A lagarta que guarda suas antigas cabeças empilhadas sobre o corpo e utiliza essa estrutura bizarra para tentar sobreviver aos ataques
Espécie de lagarta acumula antigas cápsulas da cabeça e utiliza a estrutura para dificultar ataques de predadores.
Uma lagarta cresce e troca de pele várias vezes. Na espécie Uraba lugens, porém, as cápsulas endurecidas de cabeças antigas podem permanecer empilhadas acima da cabeça atual, formando uma torre que parece um chapéu improvável. O efeito não é mera aparência: em experimentos, um inseto predador atingiu essa estrutura em vez do corpo da presa e demorou mais para completar o ataque. Como a pilha se forma, quando protege e por que não torna a lagarta invencível?

O que são as cabeças empilhadas?
São cápsulas cefálicas deixadas após as mudas do exoesqueleto. A cabeça verdadeira está na base da pilha; as demais são partes antigas, sem olhos funcionando ou outro cérebro. Conforme a larva cresce, cada cápsula substituída pode permanecer presa sobre a anterior. Não são cabeças de outros animais coletadas para decoração.
A espécie ocorre na Austrália e na Nova Zelândia e alimenta-se principalmente de plantas da família do eucalipto. Estudos descrevem normalmente oito a 14 estágios larvais, com retenção das cápsulas a partir de fases mais avançadas. O empilhamento é visível, mas varia entre indivíduos e momentos de desenvolvimento, de modo que nem toda lagarta apresentará a mesma torre.

Como essa estrutura pode impedir uma ferroada?
Uma das ameaças é um percevejo predador que perfura a presa com uma peça bucal estreita. Ao encontrar as cápsulas vazias, ele pode atacar um alvo falso ou perder tempo tentando alcançar a parte viva. A lagarta também move a pilha para afastar a peça bucal do agressor. A defesa combina forma e comportamento.
Os resultados experimentais ajudam a separar observação de hipótese. Os pesquisadores compararam larvas com e sem as cápsulas e acompanharam encontros com predadores, verificando:
- O ataque pode ser direcionado inicialmente às cápsulas vazias.
- A lagarta pode usar a pilha para desviar a peça bucal.
- Alguns ataques duram mais quando a pilha está presente.
- O efeito depende do predador e do contexto observado.
A pilha sempre salva a lagarta?
Não. Nos ensaios de escolha com percevejos, os ataques às lagartas com cápsulas duraram muito mais em determinados casos, mas os predadores conseguiram completar os ataques observados. Em testes de campo, a vantagem de sobrevivência apareceu sob algumas condições, sem proteger contra todos os inimigos. Outros predadores podem se aproximar ou atacar de maneira diferente.
A falsa cabeça de outra lagarta ajuda a comparar estratégias que desviam a atenção, embora sejam mecanismos distintos. Em Uraba lugens, a estrutura é material de mudas antigas e pode funcionar como escudo móvel, enquanto a defesa de outras espécies envolve alterar a forma do corpo.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube PeerJ, que registra a interação de uma lagarta Uraba lugens com um percevejo predador e permite observar a pilha de cápsulas durante o ataque:
Como os cientistas testaram essa ideia?
Um estudo publicado na revista PeerJ retirou as cápsulas de parte das larvas e comparou sua sobrevivência com a de larvas que as mantiveram. Os experimentos incluíram grupos em campo e encontros controlados com percevejos. Comparar tratamentos permite investigar a função da pilha, mas não reproduz cada condição de uma floresta.
Os autores observaram ataques demorados quando o predador perfurava a pilha ou precisava contorná-la. Também reconheceram limites: desaparecimento no campo pode ter mais de uma explicação, e a defesa não detém todos os inimigos. Cabelos urticantes e outros comportamentos da lagarta fazem parte da proteção, portanto a sobrevivência não depende de um único acessório.
Por que essa defesa chama tanto a atenção?
Porque o material descartado no crescimento ganha uma segunda função. A muda costuma remover uma estrutura antiga; aqui, sua retenção cria um obstáculo físico sobre a parte mais vulnerável do corpo. O resultado parece uma fantasia, mas o benefício plausível pode ser medido em segundos de ataque e em oportunidades de escapar.
A diferença entre distração e proteção absoluta é decisiva. O percevejo pode insistir e alcançar a larva, enquanto outros inimigos nem se deixam enganar. A torre de cabeças mostra uma solução evolutiva incomum, feita de resíduos do próprio corpo, e lembra que uma defesa eficaz em certas situações não precisa funcionar contra todos os perigos para ter valor biológico. Para interpretar a experiência, é preciso observar também o tipo de predador, o ambiente do ensaio e o tamanho da amostra; uma cena isolada não descreve toda a vida da lagarta.