O parque brasileiro onde dunas brancas escondem lagoas de água doce e o cenário se transforma completamente ao longo do ano

Apesar da aparência, o parque não possui o clima extremamente seco associado aos grandes desertos do planeta.

À primeira vista, os Lençóis Maranhenses parecem um enorme deserto de areia branca. Mas basta chegar durante a época das chuvas para perceber que a comparação é incompleta. Entre as dunas surgem milhares de lagoas de água doce, algumas temporárias e outras permanentes, criando uma paisagem que muda de forma radical conforme o nível da água sobe ou desaparece ao longo do ano.

As lagoas não são braços de mar escondidos entre as dunas.
As lagoas não são braços de mar escondidos entre as dunas.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que os Lençóis Maranhenses não são simplesmente um deserto?

Apesar da aparência, o parque não possui o clima extremamente seco associado aos grandes desertos do planeta. A região recebe volumes consideráveis de chuva durante parte do ano, o suficiente para formar lagoas entre as dunas. A UNESCO descreve a área como submetida a um clima semiúmido, com uma estação chuvosa capaz de encher extensos espaços interdunares.

Além disso, o parque está em uma zona de transição entre Cerrado, Caatinga e Amazônia e abriga outros ambientes além do campo de dunas, incluindo restinga, manguezais, rios e áreas costeiras.

De onde vem a água das lagoas?

As lagoas não são braços de mar escondidos entre as dunas. Grande parte delas é alimentada diretamente pela água da chuva. Durante a estação chuvosa, o nível do lençol freático sobe e a água se acumula nas depressões existentes entre as cadeias de areia.

Esse processo cria corpos d’água de diferentes formatos, tamanhos, profundidades e tonalidades. Entre as características mais marcantes estão:

  • lagoas temporárias que aparecem na estação chuvosa;
  • algumas lagoas que permanecem por períodos mais longos;
  • água doce acumulada entre as dunas;
  • formas que mudam conforme as dunas se deslocam;
  • grande variação de volume entre a época chuvosa e a seca.

Por que a paisagem muda tanto de uma época para outra?

Nos meses de maior chuva, as depressões se enchem e o cenário ganha grandes manchas azuis, verdes e escuras entre a areia clara. Conforme chega a estiagem, muitas dessas lagoas começam a diminuir e algumas secam completamente. O próprio ICMBio informa que o período de maior pluviosidade ocorre aproximadamente entre janeiro e junho, enquanto de julho a dezembro os níveis tendem a cair.

Por isso, uma pessoa que visite o parque em momentos diferentes do ano pode encontrar paisagens quase irreconhecíveis. Em uma época, extensões de água separam as dunas. Meses depois, parte dessas mesmas áreas pode parecer formada apenas por areia.

As dunas também permanecem no mesmo lugar?

Não. Outro detalhe impressionante é que os próprios montes de areia estão em movimento. Os ventos dominantes empurram os grãos e fazem as dunas migrarem gradualmente para o interior. Segundo a UNESCO, algumas podem se deslocar entre aproximadamente 4 e 25 metros por ano.

Esse movimento altera continuamente a posição e o desenho das depressões onde as lagoas aparecem. Assim, mesmo quando a água retorna na estação seguinte, ela pode ocupar espaços com contornos diferentes dos observados no ano anterior.

Confira o vídeo do canal Rolê Família mostrando um guia completo dos lençóis maranhenses:

Como uma área tão arenosa consegue sustentar vida?

Os Lençóis não são uma extensão estéril. As lagoas, áreas de restinga, manguezais e outros ambientes sustentam diferentes formas de vida. No campo de dunas, os corpos d’água temporários também funcionam como habitats que aparecem e desaparecem seguindo o ciclo das chuvas.

O parque reúne:

  • ambientes de água doce;
  • vegetação de restinga;
  • manguezais;
  • ecossistemas costeiros;
  • espécies adaptadas às fortes mudanças sazonais.

    As lagoas não são braços de mar escondidos entre as dunas.
    As lagoas não são braços de mar escondidos entre as dunas.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que os Lençóis Maranhenses receberam reconhecimento mundial em 2024?

Em 2024, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. O reconhecimento considerou tanto sua beleza excepcional quanto a importância geológica e geomorfológica do enorme sistema de dunas costeiras e lagoas.

A organização destaca que o campo de dunas é o maior do tipo na América do Sul e representa um exemplo extraordinário da evolução de dunas costeiras ao longo do período Quaternário. Mais de metade da área reconhecida é composta pelo sistema de areia branca intercalado por lagoas temporárias e permanentes.

O que parece um deserto é, na verdade, uma paisagem movida pela água e pelo vento

Os Lençóis Maranhenses chamam atenção justamente porque misturam elementos que parecem incompatíveis. Há quilômetros de dunas brancas, mas também chuvas suficientes para formar extensas lagoas de água doce. Há espaços que parecem imóveis, enquanto a areia avança vários metros ao longo dos anos.

É essa combinação que faz o parque mudar continuamente. A água enche as depressões, evapora ou infiltra durante a seca, enquanto o vento redesenha as dunas e prepara um novo cenário para a estação seguinte. O resultado é um lugar que pode parecer um deserto visto de longe, mas que funciona de maneira completamente diferente quando se observa o ciclo natural que transforma sua paisagem todos os anos.