Antes do Kevlar, o primeiro colete resistente a balas era feito com dezenas de camadas de algodão

Antes do Kevlar e das placas rígidas, uma das primeiras respostas às armas modernas foi costurar dezenas de camadas de algodão.

Antes do Kevlar e das placas rígidas, uma das primeiras respostas às armas modernas foi costurar dezenas de camadas de algodão. A ideia surgiu na Coreia do século XIX e realmente conseguia reduzir o impacto de alguns disparos. O problema é que o primeiro colete macio resistente a balas conhecido também podia transformar seu usuário em uma vítima do próprio equipamento.

O myeonje baegab foi desenvolvido na Coreia por volta de 1867, após o confronto de 1866 entre forças coreanas e uma expedição francesa.
O myeonje baegab foi desenvolvido na Coreia por volta de 1867, após o confronto de 1866 entre forças coreanas e uma expedição francesa. - Imagem gerada por IA

Quando surgiu o primeiro colete resistente a balas?

O myeonje baegab foi desenvolvido na Coreia por volta de 1867, após o confronto de 1866 entre forças coreanas e uma expedição francesa. Alarmado com o poder dos fuzis ocidentais e com a possibilidade de novas invasões, o governo da dinastia Joseon ordenou a criação de uma proteção que fosse mais flexível do que as armaduras metálicas.

O projeto é frequentemente descrito como o primeiro colete macio conhecido feito especificamente para deter ou enfraquecer projéteis. Seus criadores descobriram que cerca de 30 camadas grossas de tecido de algodão comprimido podiam absorver parte da energia da bala. A proteção recebeu o nome de myeonje baegab, expressão associada a uma armadura de algodão.

Armadura coreana do século XIX buscou proteger soldados contra disparos de fuzil.
Armadura coreana do século XIX buscou proteger soldados contra disparos de fuzil. - Museu Smithsonian

Como camadas de algodão conseguiam deter disparos?

Uma bala causa dano porque concentra grande quantidade de energia em uma área pequena. Ao atravessar várias camadas de fibras, parte dessa energia é distribuída e dissipada pela deformação do tecido. O princípio não é tão diferente do usado em proteções modernas, embora materiais atuais apresentem resistência muito maior com menos peso e volume.

O colete coreano foi utilizado em combate em 1871, durante a expedição militar dos Estados Unidos à ilha de Ganghwa. Registros históricos indicam que a peça oferecia alguma proteção contra os armamentos da época, mas não tornava o soldado invulnerável. Dependendo da distância, do projétil e do local atingido, o disparo ainda podia atravessar ou causar trauma grave.

Por que o colete coreano podia ser fatal?

As mesmas camadas que desaceleravam os projéteis criavam duas desvantagens perigosas. A peça era pesada, retinha calor e dificultava os movimentos, especialmente durante batalhas no verão. Além disso, o algodão seco era altamente inflamável e podia pegar fogo ao entrar em contato com faíscas, chamas ou fragmentos aquecidos.

  • Calor intenso provocado pelas numerosas camadas de algodão.
  • Movimentos limitados pelo peso e pelo volume da proteção.
  • Risco de incêndio causado pela alta inflamabilidade do tecido.
  • Proteção variável conforme a arma, a distância e o tipo de munição.
  • Possibilidade de lesões internas mesmo sem a perfuração do colete.

Um exemplar foi levado aos Estados Unidos após o confronto de 1871 e permaneceu durante décadas ligado ao acervo do Smithsonian. Em 2007, a peça retornou à Coreia do Sul. O objeto preservado se tornou uma evidência rara de que a busca por uma armadura corporal flexível começou muito antes dos coletes associados à polícia e aos exércitos modernos.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Paulo Royal contando a história da evolução dos coletes à prova de balas.

Como a seda abriu caminho para novas proteções?

No fim do século XIX, o padre polonês Casimir Zeglen, que vivia em Chicago, desenvolveu uma proteção formada por seda densamente tecida. Seus experimentos ganharam força após o assassinato do prefeito Carter Harrison, em 1893. O material conseguia conter alguns projéteis de baixa velocidade e era mais flexível do que muitas soluções metálicas disponíveis.

A seda, porém, era cara, difícil de produzir na quantidade necessária e pouco eficaz contra armas mais potentes. Isso limitou o uso a pessoas ricas, autoridades e integrantes do crime organizado. Nas décadas seguintes, surgiram coletes com placas de aço e jaquetas militares contra estilhaços, mas o equilíbrio entre leveza, conforto e proteção continuava difícil.

Como o Kevlar transformou o colete moderno?

A mudança decisiva começou em 1965, quando a química norte-americana Stephanie Kwolek, pesquisadora da DuPont, descobriu uma fibra sintética extremamente forte durante estudos para reforçar pneus. O material que se tornaria conhecido como Kevlar apresenta grande resistência em relação ao próprio peso e pode distribuir a energia de determinados projéteis por várias fibras.

Na década de 1970, pesquisas apoiadas por órgãos de segurança dos Estados Unidos ajudaram a adaptar o Kevlar para coletes policiais mais leves. Ainda assim, especialistas preferem a expressão “resistente a balas”, pois nenhuma proteção funciona contra todas as ameaças. Do algodão inflamável às fibras modernas, essa história deixa um alerta marcante: sobreviver depende tanto da invenção quanto de conhecer seus limites.