Uma família converteu 27.000 hectares de antigas terras agrícolas em uma reserva natural em 1997: hoje voltaram elefantes, rinocerontes e grandes predadores
A primeira propriedade comprada foi Apieskloof.
No leste da África do Sul, uma área formada por antigas propriedades rurais passou por uma transformação de quase três décadas. Em 1997, Sarah e Mark Tompkins começaram a comprar fazendas de criação de gado e ovelhas no Great Karoo com um objetivo pouco comum para a época: reconstruir um ecossistema capaz de sustentar novamente grandes herbívoros e predadores. O projeto deu origem à Samara Karoo Reserve, que hoje reúne cerca de 27.000 hectares.

O projeto começou com uma fazenda em 1997
A primeira propriedade comprada foi Apieskloof. A partir dali, o casal reuniu outras áreas até formar um mosaico de 11 antigas fazendas pecuárias. Durante gerações, parte da paisagem havia sido modificada pelo pastoreio, cercas e retirada da fauna original.
Antes de simplesmente soltar animais no local, o projeto passou anos trabalhando na recuperação do terreno. Cercas internas foram removidas, plantas invasoras foram combatidas e áreas degradadas permaneceram em descanso para permitir que a vegetação se recuperasse.
Os primeiros animais grandes não voltaram todos sozinhos
Esse é um detalhe importante. Quando se diz que elefantes, rinocerontes e grandes predadores “voltaram”, boa parte deles retornou por meio de programas planejados de reintrodução, e não simplesmente caminhando espontaneamente de volta para a área.
Primeiro foram reconstruídas populações de herbívoros como elandes, hartebeests, órix, girafas, zebras e búfalos. Somente depois, quando já existia alimento suficiente e o ambiente estava mais estruturado, começaram as reintroduções dos grandes predadores.
Uma gueparda marcou uma virada na recuperação
Em 2004, uma gueparda chamada Sibella foi libertada na reserva depois de passar por um processo de recuperação. Ela se tornou o primeiro guepardo selvagem a retornar à região do Great Karoo em cerca de 130 anos.
A reintrodução teve um resultado importante: Sibella sobreviveu, caçou e teve filhotes. Isso mostrou que a paisagem restaurada já conseguia sustentar novamente um predador de grande porte.
Depois vieram rinocerontes, elefantes e leões
A recuperação continuou nas décadas seguintes. Em 2013, a reserva reintroduziu rinocerontes-negros adaptados a ambientes áridos. Quatro anos depois, em 2017, chegou um pequeno grupo familiar de elefantes, devolvendo à região animais que não ocupavam aquela paisagem havia aproximadamente 150 anos.
Em 2019, foi a vez dos leões. A presença deles devolveu ao ecossistema um grande predador de topo que estava ausente daquela parte do Karoo havia aproximadamente 180 anos.
- guepardos foram reintroduzidos a partir de 2004;
- rinocerontes-negros retornaram em 2013;
- elefantes chegaram em 2017;
- leões foram reintroduzidos em 2019;
- outros grandes herbívoros também voltaram por manejo planejado.
Alguns predadores, porém, retornaram sem serem soltos
Nem toda a fauna atual da reserva precisou ser transportada. Em 2021, câmeras registraram um leopardo na área. Monitoramentos posteriores indicaram que esses felinos haviam começado a usar novamente a paisagem por conta própria.
Essa diferença é importante porque mostra dois efeitos distintos da restauração: de um lado, espécies que precisaram ser reintroduzidas; de outro, animais que passaram a encontrar condições adequadas e retornaram naturalmente.
Por que recuperar os predadores também fazia parte do plano?
A proposta nunca foi apenas aumentar o número de animais visíveis. Grandes herbívoros e predadores exercem funções diferentes no ambiente. Elefantes modificam a vegetação, herbívoros redistribuem nutrientes e predadores ajudam a controlar populações e comportamentos de presas.
Por isso, a família trabalhou com pesquisadores para tentar reconstruir as relações ecológicas que existiam antes da transformação da região pela pecuária intensiva e pela perseguição de animais selvagens.

A área realmente era uma antiga terra agrícola?
A descrição precisa merece uma pequena correção. Os 27.000 hectares não eram simplesmente campos de cultivo abandonados. A Samara foi formada principalmente pela união de 11 antigas fazendas de criação de animais, usadas para atividades pecuárias. Algumas partes estavam bastante degradadas por décadas de uso rural.
Portanto, o processo envolveu mais do que plantar vegetação novamente. Foi necessário retirar animais domésticos, descansar o solo, desmontar cercas, controlar invasoras e só então reconstruir gradualmente as populações de fauna.
O que existe na reserva quase 30 anos depois?
Hoje, a Samara abriga dezenas de espécies de mamíferos e centenas de espécies de aves, além de animais emblemáticos como elefantes, rinocerontes, guepardos e leões. A própria reserva informa que cerca de 70 espécies de mamíferos já utilizam seus diferentes ambientes.
O resultado não foi simplesmente deixar uma fazenda abandonada e esperar a natureza voltar. Foram décadas de recuperação do terreno, reintroduções planejadas e monitoramento. A história mostra que restaurar um ecossistema grande pode exigir primeiro reconstruir o habitat e, depois, devolver cuidadosamente as espécies que desapareceram dele.