Turismo religioso quer ir além da visita ao santuário
Fórum em Vitória discute o impacto econômico, profissionalização e criação de produtos para ampliar a permanência do peregrino nos destinos
Se no primeiro dia do Fórum Regional Sudeste de Turismo Religioso a discussão esteve concentrada em governança, experiências e na estruturação dos destinos de fé, o segundo dia voltou o olhar para uma questão mais prática: como transformar a circulação de peregrinos em atividade econômica para os territórios.
Realizado pelo Sebrae-ES, entre os dias 11 e 13 de agosto, em Vitória, o encontro reuniu representantes de santuários, entidades empresariais, agências, guias e instituições ligadas ao turismo para discutir comercialização, qualificação profissional, gastronomia e, principalmente, estratégias para fazer com que o visitante permaneça mais tempo nos destinos.
Um dos exemplos apresentados foi o do Santuário do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Padre Omar Raposo, reitor do santuário, apresentou um estudo realizado em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) para medir os efeitos econômicos da visitação.

Segundo os dados apresentados no fórum, o Cristo Redentor movimenta R$ 1,4 bilhão por ano na economia do Rio de Janeiro e contribui para aumentar em um dia a permanência do visitante na cidade. O levantamento foi usado como exemplo da importância de medir o impacto do turismo religioso para orientar investimentos e mostrar sua participação na economia.
“Compreender o impacto econômico do patrimônio religioso é a chave para uma governança de sucesso. O estudo que realizamos comprovou que o Cristo Redentor injeta R$ 1,4 bilhão por ano na economia do Rio e retém o turista por mais tempo na cidade, provando que fé, preservação e desenvolvimento sustentável caminham juntos”, afirmou Padre Omar.

O caso do Cristo Redentor colocou em evidência um dos principais desafios discutidos no encontro: saber quanto o visitante religioso movimenta e como esse dinheiro se distribui pelo território. Sem informações sobre origem, tempo de permanência, gasto médio e atividades realizadas pelos peregrinos, os municípios têm mais dificuldade para definir políticas públicas e investimentos.
No Espírito Santo, segundo Leonídio Pinheiro, gerente da Regional Metropolitana do Sebrae-ES, ainda não existe um levantamento específico que permita dimensionar o número de visitantes que chegam ao Estado motivados pela fé, o período que permanecem e os gastos realizados durante a viagem.

A Festa da Penha, em Vila Velha, foi usada para dimensionar o tamanho desse mercado. Segundo dados apresentados durante o fórum, a celebração reuniu 2,7 milhões de pessoas em 2025. Para efeito de comparação, foram citados os 10,4 milhões de visitantes de Aparecida, os 4,3 milhões de Trindade, em Goiás, e os 2,6 milhões do Círio de Nazaré, no Pará.
Os números mostram a dimensão alcançada pelas grandes manifestações religiosas, mas também levantam outra questão: quantas dessas pessoas permanecem no destino depois da celebração?
Economia movimentada pelo turismo devocional
O jornalista e pesquisador Amadeu Castanho apresentou uma análise sobre a economia movimentada pelo turismo devocional. Segundo ele, um dos principais desafios dos municípios com vocação religiosa é fazer com que o visitante deixe de ser apenas um excursionista de passagem e permaneça no destino.
Para Castanho, as administrações locais precisam criar estruturas de recepção capazes de estimular a permanência e distribuir os efeitos econômicos da visitação. Nesse processo, economia criativa, comércio de rua, hotelaria e outros serviços passam a integrar a experiência da viagem de fé.

“O turismo religioso funciona como uma verdadeira economia movida pela fé, capaz de transformar simples pontos de passagem em destinos finais por meio do acolhimento e da valorização da identidade local”, afirmou.
A permanência também está relacionada à criação de produtos capazes de movimentar os destinos em diferentes épocas do ano. Em vez de concentrar o fluxo em grandes festas e celebrações, a estratégia discutida no fórum envolve associar os espaços religiosos ao patrimônio histórico, à gastronomia, à cultura, ao artesanato e a outros atrativos do território.
Para isso, é necessário estruturar a oferta de serviços. Hospedagem, alimentação, transporte, sinalização, acessibilidade, informação turística e qualificação profissional passam a fazer parte da organização dos destinos de fé.
O desafio de fazer o peregrino ficar
No Espírito Santo, uma parcela dos visitantes da Festa da Penha chega em caravanas, participa da programação religiosa e retorna para casa no mesmo dia. Para o Sebrae-ES, esse comportamento representa uma oportunidade de ampliar a permanência por meio da conexão entre fé e outros produtos turísticos.
“Na Festa da Penha, por exemplo, é uma visita rápida. Ele já vem em uma peregrinação, em uma caravana, chega de manhã e vai embora à tarde. A discussão é como conseguimos reter esse turista que vem por sua fé, mas que também pode conhecer outros ambientes de lazer e cultura, relaxar e aproveitar mais o destino”, afirmou Pinheiro.

