Cientistas desceram a uma caverna em uma ilha e encontraram um ‘mundo perdido’ que permaneceu selado por 1 milhão de anos.

Os ossos estavam entre camadas de cinzas deixadas por grandes erupções vulcânicas.

A Caverna Moa Eggshell, na Ilha Norte da Nova Zelândia, preservou uma comunidade de aves e anfíbios desconhecida pela ciência. Ao peneirar sedimentos antigos, paleontólogos encontraram fósseis de 12 tipos de aves e quatro espécies de sapos que viveram entre 1 milhão e 1,5 milhão de anos atrás. O conjunto preenche uma enorme lacuna na história natural do arquipélago.

Os ossos estavam entre camadas de cinzas deixadas por grandes erupções vulcânicas.
Os ossos estavam entre camadas de cinzas deixadas por grandes erupções vulcânicas. - Imagem gerada por IA

Onde estava escondido esse “mundo perdido”?

A descoberta ocorreu perto das cavernas de Waitomo, em uma região de relevo calcário da Ilha Norte. O local recebeu o nome de Moa Eggshell Cave por causa dos fragmentos de ovos de moa encontrados em seu interior. O paleontólogo Trevor Worthy já investigava a área desde 1983, quando encontrou ali uma mandíbula fossilizada de papagaio.

Décadas depois, uma equipe retornou à caverna e escavou uma trincheira nos depósitos mais profundos. Os pesquisadores retiraram o sedimento fino e o passaram por peneiras, capazes de reter pequenos ossos de aves e anfíbios. O “mundo perdido” não era um ecossistema ainda vivo, mas um retrato fossilizado de animais que desapareceram muito antes da chegada humana à Nova Zelândia.

Como os cientistas calcularam a idade dos fósseis?

Os ossos estavam entre camadas de cinzas deixadas por grandes erupções vulcânicas. Esses depósitos funcionaram como marcadores geológicos e permitiram delimitar a idade da fauna. A sequência analisada inclui:

  • uma camada relacionada à erupção de Ngaroma, ocorrida há cerca de 1,55 milhão de anos;
  • sedimentos contendo os fósseis de aves e sapos;
  • cinzas da supererupção de Kidnappers, depositadas há aproximadamente 1 milhão de anos;
  • uma formação mineral superior datada de cerca de 535 mil anos.

Isso não significa que toda a caverna tenha permanecido hermeticamente fechada por 1 milhão de anos. O que ficou protegido foi o depósito fossilífero entre as camadas vulcânicas, reduzindo perturbações e preservando uma amostra rara do início do Pleistoceno.

Quais animais foram encontrados na caverna?

O levantamento identificou 16 espécies ou grupos de espécies, divididos entre quatro sapos do gênero Leiopelma e 12 aves. Pelo menos quatro, e possivelmente seis, dessas aves não aparecem nos registros fósseis do final do Pleistoceno, sinal de que desapareceram durante o milhão de anos seguinte.

Duas espécies receberam nomes científicos novos. Uma delas é Porphyrio claytongreenei, parente antigo do takahē, ave terrestre que ainda vive na Nova Zelândia. Também foram encontrados vestígios de um pombo ligado aos atuais pombos bronzewing australianos, grupo que não havia sido documentado anteriormente na fauna neozelandesa.

Os ossos estavam entre camadas de cinzas deixadas por grandes erupções vulcânicas.
Os ossos estavam entre camadas de cinzas deixadas por grandes erupções vulcânicas. - Imagem gerada por IA

O ancestral do kakapo conseguia voar?

Entre os fósseis estava o Strigops insulaborealis, papagaio antigo relacionado ao kakapo moderno. O kakapo atual é pesado, não voa e possui pernas fortes para caminhar e escalar árvores. O parente fossilizado apresentava membros inferiores menos robustos, sugerindo que passava menos tempo se deslocando no solo.

  • o animal pertence ao mesmo gênero do kakapo moderno;
  • seus ossos indicam pernas relativamente menos musculosas;
  • a anatomia sugere um estilo de vida menos terrestre;
  • existe a possibilidade de que ainda fosse capaz de voar;
  • novos fósseis serão necessários para confirmar essa hipótese.

A caverna revela extinções anteriores à chegada humana

Os fósseis indicam uma renovação de 33% a 50% das espécies de aves ao longo do último milhão de anos. Mudanças intensas entre períodos glaciais e interglaciais alteraram florestas e áreas de vegetação rasteira. A supererupção de Kidnappers também pode ter afetado aves terrestres por meio de fluxos vulcânicos e extensas camadas de cinzas.

A descoberta mostra que a fauna da Nova Zelândia já atravessava ciclos de extinção, sobrevivência e evolução muito antes da ocupação humana. Ao preservar ossos de uma época quase ausente no registro paleontológico do país, a caverna permite comparar ecossistemas separados por 1 milhão de anos e compreender como clima e vulcanismo remodelaram uma das avifaunas mais peculiares do planeta.