Artesã começa a trabalhar com barro aos 10 anos, aprende ofício transmitido por quatro gerações de mulheres e leva bonecas do Vale do Jequitinhonha para exposição em Paris
Artesã mineira transformou uma tradição familiar de cinco gerações em peças de cerâmica selecionadas para exposição internacional em Paris.
Aos dez anos, Adriana Xavier já modelava barro em Campo Alegre, no Vale do Jequitinhonha. A mãe lhe ensinava uma técnica recebida da avó e da bisavó; as peças ajudavam a sustentar a família, não eram apenas decoração. Décadas depois, suas bonecas de cerâmica foram selecionadas para uma apresentação em Paris. No meio dessa trajetória houve caminhadas de mais de 15 quilômetros para negociar objetos, viuvez e a criação de um ateliê no quintal. Como uma prática transmitida entre mulheres chegou a uma feira internacional sem perder sua origem?

Onde Adriana aprendeu a trabalhar com barro?
Ela cresceu em Campo Alegre, comunidade de Turmalina, Minas Gerais, acompanhando a mãe produzir moringas, panelas e utensílios. A mãe aprendera com a avó, que por sua vez recebera o saber da bisavó. Adriana começou aos dez anos, numa rotina em que o artesanato convivia com o trabalho agrícola e as necessidades imediatas da casa.
Modelar uma peça envolve preparar o material, dar forma, secar e queimar, além de reconhecer o que se pode vender ou trocar. O aprendizado pela observação e pela repetição não dispensava esforço. A mãe precisava caminhar mais de 15 quilômetros para negociar a produção por alimento ou renda. Assim, a história familiar começou muito antes de qualquer vitrine de design.
Como as bonecas se tornaram sua assinatura?
Ao longo da vida, Adriana passou a criar bonecas de cerâmica e encontrou nelas uma expressão reconhecível de seu trabalho. Cada peça exige escolhas de forma, acabamento e decoração, ainda que parta de técnicas partilhadas pela comunidade. O resultado combina memória coletiva e produção autoral, sem reduzir as artesãs a um único estilo ou a objetos idênticos.
As bonecas de cerâmica do Vale do Jequitinhonha também aproximam visitantes do processo e de quem o realiza. No caso de Adriana, a criação ajudou a compor uma renda própria. A dimensão econômica tornou-se ainda mais importante depois que ela ficou viúva em 2023 e precisou manter a vida organizada com o próprio trabalho.

O que mudou depois da viuvez?
Adriana relatou que o artesanato foi fundamental para sustentar a casa naquele período. O fato não transforma a perda em mero passo rumo ao reconhecimento: trata-se de uma dificuldade real que aumentou a importância da continuidade do ofício. Ela manteve a produção de peças e os vínculos com outras mulheres que também trabalham com barro na região.
Em 2024, mudou-se para Campo Buriti, ainda em Turmalina, e instalou um ateliê no quintal. O espaço aproximou produção e residência, como ocorrera na geração anterior, mas com uma organização voltada a receber encomendas e desenvolver suas bonecas. A mudança de comunidade não significou romper com a tradição aprendida em Campo Alegre.
Qual é o papel das outras artesãs?
Adriana representa uma associação de Campo Buriti que reúne 52 mulheres no Conselho das Artesãs do Vale do Jequitinhonha. Esse trabalho coletivo ajuda a dar visibilidade e a organizar iniciativas, sem apagar as diferenças entre as produções individuais. A seleção internacional envolve uma rede de artesãs e parceiros, embora a trajetória de Adriana explique por que suas bonecas chamaram atenção.
Ela também ensina a própria filha. Com isso, o conhecimento que passara pela bisavó, avó, mãe e Adriana alcança uma quinta geração familiar. Ensinar não significa exigir que a filha repita cada forma exatamente; significa manter acessíveis técnicas e histórias que já serviram à sobrevivência da família. A circulação das peças ganha um sentido maior quando se entende essa sequência.
O que foi confirmado sobre Paris?
Em 2026, bonecas grandes e pequenas de Adriana foram selecionadas para apresentação ligada à Paris Design Week e à feira Maison&Objet, programada para setembro. Uma reportagem sobre o envio das peças confirma a seleção e os preparativos, mas não registra individualmente como o público recebeu cada obra no evento. Não há motivo para inventar contratos ou vendas decorrentes da participação.
A viagem simbólica do barro é, ainda assim, concreta. Um objeto produzido a partir de conhecimento transmitido em Turmalina alcançou um circuito internacional de design. O reconhecimento amplia a visibilidade, enquanto a manutenção da renda depende de produção, organização e compradores. O resultado não torna dispensável o trabalho cotidiano que sustentou as peças por tantos anos.
O que permanece no ateliê de Campo Buriti?
Permanecem o barro, o tempo de execução e o vínculo com as outras artesãs. Adriana não abandonou a comunidade para se transformar numa marca sem lugar: continuou no Vale do Jequitinhonha, com um ateliê próprio e participação numa associação de 52 mulheres. A seleção para Paris acrescentou uma etapa pública a essa história.
Do trajeto a pé feito pela mãe às bonecas escolhidas para uma feira francesa, a distância é grande. A continuidade está no conhecimento compartilhado e na possibilidade de transformar trabalho manual em renda. O que será vendido ou apresentado em outras feiras depende de novos acontecimentos; o fato documentado é que suas peças foram selecionadas para atravessar o oceano levando uma tradição que já atravessara cinco gerações.