Gato que traz o brinquedo e larga aos seus pés não está dando presente: pesquisa britânica com 1.154 gatos mostrou que, muitas vezes, é ele quem começa e encerra a brincadeira
O gesto se liga ao repertório de caça e de brincadeira, explicam especialistas em comportamento animal
Quando o gato traz um brinquedo e o deixa aos seus pés, a explicação mais aceita entre especialistas em comportamento animal passa longe de presente ou recado. O gesto se liga ao repertório de caça e de brincadeira, e uma pesquisa das universidades de Sussex e Northumbria, no Reino Unido, com 1.154 gatos que buscam objetos, mostrou que costuma ser o próprio animal quem começa e encerra a partida.

Isso muda a forma de reagir. Em vez de tentar adivinhar o que se passa na cabeça do bicho, o mais útil é observar o que ele faz logo depois de soltar o objeto.
Um estudo com mais de mil gatos que buscam objetos
O trabalho saiu em dezembro de 2023 na revista Scientific Reports, assinado por Jemma Forman e David Leavens, da Universidade de Sussex, e Elizabeth Renner, da Universidade de Northumbria. O grupo ouviu 924 tutores, que relataram o comportamento em 1.154 gatos que tinham ou já tiveram.
Segundo o artigo, 94,4% desses tutores disseram que o hábito surgiu sem nenhum treino. Em 701 dos gatos, a busca apareceu antes de o animal completar um ano de vida.
O comunicado divulgado pelos pesquisadores chama atenção para a variedade de itens. Brinquedos de gato foram pouco menos de 40% dos objetos citados; muitos animais preferiam elásticos de cabelo, partes de garrafa ou bolinhas de papel amassado. Entre os gatos de raça, o siamês foi o mais lembrado.
Quem decide quando a brincadeira começa?
Na maior parte das vezes, o gato. De acordo com a pesquisa, os animais iniciaram e encerraram as sessões com mais frequência do que os tutores, e as partidas começadas por eles tendiam a ser mais longas e mais frequentes.
Para os autores, isso mostra que os gatos que buscam objetos influenciam ativamente a forma como os donos brincam com eles. “No fim das contas, acho que os gatos estão no controle”, disse Forman à revista Science News.
Dennis Turner, especialista em comportamento felino que fundou um instituto de etologia aplicada perto de Zurique e não participou do estudo, comentou à mesma publicação que o aprendizado corre nos dois sentidos. Quando a pessoa devolve o brinquedo, oferece atenção, e isso reforça o hábito. O gato, por sua vez, também acaba treinando o tutor.
É uma leitura menos romântica do que a ideia do presente, e bem mais útil para quem divide a casa com um felino.
Nem todo objeto aos pés do tutor é um convite
Há gatos que largam o brinquedo e vão embora. Outros levam sempre o mesmo item para um canto fixo, com ou sem alguém por perto. Nesses casos, o transporte pode ser só o fim de uma caça encenada, sem relação direta com a pessoa. A Catraca já reuniu as hipóteses sobre gatos que carregam meias e objetos pequenos pela casa, e nenhuma delas vale para todos os animais.
Quando o que aparece no tapete é um bicho de verdade, a orientação muda. A Battersea, organização britânica de proteção animal, descreve a caça como um comportamento natural e afirma que a vontade de caçar não depende de fome. A entidade recomenda não punir o gato e sugere brincadeiras que imitam a caça, o que pode reduzir o interesse em trazer presas para dentro.
Para recolher um animal morto, use luvas ou um saco plástico e mantenha crianças e outros pets afastados.
Como responder sem transformar o gesto em problema
Se o gato solta o brinquedo e fica olhando para você ou para o objeto, lançar de novo a uma distância curta é uma resposta simples. Deixe que ele decida a hora de parar: no estudo britânico, as sessões iniciadas pelo próprio animal foram as que mais renderam.

Para variar a rotina, a Battersea indica dois estilos de brincadeira. Um é a perseguição, com varinha de pena ou brinquedo pequeno de movimento rápido e imprevisível. O outro é a espera, com brinquedos escondidos numa caixa com furos ou uma pena que surge e some por baixo de um cobertor. Trocar os brinquedos com regularidade ajuda a manter o interesse.
Gastar energia durante o dia também pode ajudar quem convive com corridas do gato pela casa durante a madrugada. Bronca, por outro lado, não ensina nada útil ao animal.
Quando o objeto trazido pede cuidado extra
O mesmo levantamento mostrou que muitos gatos preferem objetos da casa aos brinquedos próprios. Elásticos de cabelo, tampinhas e pedaços de plástico podem ser engolidos, por isso o ideal é guardar esses itens depois da brincadeira e oferecer alternativas maiores e próprias para gatos.
A mudança de padrão também merece atenção. Um gato que buscava objetos todos os dias e de repente perde o interesse, fica apático, come menos ou passa a mastigar e engolir pedaços do que carrega deve ser avaliado por um veterinário.
Fora isso, o hábito costuma fazer parte da rotina normal de um felino. Responder com atenção, sem bronca e sem exagero, já resolve a maior parte dos casos.