Por que Bonito merece estar na sua lista de viagens
Rios de águas cristalinas, grutas, flutuações e uma estrutura de turismo de natureza fazem do destino sul-mato-grossense uma viagem para diferentes perfis
Há destinos que aparecem tantas vezes nas listas de lugares para conhecer no Brasil que acabam se tornando familiares antes mesmo da primeira visita. Bonito, no Mato Grosso do Sul, é um deles. Durante anos, eu quis conhecer a cidade, mas as oportunidades nunca coincidiam com a agenda. Até que veio o convite e, finalmente, a viagem aconteceu.
A primeira impressão começa antes mesmo de chegar aos passeios. Em meio ao cerrado, Bonito reúne rios de águas cristalinas, grutas e áreas de banho. São mais de 30 atrações distribuídas pela região, com atividades que vão da flutuação a trilhas e visitas a cavernas.

Parte dessa organização passa por um sistema de reservas criado em 1995. O chamado voucher único controla o acesso aos atrativos e permite distribuir os visitantes entre os passeios. Na prática, o sistema faz com que a dinâmica da viagem seja diferente da encontrada em outros destinos brasileiros. Não há compra de ingresso diretamente na entrada dos atrativos.
Todos os passeios precisam ser reservados por meio das agências credenciadas, que emitem os vouchers e também podem auxiliar na organização dos deslocamentos.

O destino também é referência quando o assunto é turismo de natureza manejado. Bonito já recebeu 19 vezes o título de “Melhor Destino de Ecoturismo”, no prêmio “O Melhor de Viagem e Turismo”.
Mas é dentro da água que uma parte importante da experiência acontece. A flutuação permite observar os rios de outra maneira, com peixes nadando próximos ao visitante. Nos rios Peixe, Sucuri e da Prata, é possível encontrar mais de 200 espécies.

Para quem não sabe nadar ou tem medo de água, a atividade pode parecer, inicialmente, um desafio. É aí que entram os guias. Eles acompanham os visitantes durante os passeios, orientam os movimentos e respeitam o ritmo de cada pessoa.
Bonito exige planejamento
Uma das particularidades de Bonito é que não basta chegar a um atrativo e comprar o ingresso na porta. Para manter o controle de visitantes, as atrações não são visitadas por conta própria.

Os passeios precisam ser reservados com antecedência e os preços são tabelados. A venda é feita pelas mais de 50 agências de receptivos credenciadas, que também ajudam a organizar a logística. Uma delas é a Bonito Way, receptivo que pode auxiliar na escolha dos passeios e nos deslocamentos durante a estadia (falo dela mais abaixo).

Alguns dos passeios ficam distantes do centro, o que exige atenção aos ao visitar. O visitante pode alugar um carro para toda a viagem ou contratar transfers por meio da agência responsável pela reserva dos ingressos.
Há programas suficientes para preencher uma semana de viagem –tempo recomendado. O ideal é escolher as atividades considerando o preparo físico e as características de cada pessoa. Uma trilha com subidas e descidas, por exemplo, pode não ser a melhor escolha para quem tem dificuldade de caminhar.

Bonito permite montar roteiros para diferentes perfis. Há atividades para quem procura contato com a água, para quem prefere caminhadas e para famílias que querem combinar natureza e estrutura de lazer.
Os guias também fazem parte desse planejamento. São eles que acompanham os grupos nos atrativos, explicam os procedimentos e ajudam a conduzir atividades que exigem atenção dentro da água ou durante as trilhas. Nenhum passeio é realizado sem a presença deles.

Desde dezembro de 2025, quem faz passeios em Bonito também paga a Taxa de Conservação Ambiental (TCA), de R$ 15 por pessoa, por dia de visitação às atrações. A cobrança é feita somente nos dias em que o visitante realiza algum passeio e é separada do valor do ingresso.
Os recursos são destinados a ações de preservação ambiental, manutenção dos recursos naturais e gestão do turismo sustentável, além de financiarem um seguro para os visitantes durante a permanência no destino, com assistência médica pré-hospitalar.
É na água que Bonito revela seu tesouro
É nos rios de águas cristalinas que Bonito guarda seu tesouro, que pode ser contemplado na flutuação. O complexo Nascente Azul, que fica a cerca de 40 minutos de carro do centro, é um dos mais estruturados.

