Redação do Enem: como identificar assuntos com potencial para virar tema da prova
Em vez de tentar decorar listas de apostas, estudantes podem observar problemas relevantes do Brasil e construir repertório para construir argumentos
À medida que o Enem se aproxima, uma dúvida costuma ganhar espaço entre os estudantes: qual será o tema da redação? Embora não seja possível antecipar a proposta escolhida pela prova, existe uma estratégia mais consistente do que tentar adivinhar o assunto. A recomendação de especialistas é acompanhar os principais problemas que afetam a sociedade brasileira e entender quais deles podem ser trabalhados dentro do modelo exigido pelo exame.
O Enem 2025 teve 4.811.338 inscrições confirmadas, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Desse total, 1.390.815 eram estudantes concluintes da rede pública de ensino médio, o que mostra a dimensão da prova para jovens que buscam uma vaga no ensino superior.
Para Cris Oliveira, professora de redação, língua portuguesa e literatura, acompanhar assuntos em evidência é importante, mas o estudante precisa saber diferenciar um tema que viraliza de um problema com potencial para ser explorado na redação.
“Não existe uma fórmula para descobrir o tema da redação. O que podemos fazer é analisar o contexto e identificar problemas que possuem relevância social, no cenário brasileiro. O estudante que tenta decorar uma lista de possíveis temas fica limitado. Já aquele que entende os problemas do país e consegue argumentar sobre eles está preparado para uma proposta que pode vir de diferentes maneiras”, explica.

O que faz um assunto ter potencial para a redação?
A análise precisa ir além dos assuntos que estão entre os mais comentados nas redes sociais. O Enem costuma apresentar questões-problema que permitem ao candidato desenvolver uma argumentação e propor medidas para enfrentar a situação apresentada.
Segundo a cartilha oficial do Inep, a redação deve ser um texto dissertativo-argumentativo. Nesse formato, o participante precisa defender um ponto de vista com argumentos e informações e apresentar uma proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.
“Uma notícia pode estar em alta hoje e desaparecer da discussão amanhã. Isso não significa que ela tenha características para se transformar em uma proposta de redação. O mais importante é perguntar: qual problema existe por trás desse assunto? Ele afeta a sociedade? Existe uma discussão pública sobre ele? Há diferentes perspectivas que podem ser analisadas?”, afirma Cris.
Assim, uma notícia ou acontecimento recente pode servir como ponto de partida para os estudos, mas não deve ser tratado automaticamente como uma aposta para a prova.
O período em que a prova é elaborada também importa
Outro caminho para organizar os estudos é observar o contexto brasileiro durante o período de elaboração do exame. Questões que ganham relevância nesse momento podem ajudar o estudante a ampliar o repertório e compreender melhor os debates presentes na sociedade.
Isso, porém, não significa que seja possível prever o tema.
“É possível fazer um mapa de tendências, mas não uma previsão. O aluno pode olhar para o Brasil e perceber que determinadas questões estão sendo discutidas com intensidade. Isso serve como orientação para aprofundar o repertório, não como garantia de que aquele assunto estará na prova”, explica.
A diferença é importante: acompanhar tendências pode direcionar a preparação, mas apostar todas as fichas em determinados assuntos pode deixar o candidato despreparado caso a proposta siga outro caminho.
Quais assuntos merecem atenção?
Durante a preparação, alguns grandes eixos podem ser acompanhados pelos estudantes. Entre eles estão mudanças climáticas, eventos climáticos extremos, desigualdade social, saúde pública, educação, inteligência artificial, transformações no mercado de trabalho, desinformação, violência contra grupos vulneráveis, envelhecimento da população, inclusão de pessoas com deficiência, segurança alimentar, mobilidade urbana, racismo, preservação cultural, direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais e saúde mental.
A ideia não é transformar esses assuntos em “apostas”, mas compreendê-los como grandes áreas de estudo que podem gerar diferentes problemas e abordagens.
A educação, por exemplo, reúne uma série de questões que podem ser analisadas a partir de dados e transformações recentes. Segundo o Censo Escolar 2025, a proporção de matrículas presenciais em tempo integral na rede pública chegou a 25,8% na educação básica. No ensino médio, o índice alcançou 26,8% em 2025, ante 16,7% em 2022.
Mais do que decorar números, o estudante pode usar informações como essas para entender mudanças na realidade brasileira, identificar desafios e construir argumentos para diferentes propostas.
Como estudar sem tentar adivinhar o tema
Para Cris Oliveira, uma preparação eficiente começa pela compreensão dos problemas e não pela memorização de redações prontas.
“Eu recomendo que o estudante pegue um tema e faça cinco perguntas: qual é o problema, quais são as causas, quem é afetado, quais são as consequências e o que pode ser feito para solucioná-lo. Se ele consegue responder a essas perguntas e relacionar o assunto a dados, acontecimentos históricos, leis, conceitos e exemplos, ele está construindo repertório de verdade”, orienta.
Esse método também permite desenvolver uma visão mais ampla sobre cada assunto. Em vez de memorizar um texto inteiro sobre determinado tema, o aluno passa a compreender suas causas, consequências, grupos afetados e possíveis caminhos para enfrentá-lo.
A estratégia ainda contribui diretamente para a elaboração da proposta de intervenção, uma das partes avaliadas na redação.
“Não basta apontar que existe um problema. O aluno precisa pensar em caminhos e perspectivas para enfrentá-lo. Quem entende a estrutura do problema consegue construir uma intervenção mais específica e coerente, em vez de recorrer a soluções genéricas”, acrescenta a especialista.
Mais importante do que acertar o tema é saber argumentar
A redação do Enem vale até 1.000 pontos e é avaliada em cinco competências, cada uma podendo representar até 200 pontos. Entre os critérios estão o domínio da modalidade escrita formal, a compreensão da proposta, a organização dos argumentos e a elaboração de uma proposta de intervenção.
Por isso, estudar apenas possíveis temas pode ser uma estratégia limitada. O conhecimento precisa ser suficientemente amplo para ser adaptado a diferentes propostas.
“O estudante não precisa saber exatamente qual tema vai aparecer. Ele precisa estar preparado para discutir problemas. Quando existe repertório, capacidade de análise e argumentação, ele consegue se adaptar. A prova pode surpreender no tema, mas não deveria surpreender quem aprendeu a pensar sobre a realidade brasileira”, conclui.
A edição de 2026 do Enem está prevista para os dias 8 e 15 de novembro, segundo o cronograma oficial do Inep.