Criança que precisa dos pais para dormir: uma psicóloga e uma pediatra explicam o que está por trás e como agir
Para as especialistas espanholas, entender a causa vem antes de qualquer método, e a rotina ajuda em todos os casos
A criança que só consegue dormir com os pais por perto nem sempre tem um problema de hábito. Em reportagem do jornal espanhol El País, a psicóloga infantil María Luisa Ferrerós e a pediatra Laura Álvarez Chamorro explicam que por trás do pedido pode haver medo, busca de segurança ou simplesmente a preferência por companhia, e que a resposta certa depende da causa e da idade.
A cena é conhecida em muitas casas: a história termina, a luz apaga e, quando o pai ou a mãe tenta sair do quarto, vem o choro ou o pedido para ficar mais um pouco. Há também crianças que dormiam sozinhas havia meses e, de repente, voltam a pedir companhia.

Medo, costume ou necessidade de segurança?
Ferrerós, especializada em neuropsicologia e patologia do sono, diz ter observado nos últimos anos um aumento de crianças que precisam de alguém ao lado para deitar. Para ela, isso cresceu porque as crianças estão mais medrosas, mais superprotegidas e absorvem os medos dos adultos.
Laura Álvarez, conhecida nas redes como La pediatra Laura, vê o tema de outro ângulo. “Talvez tenhamos expectativas pouco realistas sobre o sono infantil”, diz. Segundo a pediatra, muitos pais esperam que os filhos durmam sozinhos cedo demais, e buscar companhia à noite pode ser uma forma de se sentir seguro, justamente quando a criança mais precisa de proximidade.
Ela separa as coisas: ter medo é uma coisa, preferir dormir acompanhado é outra. Adultos também gostam de deitar ao lado do parceiro, e ninguém chama isso de falta de autonomia.
A idade muda a leitura do problema
De acordo com Ferrerós, os primeiros pesadelos costumam aparecer entre os 2 e os 5 anos, e até os 5 ou 6 anos é normal haver dificuldades ligadas ao amadurecimento. A partir dessa idade, segundo ela, a criança já deveria dormir a noite toda.
Se as dificuldades persistem, a psicóloga sugere investigar mudanças na escola, na família ou nas amizades que possam explicar uma regressão. A ansiedade por separação dos pais também pode pesar, sobretudo quando a família passa pouco tempo junta durante o dia. Se os problemas continuarem aos 10 ou 11 anos, ela recomenda procurar um especialista.
Antes de aplicar qualquer método, Ferrerós insiste em descobrir a causa. Uma criança com pesadelos e medo de ficar sozinha não resolve nada chorando de porta fechada. “Ela não tem um problema de hábito: tem medo”, resume.
E quando ela aparece de madrugada na cama dos pais?
Aqui as especialistas divergem. Para Ferrerós, uma noite de pesadelo é exceção e a criança pode ficar na cama dos pais sem problema. Mas, quando isso vira rotina, especialmente depois dos 6 anos, ela orienta levar a criança de volta ao próprio quarto.
Laura Álvarez defende que não é preciso mudar nada se a família toda descansa bem. Há pais que gostam de ficar até o filho dormir, outros praticam a cama compartilhada e outros preferem cada um no seu espaço. O importante, para a pediatra, é que todos consigam descansar.
Rotina e transição gradual fazem diferença
As duas concordam que a rotina é o ponto central. Fazer as mesmas coisas, na mesma ordem e do mesmo jeito, ajuda a criança a saber o que vai acontecer e a se sentir segura, segundo Ferrerós. A pediatra acrescenta horários regulares, atividade física, tempo ao ar livre e nada de telas nas últimas horas do dia.
No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria vai na mesma linha em seu documento sobre higiene do sono: recomenda um ritual breve e prazeroso antes de deitar, de até 30 minutos, evitar telas pelo menos uma hora antes do horário de dormir e que os pais usem a mesma estratégia. A entidade também cita objetos de transição, como bonecas e cobertores, para crianças pequenas, tema que aparece quando a psicologia explica por que crianças dão nomes a bichos de pelúcia.
Para quem quer que o filho passe a dormir no próprio quarto, Laura Álvarez sugere ir aos poucos. Preparar o quarto junto com a criança, deixá-la escolher a colcha e manter uma luz fraca se ela tiver medo do escuro estão entre as ideias. O contato também diminui por etapas: deitar ao lado, depois só segurar a mão, depois ficar sentado na cama e, por fim, se afastar por períodos curtos.
Um erro comum, segundo a pediatra, é comparar a criança com outras ou fazê-la sentir que, na idade dela, já deveria dormir sozinha. Autonomia se constrói com paciência, como mostram as regras que os pais japoneses ensinam aos filhos.
Sinais que pedem uma consulta
Acordar à noite faz parte do desenvolvimento, mas alguns sinais merecem atenção do pediatra, segundo Laura Álvarez: ronco frequente, pausas na respiração durante o sono, sonolência de dia, mudanças de comportamento e pesadelos frequentes que causam sofrimento. Também vale consultar quando a falta de descanso atrapalha a rotina ou os adultos estão exaustos.
No fim, a medida do bom sono não é só dormir sozinho e de uma vez. É a criança descansar bem, estar ativa e contente durante o dia e se desenvolver de forma adequada.