Os chefs portugueses concordam: “O bacalhau mais saboroso não é dessalgado apenas em água; é preciso trocar o líquido pelo menos quatro vezes em 48 horas.”
O bacalhau salgado e seco precisa recuperar água aos poucos.
O bacalhau mais saboroso nasce antes da panela: começa na dessalga lenta, feita em água fria, dentro da geladeira e com trocas regulares. Em 48 horas, trocar o líquido pelo menos quatro vezes ajuda a retirar o excesso de sal sem lavar o sabor do peixe. A pressa deixa o centro salgado, endurece fibras e compromete pratos clássicos como bacalhau à Gomes de Sá, à Brás ou assado com batatas.

Por que a dessalga não pode ser feita de qualquer jeito?
O bacalhau salgado e seco precisa recuperar água aos poucos. Quando a posta entra em água fria, o sal começa a sair da superfície e do interior, enquanto a carne reidrata e volta a ganhar textura firme, mas úmida.
Se a dessalga é curta demais, a parte externa pode parecer no ponto, enquanto o miolo continua agressivamente salgado. Se o peixe fica em água morna ou fora da geladeira, a textura sofre e a conservação fica menos segura.
Como cada troca de água muda o sabor?
A primeira água remove o sal mais superficial, aquele que fica visível na pele e nas fibras externas. As trocas seguintes fazem o trabalho mais importante: puxam o sal que está no interior da posta, onde o excesso costuma aparecer só depois do cozimento.
Esse processo precisa de água limpa porque a água saturada de sal perde força de extração. Por isso, as trocas não são detalhe:
- A primeira troca reduz o sal mais forte da superfície.
- A segunda começa a equilibrar a parte interna da posta.
- A terceira deixa a carne mais uniforme para cozinhar.
- A quarta evita que o centro fique salgado demais.
- Postas muito grossas podem pedir mais trocas e mais tempo.
Qual é o passo a passo correto em 48 horas?
Comece lavando o bacalhau em água corrente para retirar o sal grosso aparente. Depois, coloque as postas em uma tigela grande, cubra com bastante água fria e leve à geladeira.
Para lombos e postas grossas, faça trocas a cada 8 ou 12 horas, mantendo sempre o peixe frio e submerso. Em 48 horas, isso garante pelo menos quatro trocas completas. A pele pode ficar voltada para cima, ajudando a carne a liberar sal pela parte mais exposta.

Por que a pressa arruína o bacalhau?
A pressa costuma levar a dois erros: usar água quente ou cozinhar antes de o centro dessalgar. A água quente até acelera a saída do sal, mas também altera a proteína do peixe, deixando a posta mais seca, quebradiça e com textura menos nobre.
Outro erro é tentar corrigir o sal depois, já na receita. Quando o bacalhau entra salgado demais no azeite, na batata ou no creme, o tempero domina tudo. O prato perde equilíbrio, e ingredientes delicados, como cebola, ovo, azeitona e salsa, viram apenas acompanhamento para o excesso de sal.
Como saber que o bacalhau está pronto para cozinhar?
O ponto ideal aparece quando a posta está flexível, hidratada e com sal perceptível, mas não agressivo. Para confirmar, retire uma lasca pequena da parte mais grossa, cozinhe rapidamente em água sem sal e prove; o teste cru pode enganar porque o sal se comporta diferente depois do calor.
Depois da dessalga, escorra bem e seque com papel ou pano limpo antes de grelhar, assar ou refogar. O bacalhau no ponto mantém sabor próprio, abre em lascas largas e aceita azeite, alho, batatas e ervas sem que o sal esconda a textura do peixe.