Este lagarto consegue “beber” água com os pés e transportar cada gota pela pele até a boca
Diabo-espinhoso possui canais entre as escamas que levam a água dos pés e de outras partes do corpo até a boca.
O lagarto encosta os pés numa pequena quantidade de água, e a umidade começa a percorrer sua superfície até chegar à boca. Parece um truque, mas o diabo-espinhoso australiano possui minúsculos canais entre as escamas que ajudam a conduzir o líquido. “Beber pelos pés” é uma maneira curiosa de descrever o começo de uma viagem que termina onde se espera: na boca.

Como a água consegue caminhar pela pele?
O mecanismo envolve capilaridade. Em espaços muito estreitos, a interação da água com as paredes e com suas próprias moléculas permite que ela avance pelos canais. No diabo-espinhoso, esses caminhos formam uma rede superficial que distribui a umidade pelo corpo e pode abastecer a região da boca.
Não é necessário imaginar pequenas bombas escondidas em cada escama. A estrutura da superfície favorece o movimento do líquido. Quando há água suficiente nos canais, movimentos da boca permitem a ingestão. A coleta acontece pelo contato do corpo, mas beber continua dependendo da chegada e da entrada da água pela boca.

Ele absorve toda a água diretamente pela pele?
Essa explicação é imprecisa. O fenômeno mais conhecido consiste em conduzir água pela superfície, em vez de transportá-la integralmente através da pele para o organismo. Molhar os canais e ingerir o líquido são etapas diferentes, algo que os pesquisadores precisaram distinguir nos experimentos.
Num estudo de 2016 publicado no Journal of Experimental Biology, a equipe de Philipp Comanns e Philip Withers acompanhou mudanças de peso e movimentos da boca. Assim, pôde diferenciar a água acumulada na superfície daquela efetivamente bebida. O método mostrou por que uma pele molhada não equivale automaticamente a um animal hidratado.
De onde pode vir a água que abastece os canais?
Uma pequena poça ou água de chuva pode permitir o preenchimento da rede superficial. Nos experimentos, lagartos em uma lâmina rasa de água conseguiram beber. Essa capacidade é útil num ambiente seco, onde aproveitar uma oportunidade breve pode ser mais importante do que encontrar uma grande fonte permanente.
A areia úmida exige uma ressalva: o simples contato, nas condições testadas, não forneceu água suficiente para a ingestão, mesmo enchendo parte dos canais. Experimentos com réplicas de pele indicaram que areia úmida sobre o dorso poderia favorecer a coleta. Essa possibilidade não deve ser confundida com uma demonstração completa do comportamento no animal vivo.
A expressão “beber pelos pés” descreve a coleta; a água ainda precisa chegar à boca. Veja essa habilidade do diabo-espinhoso no vídeo do canal do YouTube The Dodo:
Para que serve a cabeça falsa?
O diabo-espinhoso, Moloch horridus, tem uma saliência espinhosa atrás da cabeça. Quando se sente ameaçado, pode abaixar a cabeça verdadeira entre os membros anteriores, deixando essa estrutura exposta. A chamada cabeça falsa ajuda na defesa ao alterar a aparência da região que o predador encontra.
Os espinhos espalhados pelo corpo complementam a proteção. A aparência intimidadora, porém, não significa uma dieta de grandes presas: esse lagarto é especializado em comer formigas. Seu corpo reúne adaptações para necessidades bem diferentes:
- Canais superficiais que ajudam a coletar e conduzir água.
- Espinhos e uma cabeça falsa associados à defesa.
- Alimentação especializada na captura de formigas.
Por que a vida no deserto torna esse mecanismo tão valioso?
Em regiões áridas, a água pode aparecer em pequenas quantidades e por pouco tempo. Ampliar a superfície de coleta permite aproveitar contatos que não exigem mergulhar o focinho numa poça. Ainda assim, a habilidade tem limites: o estudo não mostrou que o animal consiga matar a sede apenas com umidade do ar.
Enquanto o lagarto-basilisco consegue correr sobre a água, o diabo-espinhoso chama atenção pelo caminho que ela faz sobre seu corpo. Os dois casos aproximam anatomia e física de maneiras distintas. Aqui, a cena começa nos pés, atravessa as escamas e revela uma solução delicada sob uma aparência cheia de espinhos.