Quanto um navio de cruzeiro movimenta na economia do Brasil
Estudo mostra impacto de R$ 547 milhões por embarcação adicional e reforça peso dos cruzeiros para destinos, empregos e serviços
Um navio de cruzeiro que entra na temporada brasileira não movimenta apenas passageiros e tripulantes. A operação envolve uma cadeia que passa por portos, transporte, hotéis, restaurantes, comércio, passeios turísticos, fornecedores e agências de viagens. Segundo Clia Brasil, associação que representa o setor, cada embarcação acrescentada à temporada pode gerar cerca de R$ 547 milhões em impacto econômico para o país.
O valor ajuda a dimensionar por que a quantidade de navios posicionados no litoral brasileiro tem efeito direto sobre os resultados do turismo. Na temporada 2025/2026, o país recebeu sete embarcações em operação de cabotagem (transporte de passageiros), duas a menos que no ciclo anterior. O número de cruzeiristas caiu 28%, enquanto o impacto econômico recuou 21%, para R$ 4,28 bilhões.

Levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV), feito em parceria com a Clia Brasil, mostra que a operação dos cruzeiros sustentou 64.529 postos de trabalho e gerou R$ 166,3 milhões em tributos. Do impacto econômico total, R$ 2,28 bilhões vieram das despesas das companhias marítimas para manter a operação no País e outros R$ 2 bilhões foram gerados pelos gastos de passageiros e tripulantes durante a temporada.
A redução da oferta também aparece quando se observa o desempenho dos navios de passagem. Na temporada passada, 21 embarcações fizeram escalas no Brasil, ante 29 no ciclo anterior. Esses navios acrescentaram R$ 480,94 milhões à economia e passaram por 35 destinos brasileiros. Somados os resultados da cabotagem e das escalas, o impacto econômico chegou a R$ 4,76 bilhões.
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O dinheiro que chega aos destinos
Parte importante desse movimento acontece fora dos navios. Nas cidades de escala, cada cruzeirista gerou impacto econômico direto, indireto e induzido de R$ 800,98. Nos destinos de embarque e desembarque, onde o passageiro tende a permanecer por mais tempo, o valor chegou a R$ 962,55 por pessoa.

Alimentação e bebidas e comércio varejista concentraram os maiores volumes dos gastos realizados por passageiros e tripulantes. Juntos, os dois segmentos movimentaram R$ 1,23 bilhão na temporada 2025/2026. Alimentação e bebidas responderam por R$ 627,1 milhões, enquanto o comércio registrou R$ 605,5 milhões.
O dinheiro também se distribuiu por outras atividades ligadas à viagem. Foram R$ 294,6 milhões em transporte antes ou depois do cruzeiro, R$ 248,1 milhões em passeios turísticos e R$ 92,1 milhões em hospedagem antes ou depois do embarque. O transporte realizado durante a viagem acrescentou outros R$ 127,6 milhões.
Dos 64.529 postos de trabalho sustentados pela cabotagem, 1.208 correspondem a tripulantes dos navios e 63.321 a empregos diretos, indiretos e induzidos em diferentes segmentos da cadeia produtiva.

O tíquete médio da viagem foi de R$ 6.108,50 por passageiro, enquanto os cruzeiros tiveram duração média de 4,2 dias. O valor pago pela viagem e os gastos realizados a bordo não integram o cálculo do impacto econômico, que considera as despesas das companhias marítimas no Brasil e o consumo de passageiros e tripulantes fora dos navios.
Oferta de navios determina o tamanho do mercado
A próxima temporada brasileira mostra como a ampliação da oferta pode alterar esses números. Entre outubro de 2026 e abril de 2027, oito navios estarão programados para operar na costa brasileira, um a mais que no ciclo anterior. A capacidade prevista cresce cerca de 24%, chegando a mais de 800 mil leitos. Também haverá aumento no número de roteiros e de escalas.
O movimento ocorre depois de uma temporada marcada pela retração. A operação de 2025/2026 transportou 235.232 passageiros a menos que a anterior. O impacto econômico caiu 21%, e os postos de trabalho sustentados pela atividade também recuaram. Para a Clia Brasil, os números mostram a relação direta entre a quantidade de navios disponíveis e o alcance econômico do setor.

“Os resultados mostram de forma muito clara que a oferta determina o tamanho do impacto gerado pelo setor. Tivemos dois navios a menos e uma redução de 28% no número de passageiros, o que significou menos recursos movimentados, empregos e tributos para o país. Mesmo assim, são resultados que demonstram a capacidade do setor de alcançar diferentes atividades e destinos”, afirma Marco Ferraz, presidente executivo da CLIA no Brasil.
A disputa, porém, não acontece apenas entre empresas interessadas em colocar navios no Brasil. As companhias definem o posicionamento de suas frotas comparando diferentes mercados internacionais. Custos portuários, mão de obra, capacidade de vendas, infraestrutura e condições regulatórias entram nessa decisão. Executivos de armadoras ouvidos durante o Fórum Clia Brasil destacaram justamente esses fatores ao discutir a expansão da atividade no país.
Nesse cenário, aumentar a oferta significa mais do que colocar uma embarcação adicional em um roteiro. O navio passa a representar passageiros em circulação, consumo nos destinos, contratação de serviços e arrecadação de impostos. É esse efeito multiplicador que faz com que a diferença entre sete e oito navios seja percebida também por empresas que não pertencem diretamente à indústria de cruzeiros.
A temporada 2026/2027 começará oficialmente no dia 31 de outubro, com a chegada do navio Corazul Buenavista a Recife (PE), e se estenderá até 9 de abril de 2027. No total, a capacidade instalada saltará para 831.254 leitos, distribuídos em oito grandes embarcações —uma a mais do que n temporada anterior.
A programação prevê embarques em Santos, Rio de Janeiro, Salvador, Maceió, Itajaí, Balneário Camboriú e Paranaguá, além de roteiros que incluem destinos no Brasil, Argentina e Uruguai.