Homem instala 6 armadilhas para capturar peixes em rio de área protegida e recebe multa de R$ 210 mil
A pesca fazia parte da rotina da família havia décadas.
Um morador de uma comunidade ribeirinha instalou seis armadilhas de pesca feitas com bambu e tela em um trecho de rio dentro de uma área protegida. Ele acreditava estar apenas repetindo uma prática antiga da região, mas a chegada da fiscalização revelou um problema maior: as estruturas capturavam peixes de diferentes tamanhos e espécies, inclusive animais ainda em fase reprodutiva.

Por que ele decidiu instalar as armadilhas no rio?
A pesca fazia parte da rotina da família havia décadas. As estruturas eram montadas em pontos estreitos da correnteza, onde os peixes passavam naturalmente, e permitiam recolher alimento sem permanecer horas com vara ou rede dentro do rio.
Para ele, não havia diferença entre aquela prática e aquilo que havia visto parentes mais velhos fazerem durante a infância. O problema era que o trecho agora fazia parte de uma unidade de conservação com regras específicas para captura, períodos de reprodução e métodos permitidos.
O que a fiscalização encontrou nas seis estruturas?
Os agentes percorreram a margem e localizaram as armadilhas fixadas em sequência. Algumas estavam vazias, mas outras continham peixes de tamanhos muito diferentes, o que ajudou a explicar por que aquele método era proibido naquele ponto:
- Peixes adultos ficavam presos junto com exemplares jovens;
- As estruturas permaneciam capturando animais durante muitas horas;
- Não havia seleção por espécie ou tamanho;
- Alguns animais eram retidos durante o período reprodutivo;
- Peixes pequenos podiam morrer antes mesmo da retirada das armadilhas;
- A sequência de estruturas reduzia a passagem livre pelo trecho do rio.
Por que capturar filhotes pode prejudicar a pesca dos anos seguintes?
Durante a fiscalização, a explicação que mais chamou sua atenção não envolveu o valor da multa, mas o ciclo dos próprios peixes. Um animal capturado antes de atingir a maturidade não chega a se reproduzir, reduzindo o número de descendentes que poderiam repovoar aquele trecho nos anos seguintes.
A mesma lógica valia para indivíduos adultos durante a reprodução. Quando muitas capturas acontecem justamente nesse período, a retirada deixa de afetar apenas a quantidade disponível naquele dia e passa a interferir na renovação dos estoques de peixes.

Por que tradição e subsistência entraram em conflito com a legislação?
O morador insistia que aquelas armadilhas faziam parte da história da comunidade, enquanto os fiscais explicavam que determinadas práticas haviam sido restringidas justamente porque a pressão sobre o rio já não era a mesma de décadas atrás. Mais moradores, mais equipamentos e menos áreas preservadas mudavam o impacto de uma técnica antiga:
- Uma prática tradicional pode ganhar escala quando mais pessoas passam a utilizá-la;
- Áreas protegidas possuem regras diferentes de trechos comuns do rio;
- Períodos de reprodução exigem restrições específicas;
- Algumas técnicas antigas capturam mais animais do que parecem;
- Subsistência e conservação precisam considerar a reposição natural das espécies;
- O desconhecimento das regras não impede que a infração seja registrada.
Um pescador mais velho explicou por que havia abandonado a prática
Depois da fiscalização, ele procurou um pescador mais velho da comunidade, conhecido por ter usado armadilhas semelhantes durante muitos anos. Esperava ouvir uma crítica à proibição, mas recebeu outra resposta: o homem contou que havia parado quando percebeu que os peixes grandes estavam ficando mais raros e que determinadas épocas do ano já não produziam as mesmas capturas.
A multa de R$ 210 mil continuava sendo difícil de aceitar, mas aquela conversa mudou a maneira como ele enxergava as seis armadilhas. O que parecia apenas uma técnica herdada também podia impedir que os peixes chegassem à idade de reproduzir, transformando uma solução imediata para colocar comida na mesa em um problema para quem ainda dependeria daquele rio no futuro.