Existe uma vespa que constrói o próprio ninho usando cadáveres de formigas e a explicação para esse comportamento é ainda mais estranha
Vespa encontrada na China constrói uma câmara repleta de formigas mortas que pode funcionar como proteção química para seus filhotes.
Dentro do ninho de uma vespa descoberta na China, os pesquisadores encontraram uma câmara de entrada cheia de formigas mortas. Mais ao fundo, outras câmaras guardavam aranhas paralisadas para alimentar as larvas. A espécie recebeu o nome Deuteragenia ossarium, numa referência a ossários. Os cadáveres não eram a refeição principal da prole: sua posição sugere uma defesa química contra inimigos do ninho. O que o estudo observou, e até onde pode ir essa explicação?

Como é organizado o ninho dessa vespa?
A fêmea ocupa cavidades estreitas, separando câmaras de desenvolvimento da prole. Nelas, coloca aranhas destinadas a alimentar as larvas. Perto da entrada, constrói uma câmara adicional com formigas mortas. O arranjo é o que torna o caso incomum: aranhas no interior e formigas num espaço que parece funcionar como barreira.
A espécie foi descrita em 2014 a partir de ninhos de armadilha estudados no sudeste da China. Os pesquisadores encontraram 73 ninhos com a câmara de formigas entre centenas de ninhos de vespas observados. Esse registro documenta uma arquitetura, sem sugerir que cada vespa da região aja da mesma maneira.

As formigas alimentam as larvas?
Não foi essa a função identificada. As câmaras de cria continham aranhas; a câmara externa guardava formigas. Essa separação é decisiva para não contar a história como se a vespa fizesse um estoque indistinto de presas. As aranhas têm papel alimentar, enquanto as formigas ficam junto à entrada e podem atuar na proteção.
O estudo comparou ninhos e considerou diferentes elementos para interpretar a função da câmara externa:
- Aranhas eram colocadas nas células destinadas às larvas.
- Formigas inteiras ocupavam a câmara próxima à entrada.
- Ninhos com essa estrutura mostraram menos ataques de certos inimigos.
- Substâncias químicas das formigas são uma explicação provável.
Por que cadáveres afastariam inimigos?
Algumas formigas produzem compostos capazes de alterar o comportamento de outros animais. Os autores propuseram que o odor emanado dos corpos na entrada pode desestimular parasitoides que buscam a prole da vespa. A hipótese é coerente com a posição das formigas e com a menor vulnerabilidade observada, mas o estudo não demonstrou cada molécula nem testou todos os possíveis invasores.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Reserva Betary, que mostra uma vespa caçadora de aranhas transportando a presa ao ninho; é uma espécie relacionada pelo comportamento de provisão, não uma filmagem da vespa-do-ossário:
O que a comparação entre ninhos mostrou?
Os ninhos de D. ossarium foram menos vulneráveis a inimigos naturais do que ninhos de outras vespas semelhantes estudadas no mesmo ambiente. Isso apoia a ideia de uma estratégia protetora. Ainda assim, uma comparação de espécies não prova isoladamente que retirar as formigas faria cada ninho perder a defesa, porque outros aspectos da espécie também podem interferir.
Os pesquisadores identificaram tipos de inimigos que conseguiam atacar antes do fechamento da câmara, o que mostra um limite temporal. A barreira da entrada só pode atuar depois de construída. Assim, a vespa investe em provisionar as larvas e fechar o acesso, mas nenhuma solução garante que todas chegarão à fase adulta.
O que explica o nome de ossário?
O termo remete a lugares onde restos mortais são reunidos. Na vespa, a analogia descreve visualmente uma câmara cheia de formigas, não uma escolha humana de homenagear ou enterrar outros insetos. A estrutura resulta de comportamento reprodutivo, provavelmente moldado por vantagens de sobrevivência da prole.
O achado chama atenção porque separa duas tarefas no mesmo ninho: alimentar com aranhas e tentar proteger com formigas. A função química permanece uma hipótese sustentada por observação e comparação, não certeza absoluta sobre o mecanismo. Essa distinção torna o caso mais interessante: uma construção pequena contém pistas de como uma espécie pode reduzir riscos para filhotes que jamais verá crescer. Novas observações em campo poderiam testar se a barreira com formigas altera de fato o comportamento de invasores e se o efeito varia conforme a espécie de formiga e as ameaças presentes em cada floresta, sobretudo de outros insetos.