Venda direta de passeios ameaça mudar o equilíbrio do turismo em Bonito (MS)
Proposta prevê venda direta de passeios; mudança pode reduzir o papel de agências e alterar a dinâmica de um dos principais destinos de ecoturismo do país
Há quase três décadas, Bonito (MS) organiza a visitação de seus principais atrativos por meio de um sistema que se tornou uma das marcas do destino e referência mundial: o Voucher Único. O sistema foi criado em 1995 pelo Conselho Municipal de Turismo (Comtur) com o objetivo de controlar o fluxo de turistas, proteger o meio ambiente e organizar o acesso aos atrativos da região. A normativa também estabeleceu um modelo de comercialização no qual as agências locais têm papel central na reserva dos passeios.
Atualmente, nenhum passeio é comercializado por agências de fora do munícipio. É justamente essa parte do sistema que está em discussão. A atual gestão municipal e alguns empresários do setor defendem a abertura do “mercado” e de os próprios atrativos venderem diretamente seus passeios aos turistas. O argumento é que o controle de acesso não seria interrompido, mesmo com mais liberdade nos canais de comercialização dos atrativos. “A ideia é ampliar a participação de operadores e agentes de viagens na venda de Bonito”, disse o prefeito em conversas com jornalistas em julho último.

A medida também é defendida por Luiz Del Vigna, diretor-executivo da Associação Brasileira de Turismo de Aventura (Abeta). Em artigo publicado no Campo Grande News, no dia 11 de setembro, Del Vigna defende a manutenção do controle de vagas, horários e limites de visitação, mas questiona a obrigatoriedade de que a compra seja feita por uma agência local. Para ele, agências e atrativos poderiam disputar a preferência do visitante, com a intermediação deixando de ser uma exigência do sistema.
A discussão, porém, vai além de quem emite o voucher. Ela mexe com a distribuição da receita gerada pelo turismo em Bonito e com uma atividade que envolve dezenas de empresas locais. A agência não é apenas o ponto de pagamento de um passeio. Em muitos casos, é quem combina diferentes atrações, organiza horários, monta roteiros, orienta o viajante e acompanha eventuais alterações durante a estadia. E todo o staff está na cidade, caso surja algum imprevisto.
Esse controle rigoroso de visitação e a preservação de suas águas cristalina, rendeu ao munícipio o prêmio de melhor destino de ecoturismo do Brasil, da prestigiada revista “Viagem e Turismo”, da editora Abril, por 19 vezes.
Venda direta já existe em parte do sistema
A discussão sobre a exclusividade das agências ganha outro contorno quando se observa que a venda direta já faz parte do mercado de Bonito e região. Segundo levantamento da Associação dos Atrativos Turisticos de Bonito e Região (Atratur), associação que reúne atrativos turísticos, 17 dos 26 associados comercializam passeios diretamente ao consumidor.

Entre os 18 associados instalados em Bonito, nove mantêm agências próprias credenciadas: Abismo Anhumas, Praia da Figueira, Balneário do Sol, Gruta Catedral, Cabanas Aventura, Bonito Scuba, Balneário Estrela do Formoso, Eco Park Porto da Ilha e Parque das Cachoeiras. Já os oito associados de Bodoquena, Jardim e Miranda não estão submetidos à regra municipal de Bonito e também vendem diretamente, embora utilizem o mesmo sistema de agendamento.
Ou seja, a mudança em discussão atingiria principalmente os atrativos de Bonito que ainda dependem das agências locais para comercializar seus passeios.
O que pode mudar para as agências
Para empresas do setor, a questão central não é apenas quem emite o voucher, mas quem fica com a receita gerada pela venda. Se o turista continuar comprando a mesma quantidade de passeios, mas passar a fazer parte dessas compras diretamente com os atrativos, a mudança pode representar uma transferência de receita das agências para os estabelecimentos ou para outros canais de distribuição.
É nesse ponto que aparece uma preocupação adicional: o fortalecimento da venda direta não necessariamente significa que o dinheiro permanecerá em Bonito. Plataformas de reservas e grandes operadores, com alcance nacional ou internacional, também poderiam disputar esse mercado.
A agência local, por sua vez, costuma atuar na montagem do roteiro como um todo. Para quem chega à cidade, isso significa combinar diferentes atrativos, horários e deslocamentos, além de resolver alterações de programação e outros problemas que possam surgir durante a viagem.
No ano passado, somente os atrativos localizados em Bonito receberam 880.669, número bem superior ao pré-pandamia.