O passeio começa antes de entrar na água. É preciso reservar horário com antecedência e chegar antes do início da atividade. Os grupos seguem horários definidos e nem sempre é possível incluir quem perde a saída em uma turma seguinte.

Antes da flutuação, os guias reúnem os visitantes para apresentar um vídeo com orientações sobre a atividade e os cuidados necessários durante o percurso. Depois, o grupo segue para os vestiários, onde recebe os equipamentos.

A roupa de neoprene é opcional, mas pode ajudar a manter o corpo aquecido e também facilita a flutuação. O conjunto inclui ainda colete salva-vidas, papete de borracha e máscara de snorkel.

O trajeto até a nascente é feito por uma trilha acessível, que passa por uma cachoeira de tufas calcárias. A caminhada termina diante da água azul e transparente da nascente, onde começa a flutuação.

O percurso dentro da água dura cerca de 40 minutos. Piraputangas, peixe que se tornou símbolo de Bonito, acompanham os visitantes durante a atividade. As plantas submersas formam uma espécie de jardim aquático, com diferentes espécies distribuídas ao longo do rio.

Depois da flutuação, o visitante pode permanecer no balneário, que tem prainha, tirolesa aquática e brinquedos infláveis. Crianças a partir de 5 anos podem participar da flutuação; os menores têm as opções de lazer do balneário.
A estrutura inclui ainda restaurante com buffet de pratos regionais e um bar que serve porções e drinques. Há banheiros com chuveiros e trocadores para quem precisa se preparar antes ou depois das atividades.
Na alta temporada, a flutuação custa R$ 462 para adultos. Para crianças de 7 a 11 anos, o valor é de R$ 418, enquanto a faixa de 4 a 6 anos paga R$ 41,80. As tarifas para operadoras, pessoas da melhor idade e grupos também são de R$ 418.
Boia-cross no Rio Formoso
Para quem gosta de um pouco mais de aventura, o Parque Ecológico Rio Formoso fica a 7 quilômetros do centro de Bonito e tem no boia-cross uma das atividades do local. Cada visitante desce o rio em sua própria boia, passando por corredeiras e cachoeiras. Em alguns trechos, é possível fazer o percurso em família.

A atividade é classificada como nível 2, entre fácil e moderado, em uma escala de 0 a 5, e é indicada para iniciantes. São oito obstáculos ao longo do percurso, sendo cinco cachoeiras e três corredeiras. Entre eles, há trechos de água mais tranquila, quando o visitante pode seguir ao som da água e dos pássaros.

O boia-cross dura cerca de 1h30. Dá frio na barriga nas descidas, mas o percurso não exige experiência prévia. A atividade pode ser realizada mesmo com chuva leve. Em caso de chuva intensa ou quando as condições do rio não são consideradas seguras, o passeio pode ser adiado ou cancelado.

Crianças a partir de 7 anos ou com mais de 1,15 metro de altura podem participar. Gestantes não são autorizadas a fazer a atividade.
Quem prefere passar o dia sem corredeiras pode ficar na Lagoa Formosa, com áreas para tomar sol, descansar, andar de caiaque ou nadar. O parque também oferece trilhas e passeios a cavalo.

Quando chegar a hora de comer, o restaurante do parque serve buffet regional. Na alta temporada, o boia-cross custa R$ 250.
Bonito além das água cristalinas
Nem só de água cristalina são feitos os passeios em Bonito. A Gruta Catedral, também conhecida como Gruta de São Mateus, mostra outro cenário do destino, desta vez formado por rochas e passagens subterrâneas. Descoberta na década de 1940, a atração permaneceu durante muitos anos longe dos turistas.
Localizada a cerca de dez minutos de carro do centro de Bonito, a atração pode ser incluída no roteiro de famílias. A visita começa no Museu Kadiwéu, onde o visitante encontra um acervo de objetos antigos, peças indígenas e animais empalhados antes de seguir para a caverna. O espaço também conta com um pequeno café, que pode ser usado antes ou depois.