A estratégia passa por oferecer opções de visita antes ou depois das celebrações. No caso capixaba, o patrimônio histórico, a gastronomia, a natureza e outros atrativos podem ser associados aos roteiros religiosos.
É uma mudança de lógica: em vez de trabalhar apenas com o evento ou o santuário como destino final, a proposta é construir uma programação capaz de ocupar um ou mais dias da viagem.
Foi nesse contexto que Larissa Cunha, da agência Pocar Experiências, apresentou produtos relacionados à herança de São José de Anchieta. Entre eles estão os Passos de Anchieta, percurso de quatro dias por Vitória, Vila Velha, Guarapari, Anchieta e Serra; o roteiro “Entre Fé e História”; visitas ao Santuário Nacional de São José de Anchieta; e o conjunto restaurado de Araçatiba, em Viana.
O objetivo é levar esses produtos para operadoras e agências de outros Estados. O Sebrae-ES já realizou um Famtour com sete agências e operadoras especializadas em turismo religioso, que conheceram atrativos capixabas para avaliar a inclusão dos locais em pacotes comercializados fora do Estado.
Do atrativo ao produto
A transformação de um patrimônio religioso em produto turístico exige mais do que a existência de um santuário, igreja ou caminho de peregrinação. Foi esse o ponto abordado por Joel Prado Neto, gerente de marketing da Canção Nova, ao apresentar a aplicação do Composto de Marketing Estendido, conhecido como 7 Ps.
Produto, preço, praça, promoção, pessoas, processos e evidências físicas foram apresentados como elementos que interferem na experiência do visitante. Atendimento, comunicação, infraestrutura, sinalização e tecnologia também entram nessa equação.

“No turismo religioso, o ‘produto’ não é o espaço físico ou o preço, mas sim a experiência transformadora que o destino oferece. Quando entregamos acolhimento, estrutura e verdade, o peregrino deixa de ser apenas um visitante e se torna um embaixador do destino”, afirmou Prado Neto.
A comercialização foi outro ponto abordado por Renato Duarte, da agência Turismo da Fé. Segundo ele, o peregrino tem características próprias e procura uma experiência relacionada à fé e à transformação pessoal, o que exige produtos pensados especificamente para esse público.
Durante o fórum, Duarte também anunciou a criação da primeira franquia voltada exclusivamente ao turismo religioso no Brasil. A iniciativa busca aproximar o segmento de canais tradicionais de distribuição, como agências e operadoras.
Cadeia precisa estar preparada
A profissionalização também envolve quem recebe o visitante. Leonardo Lares, presidente do Sindicato dos Guias de Turismo do Espírito Santo, destacou a necessidade de qualificar guias e turismólogos para trabalhar com patrimônio religioso, história e cultura.
Segundo ele, o Estado conta com iniciativas de capacitação em idiomas e Libras, envolvendo profissionais do turismo e a Pastoral do Turismo da Arquidiocese de Vitória.
A gastronomia foi outro setor colocado dentro dessa cadeia. Andrea Briolo, diretora do Sindbares e da Abrasel-ES, apresentou a moqueca capixaba como um dos elementos que podem ser associados aos roteiros de fé.

A lógica é fazer com que o peregrino não apenas visite um espaço religioso, mas consuma serviços e conheça outros aspectos do território. Restaurantes, hotéis, comércio, receptivos e guias passam a participar da mesma cadeia.
A experiência de Aparecida mostrou como essa estrutura pode ser ampliada. Jonatas Veloso, gerente do núcleo de turismo do Santuário Nacional, apresentou equipamentos voltados à acolhida dos peregrinos, como o Espaço do Peregrino, destinado a descanso de motoristas de excursão, suporte a motorhomes e atendimento a quem chega a pé.
Segundo os dados apresentados, cerca de 48 mil romeiros chegam caminhando ao santuário apenas durante outubro. O Centro de Informações Turísticas também oferece dez roteiros de visitas monitoradas conduzidas por profissionais formados em áreas como História, Teologia e Filosofia.

O conjunto de iniciativas mostra que a permanência não depende apenas de aumentar o número de visitantes. Ela passa pela capacidade de oferecer estrutura, informação e serviços para que o peregrino tenha motivos para permanecer.
No Espírito Santo, o desafio colocado pelo segundo dia do fórum é semelhante: transformar um fluxo já existente em uma cadeia econômica mais estruturada. Para isso, o setor ainda precisa avançar na produção de dados, na qualificação dos profissionais e na criação de produtos que possam ser comercializados fora dos próprios municípios.
Como resumiu Idalberto Moro, presidente da Fecomércio-ES, ao falar sobre o momento atual do segmento no Estado: “O turismo religioso está apenas começando no Espírito Santo. São os primeiros passos, e a gente sabe que ainda tem uma jornada muito grande pela frente”.