Empresa do Rio Grande do Norte recolhe cascas descartadas pela indústria de água de coco, transforma resíduo em carvão agrícola e cria operação capaz de produzir 10 toneladas por ano

Empresa potiguar utiliza cascas descartadas pela indústria de água de coco para produzir carvão destinado a aplicações agrícolas.

Uma casca de coco descartada depois da produção de água de coco pode ocupar espaço e criar um problema de destinação. No Vale do Açu, no Rio Grande do Norte, a empresa Charma tenta transformá-la em biochar, um carvão rico em carbono que pode ser usado no solo sob condições adequadas. A unidade fundada por Xavier Mulliez tinha capacidade aproximada de dez toneladas por ano em 2026. O número descreve o que a operação podia produzir, não o que já vendera. Como um resíduo volumoso passa a ser insumo sem que a transformação seja confundida com solução automática para toda lavoura?

Biochar pode contribuir para melhorar determinadas características do solo.
Biochar pode contribuir para melhorar determinadas características do solo.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que as cascas se acumulam?

A indústria de água de coco aproveita o líquido, mas cada fruto deixa um volume grande de material fibroso. Quando a produção se concentra, transportar e destinar as cascas exige espaço e organização. O resíduo não desaparece porque o produto principal encontrou comprador. Para a Charma, essa sobra representa matéria-prima disponível perto de uma atividade agroindustrial estabelecida.

Isso não significa que toda casca descartada seja imediatamente adequada ao processo. Umidade, tamanho dos fragmentos e logística influenciam o preparo. Recolher resíduos em volume suficiente requer combinar fornecimento e capacidade de processamento. A proposta empresarial começa antes do forno, na relação entre quem gera a casca e quem consegue transformá-la com regularidade.

Como se fabrica o biochar?

As cascas passam por secagem e trituração antes da pirólise. Nesse processo térmico, o material é aquecido com pouco ou nenhum oxigênio. Parte de sua composição se transforma em carvão com carbono relativamente estável, enquanto gases e outros produtos também podem surgir. A operação pode reaproveitar parte dos gases para sustentar o aquecimento, conforme o equipamento e o controle adotados.

A transformação de um resíduo em produto de novo valor é uma ideia comum a materiais muito diferentes. No coco, porém, o tratamento térmico determina características do resultado. A explicação técnica sobre biochar ajuda a situar seu uso potencial no solo, que depende de propriedades e aplicação adequada, não apenas do nome do produto.

Unidade possui capacidade aproximada de produzir dez toneladas por ano.
Unidade possui capacidade aproximada de produzir dez toneladas por ano.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que colocar carvão no solo?

O biochar pode modificar características físicas e químicas de determinados solos, como retenção de água e disponibilidade de nutrientes, dependendo da matéria-prima, temperatura de produção e quantidade aplicada. Não funciona como fertilizante universal e não substitui análise agronômica. O interesse dos produtores decorre da possibilidade de aproveitar um insumo produzido na região e avaliar sua compatibilidade com cultivos específicos.

Também se discute a permanência de parte do carbono no solo por períodos longos, mas a dimensão de qualquer benefício climático depende de uma avaliação completa da produção, transporte e uso. O objetivo da Charma é fechar um ciclo entre resíduos da indústria de bebida e a agricultura. A hipótese de um ciclo mais sustentável precisa ser medida em condições reais, não presumida a partir de uma descrição atraente.

O que significa capacidade de dez toneladas?

A unidade instalada no Vale do Açu tinha capacidade produtiva aproximada de dez toneladas anuais, segundo a divulgação de setembro de 2026. Capacidade é o limite operacional estimado, sujeito a abastecimento, funcionamento e demanda. Não informa que exatamente dez toneladas foram fabricadas, comercializadas ou incorporadas a propriedades naquele período. Também não oferece dado de faturamento ou lucro.

Produtores de Mossoró, Touros e do próprio Vale do Açu demonstravam interesse. Interesse comercial é diferente de venda concluída e resultado agronômico comprovado. O relato permite mostrar uma operação montada para responder a um problema concreto de descarte, sem preencher lacunas com números de contratos ou ganhos econômicos que não foram publicados.

Que obstáculos existem entre casca e lavoura?

O primeiro é manter fornecimento regular de cascas e processá-las sem criar novos problemas ambientais. O segundo é caracterizar o biochar produzido, pois temperatura e matéria-prima influenciam seu desempenho. O terceiro é definir uso agrícola apropriado com orientação técnica e acompanhamento. Uma cadeia circular só se sustenta se a destinação fizer sentido para os dois lados.

O processo também precisa considerar custos de coleta e transporte. Se o resíduo percorre distâncias grandes, parte da vantagem logística pode diminuir. A localização no Vale do Açu aproxima a empresa de fontes de material e de produtores potenciais, mas a pauta não quantifica essa economia. A viabilidade depende de dados operacionais que vão além da capacidade declarada.

Qual é a mudança mais concreta?

Cascas antes tratadas como problema passaram a alimentar uma linha de produção com propósito agrícola. Xavier Mulliez construiu uma empresa em torno de secar, triturar e aquecer essa matéria-prima para obter biochar. A escala informada ainda é modesta e deve ser entendida como capacidade, mas mostra que o resíduo ganhou um caminho de processamento.

O destino final exige avaliação do solo e continuidade da operação. A história não termina com a promessa de corrigir toda lavoura nem de eliminar todo descarte da indústria. Termina com uma inversão verificável: aquilo que sobrava depois da água de coco passou a entrar num processo técnico concebido para voltar ao campo como insumo.