A Suécia pinta de rosa seus painéis solares e resolve por surpresa um grande problema da agricultura
A aparência magenta não é apenas decorativa.
Na Suécia, pesquisadores testaram painéis solares cor-de-rosa sobre uma plantação de brócolis e encontraram uma solução promissora para um problema da agricultura moderna: produzir eletricidade e alimentos no mesmo terreno sem prejudicar tanto a lavoura. Os módulos semitransparentes filtram a luz de forma diferente dos painéis convencionais e permitem que comprimentos de onda importantes para a fotossíntese cheguem às plantas.

Por que os painéis solares ficaram cor-de-rosa?
A aparência magenta não é apenas decorativa. Os painéis foram desenvolvidos para selecionar partes específicas do espectro solar. Em vez de bloquear quase toda a luz, como acontece com módulos fotovoltaicos opacos, eles deixam passar uma parcela da radiação que pode ser aproveitada pelo cultivo.
Plantas utilizam principalmente faixas de luz azul e vermelha durante a fotossíntese. O sistema sueco foi projetado para favorecer a passagem dessas regiões do espectro enquanto outra parte da energia luminosa é aproveitada pelas células fotovoltaicas para gerar eletricidade.
Qual problema da agricultura essa tecnologia tenta resolver?
Grandes instalações solares e lavouras podem competir pelo mesmo espaço. Esse conflito é especialmente relevante em regiões onde terras agrícolas produtivas são limitadas. A agrovoltaica tenta contornar o problema colocando produção de alimentos e geração de energia na mesma área.
A proposta oferece algumas vantagens potenciais:
- produzir eletricidade sobre áreas que continuam cultivadas;
- reduzir a necessidade de escolher entre lavoura e usina solar;
- criar sombra parcial para determinadas culturas;
- proteger plantas de parte da radiação solar direta;
- gerar uma segunda fonte de receita para propriedades rurais.
O que aconteceu com o brócolis cultivado sob os painéis?
No experimento realizado em uma fazenda sueca, os pesquisadores compararam brócolis cultivados a pleno sol com plantas instaladas sob dois sistemas de painéis magenta com diferentes níveis de transparência. Ao final, os vegetais sob os módulos alcançaram tamanho semelhante ao dos exemplares cultivados no campo aberto.
O resultado mais curioso foi a eficiência no uso da luz. As plantas sob os painéis aproveitaram a radiação disponível de maneira até 4,5 vezes mais eficiente. Houve, porém, uma contrapartida importante: o brócolis protegido pelos módulos levou cerca de 25 dias a mais para atingir a maturidade.
Como é possível crescer com menos luz disponível?
Receber menos radiação total não significa necessariamente receber luz inútil. Ao modificar o espectro que chega às folhas, os painéis semitransparentes podem deixar passar uma proporção interessante das faixas mais utilizadas pela fotossíntese.
O ambiente sob a estrutura também sofre outras alterações:
- a intensidade da luz direta diminui;
- a temperatura ao redor das plantas pode mudar;
- o solo pode perder água mais lentamente em algumas condições;
- chuva forte e granizo podem atingir menos diretamente a cultura;
- o microclima passa a ser diferente do observado em campo aberto.

O sistema sueco foi projetado para favorecer a passagem dessas regiões do espectro enquanto outra parte da energia luminosa é aproveitada pelas células fotovoltaicas para gerar eletricidade.Imagem gerada por inteligência artificial
Os painéis rosas já podem ser usados em qualquer lavoura?
Ainda não. O estudo foi realizado com protótipos e durante uma temporada de cultivo específica. Os próprios pesquisadores ressaltam que culturas diferentes podem responder de maneiras distintas à quantidade, à cor e à distribuição da luz.
Também existe um equilíbrio entre agricultura e energia. Um painel mais transparente entrega mais luz às plantas, mas pode gerar menos eletricidade por área. A configuração ideal depende da cultura, do clima, do período do ano e do objetivo econômico da propriedade.
A cor dos painéis pode mudar a maneira como usamos terras agrícolas
O experimento sueco mostra que agricultura e energia solar não precisam necessariamente disputar cada metro quadrado disponível. Ao controlar quais partes da luz chegam às plantas e quais são convertidas em eletricidade, a tecnologia pode transformar o mesmo terreno em uma área produtora de alimentos e energia ao mesmo tempo.
Os painéis magenta ainda precisam ser testados em escalas maiores, durante mais safras e com outras espécies. Mesmo assim, o brócolis que alcançou tamanho semelhante ao cultivo convencional sob uma cobertura geradora de eletricidade oferece uma demonstração concreta do potencial da agrovoltaica: aproveitar melhor a luz solar sem retirar completamente a terra da produção agrícola.