arte
Interior da Casa do Cleofas Galeria de Arte - Márcio Diniz/Catraca Livre

Mais do que uma galeria, o local funciona como um acervo vivo da Vila Barroló, associação familiar que mantém há quatro gerações a tradição da cerâmica moldada à mão. O visitante encontra peças produzidas a partir de técnicas transmitidas ao longo do tempo e conhece um processo que depende de habilidade manual, criatividade e continuidade de um saber construído dentro da própria comunidade.

No Ateliê das Chiteiras — Flor de Chita, a arte aparece como ferramenta de expressão e transformação social. Criado pela jornalista Evacira Coraspe, o projeto reúne mulheres que transformam o tecido conhecido como chita em bolsas, roupas, peças de decoração e produtos de mesa posta, além de promover oficinas de aprendizado e empreendedorismo feminino.

A proposta nasceu como um projeto coletivo de valorização da arte e ganhou novos caminhos ao levar o bordado para atividades de arteterapia e encontros com diferentes públicos. O espaço também funciona no resgate da da valorização e autoestima de mulheres que já se aposentaram.

Uma cidade contada pelas mãos de seus moradores

Outro exemplo da diversidade da rota está no Ateliê Arte em Papelão, onde José Eduardo Araújo e Sandra Monteiro transformam papelão em reproduções detalhadas de patrimônios históricos e cenários urbanos.

Com mais de 25 anos de trajetória, os artesãos criam maquetes e peças que exigem precisão e atenção aos detalhes, mostrando como um material simples pode se transformar em representação da memória de uma cidade. Mas a produção do casal vai além os monumentos históricos de Uberaba. A réplicas de cenários de filmes e séries fazem sucesso e estão à venda na internet.

No bairro Estados Unidos, a Luthieria Mestre Souza apresenta uma tradição ligada à música caipira e ao trabalho artesanal de construção de violas. O espaço mantém vivo o legado de Mestre D’Souza, referência na fabricação de violas caipiras artesanais no país. Atualmente, o trabalho é conduzido pelo luthier Wagner Braga e Souza, que dá continuidade ao ofício iniciado pelo pai e preserva a tradição familiar na produção dos instrumentos.

Como o local funciona de forma integrada como oficina e atrativo da Rota dos Museus Orgânicos, o visitante acompanha de perto o processo de fabricação e conhece o ambiente onde as violas são criadas. É o próprio Wagner quem costuma receber o público, apresentar o acervo e explicar as etapas de produção, mostrando como madeira, técnica e conhecimento transmitido entre gerações se transformam em instrumentos que carregam identidade e memória.

Fasu preserva uma técnica secular italiana de fundição manual de sinos de bronze com notas musicais
Fasu preserva uma técnica secular italiana de fundição manual de sinos de bronze com notas musicais - Divulgação/PMU

No bairro Abadia, a Oficina Fábrica de Sinos (Fasu) preserva outro ofício marcado pela relação entre tradição e trabalho manual: a fundição artesanal de sinos. Reconhecida como patrimônio imaterial de Uberaba, a Fasu mantém viva uma técnica que envolve diferentes etapas de produção e exige conhecimento específico sobre materiais, moldagem e acabamento.

O espaço permite ao visitante conhecer um processo que permanece em atividade e compreender como um objeto presente na história de comunidades, igrejas e celebrações é construído a partir da combinação entre fogo, metal e habilidade artesanal. Mais do que observar um sino pronto, o visitante conhece a história de um ofício que atravessa gerações e permanece vivo em Uberaba.

Onde a memória de Chico Xavier permanece viva

Entre os espaços que integram a Rota dos Museus Orgânicos estão dois locais dedicados à preservação da trajetória de Francisco Cândido Xavier, personagem que ajudou a projetar Uberaba como um dos principais destinos do turismo religioso no Brasil.

Casa onde morou o médium Chico Xavier; hoje o espaço é funciona como uma espécie de museu
Casa onde morou o médium Chico Xavier; hoje o espaço é funciona como uma espécie de museu - Márcio Diniz/Catraca Livre

Chico Xavier chegou à cidade em 1959 e viveu em Uberaba até sua morte, em 2002. Ao longo de mais de quatro décadas, consolidou um amplo trabalho assistencial e transformou o município em destino permanente de visitantes vindos de diferentes regiões do País. Mais de duas décadas após sua morte, esse fluxo continua. Muitos chegam em caravanas; outros percorrem individualmente os lugares que marcaram sua vida.

A Casa de Memórias e Lembranças Chico Xavier reúne objetos pessoais, fotografias, manuscritos, móveis, documentos e outros itens que ajudam a reconstruir a trajetória do médium no cotidiano de Uberaba. O espaço preserva não apenas a história de Chico Xavier, mas também parte da memória da cidade durante o período em que ele viveu no município.

Estátua em bronze do médium Chico Xavier no centro de Uberaba
Estátua em bronze do médium Chico Xavier no centro de Uberaba - Márcio Diniz/Catraca Livre

Complementando a visita, o Memorial Chico Xavier apresenta exposições permanentes, recursos interativos e galerias temáticas que contextualizam sua atuação, suas obras e a influência exercida sobre diferentes gerações. O roteiro costuma incluir ainda o Grupo Espírita da Prece, onde Chico Xavier realizou reuniões públicas por décadas e que permanece como um dos principais locais de peregrinação para seus admiradores.

Mais do que um roteiro de caráter religioso, esses espaços preservam um patrimônio histórico e cultural que integra a identidade de Uberaba. Ao lado dos ateliês, oficinas e museus dedicados aos mestres da cultura local, eles reforçam a proposta da Rota dos Museus Orgânicos de valorizar as pessoas e as histórias que ajudaram a construir o território.

O patrimônio que gera movimento

A proposta dos Museus Orgânicos é diferente de uma exposição tradicional. O principal elemento da visita não é apenas o objeto, mas a história de quem o produz. Por isso, os próprios mestres definem os períodos de funcionamento dos espaços, permitindo uma experiência mais próxima e personalizada. A rota também prevê sinalização dos locais com informações em dois idiomas e recursos de acessibilidade, incluindo placas em braile.

Além de preservar conhecimentos, a iniciativa busca fortalecer o turismo de base comunitária, criando oportunidades de geração de renda para os mestres da cultura local por meio da comercialização de seus produtos e da valorização de seus trabalhos.

Museus Orgânicos mantêm vivo trabalho de artesões de Uberaba e geram renda
Museus Orgânicos mantêm vivo trabalho de artesões de Uberaba e geram renda - Márcio Diniz/Catraca Livre

A rota ainda deve crescer com a inclusão de novos espaços, como o galpão do paleoartista Rodolfo Nogueira, em fase de estruturação.

Se o Geoparque Uberaba Terra de Gigantes mostra uma história que começou há milhões de anos, os Museus Orgânicos revelam histórias que continuam acontecendo no presente. São memórias que não estão paradas no tempo, mas seguem sendo produzidas pelas mãos de quem mantém vivas as tradições da cidade.