Em 1859, um fazendeiro soltou 24 coelhos na Austrália por diversão; décadas depois, eram bilhões devastando o país
Coelhos já haviam chegado à Austrália antes de Austin, mas permaneciam principalmente associados à criação doméstica.
Em 1859, o fazendeiro britânico Thomas Austin recebeu um lote de 24 coelhos na propriedade Barwon Park, no estado australiano de Victoria, para manter seu hábito de caça esportiva. A introdução ajudou a desencadear uma das invasões biológicas mais rápidas já registradas entre mamíferos: em poucas décadas, os animais ocuparam grande parte do continente e chegaram a populações estimadas em centenas de milhões e, em determinados períodos, bilhões.

Como apenas 24 coelhos deram origem a uma invasão gigantesca?
Coelhos já haviam chegado à Austrália antes de Austin, mas permaneciam principalmente associados à criação doméstica. A infestação que se espalhou pelo continente está fortemente ligada aos animais libertados em Barwon Park: estudos históricos apontam que ao menos 13 coelhos selvagens daquele grupo participaram da origem da população invasora atual.
Invernos relativamente amenos, extensas áreas de vegetação baixa criadas pela agricultura e a enorme capacidade reprodutiva da espécie favoreceram a expansão. Apenas sete anos depois da soltura, um jornal local já registrava 50 mil coelhos abatidos na região; cerca de uma década depois, milhões podiam ser mortos anualmente sem reduzir de maneira perceptível a população.
- Reprodução rápida durante longos períodos do ano;
- Grandes áreas abertas com alimento disponível;
- Ausência das mesmas pressões ecológicas encontradas na Europa;
- Capacidade de cavar tocas e ocupar ambientes variados;
- Dispersão contínua por diferentes regiões australianas.
Por que os coelhos provocaram tantos danos à vegetação?
O avanço dos coelhos pela Austrália colocou uma enorme pressão sobre pastagens e plantas nativas. Depois de consumir a vegetação rasteira, os animais atacavam arbustos, folhas e cascas de árvores jovens, impedindo a regeneração de áreas inteiras e competindo por alimento com espécies australianas.
Como a invasão contribuiu para erosão e perda de espécies?
Quando milhares de coelhos removem continuamente a cobertura vegetal, a superfície do solo fica exposta ao vento e à chuva. A erosão leva embora justamente as camadas mais férteis, cuja recuperação pode exigir centenas de anos, tornando mais difícil o retorno das plantas mesmo depois que a população invasora é reduzida.
Os impactos ultrapassaram as plantações. A competição e a degradação provocadas por coelhos estão relacionadas à perda de biodiversidade e afetam numerosas espécies ameaçadas. O caso segue o mesmo padrão observado em outras introduções humanas, como os castores levados para a Patagônia e transformados posteriormente em espécie invasora.
- Consumo intenso de plantas nativas e pastagens;
- Dificuldade de regeneração de árvores e arbustos jovens;
- Competição por alimento com animais nativos;
- Exposição do solo à erosão pelo vento e pela chuva;
- Prejuízos constantes à agricultura e à conservação ambiental.

O avanço dos coelhos pela Austrália colocou uma enorme pressão sobre pastagens e plantas nativas. - Imagem gerada por IA
Como a Austrália tentou controlar bilhões de coelhos?
Caça, destruição de tocas, armadilhas e enormes cercas foram usados durante décadas, mas nenhum conseguiu resolver sozinho o problema. Entre 1901 e 1907, a Austrália Ocidental construiu uma extensa barreira para conter o avanço dos animais, mas os coelhos cavavam e conseguiam ultrapassar o sistema; a virada mais importante ocorreu em 1950, quando a introdução deliberada do vírus da mixomatose derrubou uma população estimada em cerca de 600 milhões para aproximadamente 100 milhões, embora a resistência genética permitisse posterior recuperação.
Por que o caso se tornou um símbolo dos riscos das espécies invasoras?
A praga de coelhos na Austrália demonstrou como uma introdução aparentemente pequena pode desencadear mudanças ecológicas em escala continental. Os animais colonizaram cerca de 70% da Austrália em menos de 70 anos, uma expansão extraordinariamente rápida para um mamífero invasor.
Mais de um século e meio depois da soltura associada a Thomas Austin, o controle ainda depende de cercas, manejo de habitats e agentes biológicos, porque a erradicação continental deixou de ser considerada uma possibilidade realista. O episódio transformou alguns animais libertados para caça em um exemplo clássico de como decisões humanas podem alterar vegetação, solo, agricultura e populações nativas por muitas gerações.