Cientistas estudam a crosta terrestre e descobrem que a Península Ibérica pode girar no sentido horário
A convergência entre a placa africana e a placa euroasiática não acontece de frente.
A Península Ibérica pode estar girando lentamente no sentido horário. Essa é uma das conclusões de um estudo publicado na revista Gondwana Research, que combinou dados sísmicos e satelitais para reconstruir com alta resolução como as forças tectônicas se distribuem atualmente entre a Ibéria e o noroeste da África. A pesquisa mapeou em detalhe como diferentes blocos da crosta terrestre respondem à pressão constante exercida pela convergência entre as placas da África e da Eurásia.

O que faz a Península Ibérica girar?
A convergência entre a placa africana e a placa euroasiática não acontece de frente. Ela ocorre de forma oblíqua em relação à margem sudoeste da Península Ibérica, e é exatamente essa inclinação que cria as condições para o movimento rotacional. Quando duas massas tectônicas colidem em ângulo em vez de frente a frente, a energia não se distribui de forma simétrica: ela empurra de forma diferenciada em cada ponto de contato, o que pode induzir uma torção gradual no bloco que está sendo comprimido.
Combinada com a estrutura geológica específica da região, onde fragmentos de crosta com idades e espessuras muito diferentes interagem simultaneamente, essa configuração favorece o que os pesquisadores descrevem como uma rotação no sentido horário. O processo é imperceptível em escala humana: estamos falando de movimentos medidos em milímetros por ano, mas com implicações relevantes para a compreensão da sismicidade e da deformação geológica em toda a região do Mediterrâneo ocidental.
Como os cientistas mediram movimentos tão pequenos?
A pesquisa combinou duas fontes de dados para chegar a seus resultados. A primeira foram os mecanismos focais de terremotos, registros que permitem identificar como a rocha se rompeu durante um sismo e que tipo de tensão estava atuando nas profundidades no momento da fratura. Cada terremoto funciona como um instrumento que revela o estado de estresse da crosta no ponto em que ocorreu.
A segunda fonte foram os dados GNSS, sistemas de posicionamento por satélite com precisão suficiente para detectar deslocamentos de milímetros na superfície terrestre ao longo do tempo. Com estações fixas distribuídas pelo território ibérico e pelo norte da África, os pesquisadores conseguiram registrar como cada ponto se move em relação aos demais ao longo de anos de observação. A combinação das duas fontes permitiu construir mapas de esforço tectônico e deformação superficial com uma resolução muito maior do que as análises anteriores disponíveis para essa região.
Como a região foi dividida para análise?
Para entender a dinâmica tectônica do Mediterrâneo ocidental com mais precisão, os pesquisadores dividiram a área estudada em quatro setores principais, cada um com características distintas de resposta à pressão entre as placas.
- Setor Atlântico: as tensões entre a África e a Eurásia se transmitem de forma mais direta, sem grande absorção intermediária pelas estruturas geológicas locais.
- Setor de Gibraltar: região de alta complexidade tectônica onde a crosta continental e oceânica interagem no ponto de maior proximidade entre os dois continentes.
- Setor de Alborão: parte das tensões regionais se dissipa nessa área, onde a crosta terrestre é mais delgada e mais suscetível à deformação.
- Setor Argelino-Balear: responde de forma diferenciada às pressões regionais, com características próprias de deformação que influenciam a sismicidade do leste do Mediterrâneo.

A convergência entre a placa africana e a placa euroasiática não acontece de frente - Imagem gerada por IA
A atividade sísmica interna da Ibéria está relacionada a esse processo?
Sim, e é um dos aspectos mais relevantes do estudo. Os pesquisadores identificaram atividade tectônica significativa em regiões do interior da Península Ibérica que estão fisicamente distantes dos limites principais entre as placas tectônicas. Em tese, essas áreas deveriam apresentar menos deformação por estarem longe das zonas de contato mais ativo. Mas os dados mostram que mesmo regiões com baixas taxas de deformação horizontal registram atividade associada à compressão regional e a processos geodinâmicos ligados a tensões verticais.
Esse achado tem implicações práticas para a avaliação de risco sísmico na Península. A ideia de que apenas as zonas de borda entre placas são perigosas é mais simples do que a realidade geológica permite. O interior dos blocos continentais também acumula e libera energia tectônica, ainda que em ritmo mais lento e com magnitudes geralmente menores do que as observadas nas fronteiras ativas.
O que o estudo revela sobre a história geológica da região?
A pesquisa também traçou um panorama da evolução tectônica do Mediterrâneo ocidental desde a fragmentação do supercontinente Pangea e a abertura do oceano Atlântico. A formação dos Pireneus, que separam a Península Ibérica do restante da Europa, e a criação das montanhas do Atlas, no norte da África, são eventos diretamente ligados às mesmas forças que hoje continuam deformando a região. O arco de Gibraltar, uma das estruturas geológicas mais complexas do planeta, também é produto direto desse processo de longa duração.
O que o estudo publicado na Gondwana Research acrescenta a esse relato histórico é uma imagem mais detalhada do presente: como essas forças estão distribuídas agora, quais partes da crosta estão mais tensionadas e de que forma o movimento oblíquo entre a África e a Eurásia continua moldando o território que centenas de milhões de pessoas habitam. A rotação da Península Ibérica no sentido horário não é um evento dramático nem iminente, mas é um sinal de que o planeta debaixo dos nossos pés nunca parou de se mover.