Cientistas ouviram sons de pássaros vindos dos painéis de uma fazenda solar flutuante na Holanda, comprovando que as aves podem encontrar abrigo embaixo deles
O parque está no lago artificial de Bomhofsplas, próximo à cidade de Zwolle.
Uma fazenda solar flutuante instalada no lago Bomhofsplas, na Holanda, revelou uma interação inesperada com a natureza. Durante o monitoramento da água, cientistas viram aves entre os painéis solares e ouviram sons vindos do espaço protegido sob a estrutura. As observações indicam que pássaros e patos podem usar o local para descansar e construir ninhos.

Onde fica a fazenda solar flutuante estudada?
O parque está no lago artificial de Bomhofsplas, próximo à cidade de Zwolle. A área surgiu com a extração de areia, possui 63 hectares e pode chegar a 35 metros de profundidade. O sistema fotovoltaico foi instalado no início de 2020 sobre aproximadamente 30% da superfície do lago.
A instalação reúne cerca de 72 mil painéis solares, ocupa 18,25 hectares e possui capacidade de 27,4 MWp. Segundo os pesquisadores, a eletricidade produzida seria suficiente para abastecer mais de 7.200 residências. Essas dimensões transformaram Bomhofsplas em um local importante para observar como grandes estruturas flutuantes afetam a água e a vida silvestre.
O que os sons de pássaros realmente demonstram?
Os ruídos não confirmaram diretamente a existência de ninhos, pois os pesquisadores não fizeram uma investigação específica para identificar espécies, ovos ou filhotes sob os módulos. Eles registraram sinais que sustentam essa possibilidade:
- aves foram vistas sobre as plataformas e entre os painéis;
- pássaros e patos foram ouvidos sob a estrutura flutuante;
- o espaço protegido pode ser usado para repouso;
- a cobertura oferece abrigo contra parte do vento e da exposição direta;
- fezes de aves foram encontradas em grande quantidade em um setor do parque.
Como os painéis solares podem criar abrigo para as aves?
Os módulos ficam elevados sobre estruturas metálicas e blocos flutuantes, deixando espaços entre a água e a parte inferior dos painéis. O desenho permite a entrada de vento e de uma parcela da luz solar, ao mesmo tempo que forma áreas mais protegidas do que a superfície aberta do lago.
Outras pesquisas sobre energia solar flutuante já registraram aves descansando sobre plataformas e até construindo ninhos sob módulos. Os cientistas ressaltam, porém, que a resposta varia conforme a espécie, a estação do ano, o tamanho do parque e as características do reservatório. Por isso, a presença de pássaros em Bomhofsplas não significa que qualquer instalação produzirá o mesmo resultado.

Quais benefícios e riscos foram encontrados no lago?
O monitoramento identificou pequenas diferenças entre a água aberta e a região coberta. Também mostrou que partes submersas foram rapidamente colonizadas por organismos. Entre os resultados e pontos de atenção estão:
- formação de uma camada biológica sobre os flutuadores;
- presença de pequenos bivalves nove meses após a instalação;
- menores picos de temperatura nas camadas superficiais sombreadas;
- entrada de vento e luz sob parte dos módulos;
- possível redução da eficiência causada por fezes sobre os painéis;
- risco de nutrientes serem carregados para a água durante a chuva.
A convivência entre energia solar e biodiversidade depende do projeto
O estudo não concluiu que os painéis melhoram automaticamente o ecossistema. Ele avaliou um único parque, construído sobre um lago artificial e com um desenho que deixa luz e vento chegarem à água. Os próprios autores afirmaram que seriam necessários monitoramentos mais longos, em diferentes reservatórios e com mais indicadores biológicos.
Mesmo com essas limitações, a presença de aves, bivalves e outros organismos mostra que a energia solar flutuante pode dividir espaço com habitats aquáticos quando a instalação é planejada e acompanhada. O resultado de Bomhofsplas abre caminho para projetos que considerem desde o início a circulação da água, os locais de descanso das aves e estruturas capazes de apoiar a biodiversidade sem interromper a geração de eletricidade.