Atacama tem quase zero chuva e o céu mais limpo do mundo. Os maiores observatórios acreditam que é o local perfeito para procurar outra Terra

A ausência de nuvens durante grande parte do ano é apenas uma parte da explicação.

No norte do Chile, o deserto do Atacama reúne altitude elevada, ar extremamente seco, pouca nebulosidade e cerca de 300 noites claras por ano em algumas de suas principais áreas astronômicas. Essas condições fizeram da região um dos melhores lugares do planeta para observar o Universo e concentraram instrumentos capazes de estudar desde o nascimento de sistemas planetários até mundos rochosos parecidos com a Terra.

Nem todos os gigantes associados atualmente ao Atacama já começaram suas observações.
Nem todos os gigantes associados atualmente ao Atacama já começaram suas observações. - Imagem gerada por IA

Por que o céu do Atacama é tão especial para a astronomia?

A ausência de nuvens durante grande parte do ano é apenas uma parte da explicação. Em locais como Cerro Paranal, onde funciona o Very Large Telescope, a atmosfera contém pouco vapor d’água, há reduzida poluição luminosa e as condições atmosféricas são suficientemente estáveis para produzir imagens extremamente nítidas. O complexo está instalado a 2.635 metros de altitude.

No planalto de Chajnantor, a vantagem é ainda mais extrema. As 66 antenas do ALMA trabalham a aproximadamente 5.000 metros acima do nível do mar, onde a pequena quantidade de água na atmosfera facilita a passagem das ondas milimétricas e submilimétricas vindas do espaço. Para seres humanos, a altitude dificulta até a respiração; para a astronomia, ela abre uma janela privilegiada para o Universo.

Quais grandes observatórios estão realmente funcionando em 2026?

Nem todos os gigantes associados atualmente ao Atacama já começaram suas observações. Em 2026, há instrumentos veteranos em plena atividade e outros que ainda estão sendo construídos:

  • O Very Large Telescope, ou VLT, continua realizando observações ópticas e infravermelhas em Cerro Paranal;
  • O ALMA continua operando suas 66 antenas no planalto de Chajnantor;
  • O espectrógrafo ESPRESSO está instalado no VLT e foi desenvolvido especialmente para medições extremamente precisas de estrelas e exoplanetas;
  • O Extremely Large Telescope, ELT, ainda não está operacional;
  • Em abril de 2026, a construção do ELT havia ultrapassado 70%;
  • A previsão atual coloca a primeira luz técnica do ELT para o fim da década.

Essa distinção é importante porque o ELT costuma aparecer em imagens e projeções ao lado dos observatórios já existentes, embora ainda seja uma instalação em construção. Seu espelho principal terá 39 metros de diâmetro e deverá torná-lo o maior telescópio óptico e infravermelho de sua categoria quando entrar em operação.

Como esses telescópios poderiam encontrar outra Terra?

Encontrar um planeta semelhante ao nosso não significa simplesmente fotografar uma esfera azul distante. O ESPRESSO, atualmente em operação no VLT, mede pequenas alterações na velocidade de uma estrela provocadas pela gravidade de planetas que orbitam ao seu redor. O instrumento foi projetado para buscar planetas rochosos e realizar medições extremamente precisas em estrelas semelhantes ao Sol.

O ALMA participa de outra parte da história: observa discos de gás e poeira ao redor de estrelas jovens, ambientes nos quais os planetas estão se formando. Ao enxergar anéis, espaços vazios e a distribuição de moléculas nesses discos, astrônomos conseguem investigar como sistemas planetários surgem e quais condições podem produzir mundos rochosos.

Nem todos os gigantes associados atualmente ao Atacama já começaram suas observações.
Nem todos os gigantes associados atualmente ao Atacama já começaram suas observações. - Imagem gerada por IA

O que os astrônomos procuram para saber se um planeta pode ser parecido com a Terra?

Distância da estrela é apenas uma das pistas. Depois de detectar um planeta, o desafio passa a ser descobrir suas propriedades e, quando possível, analisar sua atmosfera:

  • Tamanho e massa próximos aos de um planeta rochoso;
  • Temperatura compatível com determinadas condições de habitabilidade;
  • Órbita localizada em uma região onde água líquida possa ser possível;
  • Composição química da atmosfera;
  • Presença ou ausência de vapor d’água e outros gases;
  • Combinações químicas que, no futuro, possam ser investigadas como possíveis sinais associados à vida.

É nesse ponto que o futuro ELT deverá ampliar significativamente o alcance das pesquisas realizadas no Chile. A expectativa é que seus instrumentos consigam estudar atmosferas de exoplanetas rochosos com muito mais detalhes e procurar moléculas consideradas potenciais biomarcadores. Um dos equipamentos planejados, o ANDES, terá entre seus objetivos justamente caracterizar atmosferas de mundos semelhantes à Terra.

O deserto mais seco acaba funcionando como uma janela para outros mundos

Chamar o Atacama de lugar com o “céu mais limpo do mundo” é uma simplificação, porque diferentes observatórios medem transparência, turbulência atmosférica, umidade e escuridão de maneiras distintas. O que pode ser afirmado é que seus setores astronômicos estão entre os melhores do planeta: Paranal registra mais de 300 noites claras por ano, enquanto a altitude de Chajnantor oferece condições excepcionais para observações que seriam prejudicadas pelo vapor d’água em regiões mais úmidas.

É uma ironia poderosa: um dos ambientes mais áridos e aparentemente hostis da Terra tornou-se um dos melhores lugares para procurar condições capazes de sustentar vida em outros mundos. Hoje, VLT, ESPRESSO e ALMA já participam dessa investigação; nos próximos anos, o ELT deverá acrescentar um poder de observação muito maior à tentativa de responder uma pergunta antiga: existe outra Terra escondida entre as estrelas?