Depois da passagem pelo museu, o percurso segue por uma trilha suspensa até a entrada da gruta. São cerca de 300 metros de caminhada, com alguns trechos de subida. O trajeto é feito sempre na com um guia. Dentro da gruta, é preciso subir e descer escadas em alguns pontos, com corrimãos em determinados trechos.

O percurso passa por formações rochosas moldadas ao longo de milhares de anos, entre elas estalactites, estalagmites, corais, cortinas e colunas. Uma das formações chama a atenção pelo formato semelhante ao da Torre de Pisa.

As explicações dos guias acompanham todo o passeio e ajudam a identificar as formações e entender como elas se desenvolveram. Para as crianças, a visita pode ser uma maneira de entrar em contato com a geologia e observar de perto processos que acontecem ao longo de períodos muito maiores do que a escala de uma vida humana.
A visita é recomendada para crianças a partir de 5 anos. Por questões de segurança e preservação, o acesso é acompanhado por guia e exige o uso de capacete e luvas de plástico. O calçado fechado é obrigatório para entrar na gruta.

Para o passeio, é indicado levar uma bolsa pequena, já que não há armários para guardar pertences, além de garrafa de água, repelente e protetor solar. A duração da visita é de cerca de 1 hora e 20 minutos. Na alta temporada, o ingresso custa R$ 139 para adultos e R$ 10 para crianças. Mais informações: grutacatedral.com.br.
Projeto Jiboia aproxima visitantes das serpentes
No centro de Bonito, o Projeto Jiboia apresenta uma experiência diferente dos passeios que ocupam boa parte do roteiro durante o dia. Criado pelo empreendedor Henrique Naufal, o espaço é dedicado às serpentes e funciona à noite, em um pavilhão coberto, o que permite realizar a atividade mesmo em dias de chuva.

A visita começa com uma palestra sobre as serpentes da região. Os participantes aprendem a diferenciar espécies peçonhentas e não peçonhentas e conhecem a função desses animais no equilíbrio da natureza. O projeto também mantém terrários com diferentes espécies, permitindo observar características de cada uma.
Importante lembrar que nenhuma das cobras mantidas no local foi retirada da natureza. Os animais nasceram em cativeiro e fazem parte da proposta de educação ambiental desenvolvida pelo espaço.

Depois da palestra, chega a hora de quem quiser segurar uma jiboia. A atividade é acompanhada pela equipe, que orienta o visitante durante o contato com o animal. A serpente pode se enrolar no pescoço da pessoa, possibilitando as fotografias. É pago à parte.
A proposta do Projeto Jiboia é trabalhar a relação das pessoas com as serpentes, reduzindo o medo e apresentando informações sobre esses animais e sua importância para os ecossistemas.
O espaço também conta com uma loja de souvenirs, com camisetas, canecas, livros e outros produtos relacionados às serpentes. O ingresso custa entre R$ 80 e R$ 90 por pessoa.
A gastronomia como parte da viagem
A gastronomia também ocupa espaço importante no roteiro por Bonito. A cidade permite passar da cozinha regional, marcada pelos ingredientes e receitas de Mato Grosso do Sul, a propostas que dialogam com outras tradições culinárias. Entre elas estão dois restaurantes comandados pelo chef Sylvio Trujillo, cada um com uma proposta própria.

No Bacuri, Trujillo trabalha com receitas ligadas à formação cultural e gastronômica do Estado. O menu reúne ingredientes locais e referências da culinária sul-mato-grossense, recuperadas em preparações que utilizam técnicas contemporâneas. A ideia é apresentar o território também pela comida, estabelecendo uma relação entre ingredientes, memória e cultura.

A experiência começa com o sashimi do piloteiro, inspirado em um prato típico dos barcos de pesca dos rios Miranda e Paraguai, e segue com o chipaguassu, ou chipa guazú, preparado como uma espécie de suflê de milho com queijo meia-cura. A piraputanga corumbaense parte de uma receita de dona Iracema Sampaio, escritora e especialista em culinária regional que morreu em 2011.

Outro prato procurado é o cupim de colher. A carne passa por marinada e longo cozimento até ficar macia e é servida com mandioca cremosa, arroz e farofa. No menu degustação, essas e outras preparações apresentam diferentes referências da cozinha sul-mato-grossense.

