O bosque na Patagônia argentina que virou cenário de uma lenda sobre Walt Disney
Entre árvores centenárias e uma antiga cabana, o bosque na Patagônia argentina alimenta uma curiosa lenda sobre Walt Disney e Bambi
Quem visita o Bosque dos Arrayanes, na Patagônia argentina, pode sair de lá com duas histórias para contar. A primeira é real. Há árvores centenárias, algumas com mais de 650 anos, em uma paisagem protegida às margens do Lago Nahuel Huapi. Já a segunda é uma lenda, a de que Walt Disney teria passado por ali e levado a paisagem como inspiração para o clássico Bambi.
Só há um problema. Não existem registros de que Disney tenha estado no Bosque dos Arrayanes.

A suposta visita permanece como uma lenda turística de Villa La Angostura, na província argentina de Neuquén. A floresta, por outro lado, não precisa de Hollywood para chamar atenção. Localizada na Península de Quetrihué, às margens do lago Nahuel Huapi, ela reúne árvores nativas que podem ter mais de 650 anos e uma paisagem pouco comum mesmo para os padrões da Patagônia.
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As árvores que dão nome ao parque
O Bosque dos Arrayanes fica na extremidade da Península de Quetrihué, que avança sobre o lago Nahuel Huapi. A área faz parte do Parque Nacional Los Arrayanes, criado em 1971 para proteger 1.796 hectares de Bosques Patagônicos.

O personagem principal é o arrayán (Luma apiculata), árvore nativa que pode ultrapassar 15 metros de altura. O tronco, em tons que vão do canela ao laranja, descasca naturalmente e revela partes mais claras da madeira.
O crescimento é lento. Alguns dos exemplares encontrados na península têm mais de 650 anos, o que ajuda a dar outra dimensão ao passeio. Não se trata apenas de caminhar entre árvores diferentes, mas de entrar em uma floresta que começou a se formar muito antes de a região se transformar em destino turístico.
A aparência também explica parte do fascínio. Os troncos claros e avermelhados, combinados à mata fechada e à proximidade do lago, criam uma paisagem que parece ter sido desenhada para um filme.
O passeio começa antes da floresta
Há mais de uma maneira de chegar ao bosque. A partir de Villa La Angostura, uma trilha atravessa a Península de Quetrihué por cerca de 12 quilômetros. O percurso pode ser feito a pé ou de bicicleta e passa por diferentes ambientes até chegar à área de maior concentração dos arrayanes.

Outra possibilidade é chegar de barco pelo Nahuel Huapi. Também dá para combinar os dois meios: fazer o trajeto pela península em um sentido e retornar de embarcação.
No trecho final, uma passarela de madeira percorre cerca de 800 metros entre os arrayanes. Além de facilitar a caminhada, a estrutura ajuda a preservar o ambiente, evitando que o fluxo de visitantes pressione diretamente o solo e as raízes das árvores.
É nessa parte que o passeio ganha seu aspecto mais característico: os visitantes caminham literalmente por dentro do bosque, entre troncos que parecem ter sido pintados em diferentes tons de laranja e marrom.
Uma floresta que vai além dos ‘arrayanes’
Embora as árvores que dão nome ao parque sejam as estrelas do passeio, elas não estão sozinhas. Coihues e ñires também aparecem na vegetação da península, que abriga ainda as lagoas Hua Huan e Patagua.
A área é habitat do huillín, uma espécie de lontra nativa considerada ameaçada de extinção. Também há aves como o carpintero pitío, a remolinera araucana e a cachaña, um papagaio encontrado nos bosques da Patagônia.

É justamente essa diversidade que faz com que a visita seja mais do que uma caminhada fotogênica entre árvores antigas. O bosque integra um ecossistema característico da Patagônia andina, protegido dentro de uma área de conservação.
Nem tudo é preservado sozinho
A paisagem que hoje parece intocada também depende de ações de conservação. Um dos desafios enfrentados pelo parque foi a presença do arce branco, espécie europeia introduzida na Patagônia como planta ornamental e que passou a competir com a vegetação nativa.
Em 2006, começaram ações para controlar a espécie e recuperar áreas afetadas. O trabalho inclui a produção de novas plantas nativas a partir de sementes coletadas na própria Península de Quetrihué.

As passarelas utilizadas pelos visitantes fazem parte dessa lógica de proteção. Ao concentrar a circulação em estruturas específicas, o parque reduz o impacto da visitação sobre uma vegetação que levou séculos para se desenvolver.
Villa La Angostura além do bosque
O Bosque dos Arrayanes pode ocupar boa parte de um dia, mas Villa La Angostura merece mais tempo no roteiro. A cidade fica às margens do Nahuel Huapi e serve como base para explorar outros pontos da região.
A Rota dos Sete Lagos é um dos passeios mais conhecidos, com lagos, mirantes e pequenas localidades ao longo do caminho. No Cerro Bayo, as atividades mudam de acordo com a estação: no inverno, a montanha recebe visitantes interessados em neve e esqui.

Também é possível explorar as praias e baías do Nahuel Huapi, como Bahía Brava e Bahía Mansa, fazer trilhas pelos Bosques Patagônicos ou simplesmente caminhar pelo centro da cidade, entre restaurantes, cafés e construções que preservam características da arquitetura local.
E Bambi? A resposta curta é que ninguém conseguiu provar que Walt Disney esteve ali.
A chamada Cabaña de Disney continua alimentando a história, assim como a semelhança entre a paisagem do bosque e algumas das imagens associadas a Bambi. Mas não há documentação que comprove uma visita do cineasta à Península de Quetrihué nem uma relação direta entre o bosque e a criação do filme.

Talvez a história funcione melhor justamente assim. O visitante chega procurando o lugar que teria inspirado Bambi e encontra algo mais antigo e menos cinematográfico: uma floresta de árvores centenárias, às margens de um lago, que não precisou de Walt Disney para construir sua própria história.
A lenda pode continuar. As árvores, essas sim, estão lá há séculos.