Como os peixes nativos freiam o avanço do mexilhão-dourado nos rios do Paraná

Estudos realizados no reservatório de Itaipu identificaram o mexilhão-dourado no trato digestivo de diversas espécies

O mexilhão-dourado transformou-se em uma das espécies invasoras mais problemáticas das águas brasileiras, formando colônias capazes de obstruir tubulações de hidrelétricas e sistemas de captação de água. No Paraná, pesquisas do Núcleo de Pesquisas em Limnologia, Ictiologia e Aquicultura da Universidade Estadual de Maringá, o Nupélia/UEM, mostram que parte da própria fauna encontrou uma maneira de explorar o invasor: vários peixes nativos incorporaram o molusco à alimentação.

A predação natural não é suficiente para eliminar o mexilhão-dourado de rios e reservatórios onde ele já se estabeleceu.
A predação natural não é suficiente para eliminar o mexilhão-dourado de rios e reservatórios onde ele já se estabeleceu. - Imagem gerada por IA

Como o mexilhão-dourado conseguiu ocupar os rios brasileiros?

Originário da Ásia, o molusco chegou à América do Sul no início da década de 1990, associado principalmente ao transporte por água de lastro de navios. Depois avançou pela bacia do Prata, alcançou o reservatório de Itaipu e chegou à planície de inundação do alto rio Paraná, espalhando-se por ambientes favoráveis à sua reprodução.

Uma de suas principais vantagens é a capacidade de aderir firmemente a superfícies duras. Milhares de indivíduos podem ocupar pedras, estruturas de concreto, comportas e tubulações, reduzindo a passagem de água e aumentando os custos de manutenção em hidrelétricas, estações de tratamento e outras instalações.

  • Forma colônias com grande número de indivíduos;
  • Adere a pedras, concreto, metais e tubulações;
  • Espalha-se facilmente por rios e reservatórios conectados;
  • Compete com organismos nativos por espaço e alimento;
  • Pode gerar problemas operacionais em estruturas que utilizam água.

Quais peixes nativos passaram a comer o invasor?

Estudos realizados no reservatório de Itaipu identificaram o mexilhão-dourado no trato digestivo de diversas espécies. Entre os peixes que passaram a explorar esse novo recurso estão a piapara, o armado, o cascudo-preto e o pacu, demonstrando que a fauna local consegue incorporar uma espécie invasora relativamente recente à cadeia alimentar.

Comer mexilhão-dourado significa controlar sua população?

Nem sempre. A eficiência depende da quantidade ingerida e, principalmente, da capacidade de cada peixe de destruir a concha. A piapara e alguns cascudos conseguem fragmentar estruturas duras durante a alimentação, aumentando a probabilidade de que os mexilhões ingeridos realmente sejam eliminados.

O armado apresenta um comportamento mais complexo. Embora possa consumir grandes quantidades do molusco, pesquisadores já encontraram exemplares com conchas intactas em seu sistema digestivo. Isso significa que simplesmente encontrar mexilhões dentro de um peixe não basta para concluir que aquela espécie exerce um controle eficiente.

  • Piapara consegue triturar parte das conchas durante a alimentação;
  • Cascudos possuem estruturas adequadas para consumir organismos aderidos ao fundo;
  • Armados ingerem mexilhões, mas nem sempre os destroem completamente;
  • Pacus também podem incorporar o invasor à dieta;
  • A intensidade da predação varia entre espécies, tamanhos e ambientes.

    A predação natural não é suficiente para eliminar o mexilhão-dourado de rios e reservatórios onde ele já se estabeleceu.
    A predação natural não é suficiente para eliminar o mexilhão-dourado de rios e reservatórios onde ele já se estabeleceu. - Imagem gerada por IA

O que pesquisas recentes mostram sobre esse controle natural?

Experimentos e análises de redes alimentares indicam que o mexilhão-dourado já se tornou uma fonte relevante de alimento para determinados peixes em reservatórios da bacia do Paraná. Trabalhos experimentais com piaparas mostraram inclusive redução da biomassa do molusco na presença dos peixes, reforçando a hipótese de que alguns predadores nativos podem exercer pressão sobre suas populações.

Os peixes conseguem impedir sozinhos a expansão do mexilhão-dourado?

A predação natural não é suficiente para eliminar o mexilhão-dourado de rios e reservatórios onde ele já se estabeleceu. Sua alta capacidade reprodutiva e dispersão tornam necessário combinar conservação da fauna com monitoramento, prevenção do transporte para novas bacias e medidas específicas para proteger sistemas de abastecimento e geração de energia.

A presença dos peixes nativos, porém, acrescenta uma barreira biológica importante. Piaparas, cascudos e outros consumidores retiram continuamente indivíduos do ambiente e ajudam a integrar o invasor à cadeia alimentar. Preservar essas populações nos rios do Paraná pode fortalecer um mecanismo natural de controle e reduzir, ao menos localmente, a pressão exercida por uma das invasões aquáticas mais difíceis de administrar no país.