As sobremesas também seguem a proposta de trabalhar ingredientes e referências regionais. Entre elas estão a goiabada assada com gelato de queijo Nicola, o café com leite queimado acompanhado de gelato de natas e a cocada assada.

No Arte da Natureza Hotel Bonito, Trujillo também comanda o Angico Bistrô, mas a proposta é outra. O restaurante, inaugurado em abril, trabalha com referências da gastronomia ítalo-mediterrânea e utiliza ingredientes do Cerrado em preparações baseadas em técnicas da cozinha europeia.

A inspiração para o restaurante está na própria trajetória profissional do chef, que trabalhou em restaurantes de navios de cruzeiros no Mediterrâneo. “O Angico é um retorno ao tempo em que eu trabalhei em restaurantes de cruzeiros no Mar Mediterrâneo”, explica Trujillo. Segundo ele, a proposta valoriza ingredientes do Cerrado a partir de técnicas clássicas da gastronomia europeia.
Entre as entradas estão o tartare de filet maturado artesanalmente, preparado com filé mignon maturado e cortado na faca, alcaparras, cebola roxa, tabasco, ervas frescas, mostarda Dijon, molho inglês e torradas; o carpaccio di pesce, com lâminas de pirarucu, flor de sal, limão-siciliano, azeite extravirgem, chilli oil e brotos; e a salada grega com homus, que combina pepino, cebola roxa, tomates, hortelã e azeitonas pretas com homus de grão-de-bico e baru.

Entre os pratos principais aparecem o entrecôte au poivre, com contrafilé de Angus, molho de pimenta-preta, mostarda Dijon e batatas rústicas; o pirarucu grelhado ao molho de arancia, acompanhado de legumes grelhados; e o tagliatelle al ragú di cupim, preparado com ragu de cupim e parmesão.

Para a sobremesa, o restaurante oferece brownie de castanha de baru, feito com chocolate 70% e servido com gelato de baunilha, além da goiabada assada ao vinho e amendoim com gelato de queijo Nicola. A carta de bebidas inclui opções sem álcool, cervejas, drinques clássicos de bistrô e caipirinhas.
O Angico Bistrô recebe tanto os hóspedes do hotel quanto o público em geral e funciona de quarta a segunda-feira, a partir das 18h. O cardápio passa por entradas, bruschettas, saladas, carnes, peixes, massas e sobremesas, além de opções veganas e menu infantil.
Quando visitar e o que levar na mala
A melhor época para ir a Bonito depende do seu objetivo, mas os meses de maio a setembro (inverno) são considerados os melhores no geral por oferecerem o período mais seco e a máxima transparência nas águas dos rios. Nesta época do ano, a temperatura média da água fica em 20ºC.

A mala para Bonito não precisa ser grande. Sapatos e sandálias de salto podem ficar em casa. O espaço será mais útil para roupas leves e alguns itens que fazem diferença durante os passeios.
Roupa de banho é indispensável, assim como calçado esportivo para caminhadas. O ideal é escolher um modelo que possa entrar na água. Capa de chuva, toalha de secagem rápida, boné, muda de roupa leve e uma mochila pequena também entram na lista.
Protetor solar e repelente completam os itens básicos. Para quem pretende fotografar os passeios, uma capa de celular à prova d’água pode ser útil ou então comprar aquelas capas em uma das lojas próximas aos locais de apoio dos passeios.
Como chegar a Bonito
Bonito recebe voos das três principais companhias aéreas brasileiras. A Latam opera dois voos semanais (terças-feiras e sábados) a partir do Aeroporto de Guarulhos. A Azul Linhas Aéreas tem voos saindo de Viracopos, em Campinas, às terças, quintas e aos domingos. Já a Gol mantém embarques a partir de Congonhas, às quartas-feiras e aos sábados.

Outra opção é chegar por Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. De lá, o percurso até Bonito pode ser feito de carro ou ônibus. São cerca de 300 quilômetros, em uma viagem que leva, em média, quatro horas.

Para quem escolhe essa alternativa, o deslocamento terrestre passa a fazer parte da organização da viagem. Já o voo direto até Bonito reduz o tempo de chegada ao destino, mas mantém a dependência das condições meteorológicas para a operação dos voos.
*O jornalista viajou a convite da Arte da Natureza Hotel, Nascente Azul e Azul