Agências ajudam a distribuir o fluxo de turistas em Bonito
A Azul Viagens, que mantém parceria estratégica com a Bonito Way, vê as agências como parte da estrutura que ajudou a consolidar o destino. Para Giulliana Mesquita, diretora da empresa, elas não funcionam apenas como canais de venda, mas também como ligação entre Bonito, operadoras e mercados emissores de diferentes regiões do Brasil e do exterior.
“Bonito se tornou uma referência nacional em ecoturismo justamente por combinar preservação ambiental, organização turística e fortalecimento de toda a cadeia do setor”, afirma.
Segundo Giulliana, as agências também ajudam o viajante a escolher os atrativos de acordo com seu perfil e a organizar a viagem antecipadamente, algo especialmente relevante em um destino no qual as vagas e horários de visitação são limitados.
Uma cadeia que vai além do voucher
O empresário Silvio Bertold, da Bertoldi Viagens e Turismo, de Curitiba (PR), acompanha Bonito há anos e foi um dos pioneiros no trabalho com turismo educacional na região. Para ele, a discussão precisa considerar os efeitos sobre toda a cadeia local.
“Aindústria de Bonito é o turismo. Bonito não é um município barato para sustentar. Bonito precisa de arrecadação”, afirma.
Na avaliação de Bertold, uma alteração no modelo pode atingir não apenas agências e receptivos, mas também trabalhadores e fornecedores que dependem do movimento turístico. Ele lembra que a atividade envolve guias, transporte, hospedagem, alimentação e uma série de serviços que se beneficiam da circulação de visitantes.
O empresário também chama atenção para o papel que Bonito exerceu na projeção dos atrativos localizados nos municípios vizinhos. Para ele, a força do destino foi fundamental para colocar toda a região da Serra da Bodoquena no mapa do ecoturismo brasileiro. “Hhoje, o destino só é o que é por conta desse controle e da preservação que atrai visitantes do mundo todo”, completa.
Controle ainda é o ponto central
Quem defende a mudança afirma que a abertura da comercialização não significa acabar com o controle da visitação. No artigo em que defende a revisão do modelo, Luiz Del Vigna sustenta que vagas, horários e limites poderiam continuar sendo administrados pelo sistema, independentemente de o passeio ser vendido por uma agência ou diretamente pelo atrativo.
A reportagem da Catraca Livre procurou Luiz, que não quis se pronunciar sobre a posição da Abeta.
A prefeitura também caminha para modernizar essa estrutura. Em agosto, abriu licitação para contratar uma plataforma integrada de Voucher Digital, com recursos voltados à operação, integração de dados, estatísticas, controle ambiental e governança turística.
A tecnologia, portanto, pode permitir uma discussão mais ampla sobre os canais de venda sem necessariamente retirar o controle sobre quantas pessoas entram em cada atrativo. A questão passa a ser como garantir que essa abertura não fragilize justamente os mecanismos de organização que fizeram parte da construção do destino.
Fraudes mostram a importância da fiscalização
O próprio sistema de vouchers já enfrentou problemas de controle. Em janeiro deste ano, a prefeitura informou ter identificado possíveis irregularidades cadastrais e eventual falsificação em vouchers que poderiam ter afetado a cobrança da Taxa de Conservação Ambiental (TCA).
Segundo o município, uma análise no sistema Turista por Natureza encontrou 5.663 turistas relacionados a possíveis cadastros irregulares de isenção. Havia casos em que o município de residência informado era Bonito, enquanto dados de CPF e telefone indicavam origem em outros Estados. As agências envolvidas foram notificadas para apresentar esclarecimentos.
O episódio ocorreu dentro do modelo atual e, por si só, não permite concluir que a venda direta aumentaria ou reduziria fraudes. Serve, porém, para mostrar a importância de manter mecanismos de fiscalização e integração de dados caso os canais de comercialização sejam ampliados.
A pergunta que fica
A proposta de abertura do mercado coloca em discussão uma característica construída ao longo de quase 30 anos. A existência de uma estrutura local que concentra a comercialização e, ao mesmo tempo, organiza parte da experiência do visitante.
Para os defensores da mudança, o ponto principal é dar mais liberdade de escolha ao turista e aos atrativos. Para as agências e operadores que defendem o modelo atual, o receio é que uma alteração aparentemente restrita ao canal de venda tenha efeitos sobre a distribuição da receita, os empregos e a própria organização da cadeia turística.
O desafio, portanto, não está apenas em decidir quem poderá vender o passeio. Está em definir como Bonito poderá ampliar os canais de comercialização sem perder o controle da visitação e sem enfraquecer a estrutura local que ajudou a transformar o município em uma das principais referências brasileiras de ecoturismo.