A 9.533 metros de profundidade, pesquisadores encontraram um ecossistema inteiro onde parecia impossível existir tanta vida

Comunidades descobertas a mais de 9 quilômetros de profundidade revelam como metano e microrganismos sustentam vida na escuridão extrema.

A 9.533 metros abaixo da superfície, em uma região onde a luz solar simplesmente não existe, cientistas encontraram comunidades densas de vermes, moluscos e microrganismos. A descoberta nas fossas Kuril-Kamchatka e Aleutiana revelou o ecossistema quimiossintético animal mais profundo conhecido, alimentado por energia química liberada no fundo do oceano.

A equipe realizou 23 mergulhos com o submersível tripulado Fendouzhe e encontrou essas comunidades em 19 deles.
A equipe realizou 23 mergulhos com o submersível tripulado Fendouzhe e encontrou essas comunidades em 19 deles. - Imagem gerada por IA

O que os cientistas encontraram no fundo do oceano?

O estudo publicado na revista Nature em julho de 2025 descreveu comunidades quimiossintéticas distribuídas ao longo de cerca de 2.500 quilômetros das fossas Kuril-Kamchatka e Aleutiana. Os organismos foram observados entre aproximadamente 5.800 e 9.533 metros de profundidade, uma escala que surpreendeu os próprios pesquisadores.

A equipe realizou 23 mergulhos com o submersível tripulado Fendouzhe e encontrou essas comunidades em 19 deles. Entre os moradores estavam vermes siboglinídeos, bivalves, gastrópodes e extensos tapetes microbianos, formando verdadeiros oásis em uma região submetida a pressão extrema e escuridão permanente.

Submersível revela vida abundante em profundidades recordes do oceano Pacífico Norte.
Submersível revela vida abundante em profundidades recordes do oceano Pacífico Norte. - Créditos: Imagem criada por IA.

Como existe tanta vida sem luz solar?

A resposta está na quimiossíntese. Segundo a NOAA, determinados microrganismos conseguem usar a energia presente em substâncias como metano e sulfetos para produzir matéria orgânica. Eles podem viver livremente ou estabelecer relações simbióticas com animais maiores, tornando-se a base de comunidades inteiras onde a fotossíntese não ocorre.

Nas fossas estudadas, fluidos ricos em metano chegam ao fundo marinho por fraturas geológicas. O trabalho da Nature encontrou evidências isotópicas de que esse metano tem origem microbiana e pode ser produzido em camadas profundas dos sedimentos antes de migrar por falhas até as chamadas emanações frias.

Quais descobertas mais impressionaram os pesquisadores?

As imagens revelaram que não se trata de alguns organismos isolados. Em determinados pontos, a densidade de siboglinídeos ultrapassou 5 mil indivíduos por metro quadrado. No local chamado Wintersweet Valley, a cerca de 9.120 metros, colônias com milhares de vermes ocupavam uma área de emanação que se estendia por aproximadamente dois quilômetros.

  • Comunidades quimiossintéticas foram registradas a até 9.533 metros de profundidade.
  • Os habitats observados se distribuem por cerca de 2.500 quilômetros das fossas estudadas.
  • Vermes siboglinídeos e bivalves aparecem entre os organismos mais característicos desses ambientes.
  • O metano que alimenta parte do sistema apresenta sinais de produção microbiana nos sedimentos profundos.

Outro detalhe chamou atenção: espécies semelhantes foram encontradas em diferentes fossas do Pacífico Norte. Para os autores, essa distribuição sugere a existência de uma rede de habitats quimicamente favoráveis muito maior do que se conhecia, embora ainda seja cedo para afirmar que o mesmo padrão esteja presente em todas as fossas oceânicas.

Milhares de vermes e moluscos povoam oásis quimicamente ricos nas profundezas.
Milhares de vermes e moluscos povoam oásis quimicamente ricos nas profundezas. - Créditos: Imagem criada por IA.

Essa descoberta muda o que sabemos sobre o carbono?

O estudo abre novas perguntas sobre a circulação de carbono e metano no oceano profundo. Os pesquisadores identificaram concentrações elevadas de metano nos sedimentos e propuseram um modelo em que matéria orgânica enterrada é transformada por microrganismos, enquanto fluidos ricos nesse gás migram pelas fraturas tectônicas até alimentar as comunidades do fundo.

Isso não significa que toda a zona hadal seja completamente independente da superfície. O próprio trabalho indica que parte da matéria orgânica presente nos sedimentos pode originalmente chegar das camadas superiores do oceano. A novidade está na importância das fontes locais de energia química, capazes de sustentar comunidades surpreendentemente abundantes em profundidades extremas.

Por que esse mundo oculto importa tanto para a ciência?

A descoberta amplia os limites conhecidos dos ecossistemas baseados em quimiossíntese e mostra como grande parte do oceano profundo ainda permanece pouco compreendida. Para a NOAA, ambientes como emanações frias e fontes hidrotermais demonstram que cadeias alimentares complexas podem surgir sem depender diretamente da luz, usando compostos químicos como fonte inicial de energia.

Quanto mais fundo a ciência consegue chegar, mais surpreendente a Terra parece. Explorar essas fossas agora pode revelar novas espécies, processos geológicos e caminhos desconhecidos do carbono. Também ajuda a entender onde procurar sinais de vida em outros mundos, especialmente em ambientes escuros onde a luz de uma estrela nunca alcança.