No primeiro Finados sem o pai, humorista reflete sobre o luto, a perda do palco e o reencontro com a comédia
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Neste 2 de novembro, o comediante Daniel Sartório vive o seu primeiro Dia de Finados após o falecimento do pai, Celso Trindade, aos 74 anos. Engenheiro florestal, pesquisador, consultor e contador de “causos” nato, Celso encontrou na cumplicidade com o filho e na comédia de palco uma forma lúcida e corajosa de encarar os diagnósticos de saúde e o avanço da idade. Mais do que uma paixão compartilhada, o stand-up virou a linguagem oficial e o território comum de afeto entre os dois.
Com a partida de Celso, a comédia perdeu o sentido imediato para Daniel. O palco, antes espaço de acolhimento e celebração mútua, pareceu esvaziar-se diante do baque da perda.
“O stand-up era o nosso chão comum, o lugar onde a gente se encontrava de verdade. Quando ele se foi, perdi totalmente a vontade de fazer comédia. Parecia que não tinha mais espaço para o riso”, relata Daniel. “Só comecei a destravar quando me permiti sentar e escrever piadas sobre o que estava vivendo: o luto, a ausência, as contradições da dor. Foi escrevendo sobre o próprio baque que a vontade de voltar a falar e subir no palco reapareceu.”
Essa travessia recente — da dor da perda ao recomeço na escrita e na estrada — está sendo documentada em primeira pessoa por Daniel em formato de vlog em seu canal oficial no YouTube, dividindo com o público os bastidores reais desse processo de reconstrução.
A cumplicidade de palco entre pai e filho ficou registrada no especial “Antes que ele se esqueça”, gravado ao vivo e disponível no YouTube. Em cena, Daniel assumia a função de parceiro e suporte, conduzindo o pai e transformando as pausas de memória em pontes de cumplicidade com a plateia. Como o próprio Celso costumava sintetizar em cena: “Dizem que rir é o melhor remédio, e vocês são o meu tratamento”.
A relação de Celso com as palavras e seu humor afiado também chegam aos leitores no livro “Lembre-se de Rir: O Diário de um Mineiro Passando a Perna no Alemão”, obra deixada por ele e que reúne causos, memórias e reflexões sobre a vida e os desafios da saúde. Exemplares da tiragem impressa estão sendo disponibilizados diretamente pelo perfil de Daniel no Instagram (@danielsartorio).
Ao olhar para o percurso trilhado ao lado do pai, Daniel resume o que permanece:
“A vantagem de ter feito todos esses projetos com ele é que a comédia uniu a gente de um jeito único. Pude dar a oportunidade de uma nova vida para o meu pai, algo que realmente fez ele se segurar firme. Ele não tinha medo do câncer, ele tinha medo apenas de esquecer das piadas. Quando perguntavam sobre a gravidade da doença, ele respondia na hora, em tom de piada: ‘Ah, ele vai morrer comigo’. Hoje, o sentimento de dever cumprido fica, e o que sobra é apenas a falta, a saudade pura. Mas sei que toda vez que eu piso num palco agora, ele estaria feliz demais em estar tendo essa oportunidade junto comigo.”
O especial “Antes que ele se esqueça” e os novos episódios em vlog sobre essa jornada podem ser assistidos no canal de Daniel Sartório no YouTube.