Fancha transforma festa em comunidade e fortalece rede de apoio para mulheres lésbicas e sáficas

Criado há quase uma década por Isabela Catão, coletivo promove eventos, cultura, empreendedorismo e acolhimento para mulheres que amam mulheres

O que começou como uma festa para reunir mulheres lésbicas se transformou em um movimento que hoje conecta cultura, empreendedorismo, política, educação e acolhimento. Criada pela fotógrafa e produtora Isabela Catão, a Fancha nasceu da percepção de que faltavam espaços onde mulheres que amam mulheres pudessem se encontrar, criar vínculos e viver suas experiências de forma segura.

Ao longo de quase dez anos, o projeto deixou de ser apenas um evento para se consolidar como um coletivo que reúne diferentes iniciativas voltadas ao fortalecimento da comunidade sáfica (mulheres ou pessoas não-binárias que sentem atração afetiva ou sexual por outras mulheres). Entre elas estão rodas de conversa sobre saúde, maternidade, envelhecimento, relacionamentos e direitos, um Clube do Livro dedicado à literatura sáfica, uma frente voltada às mães e ações que estimulam a presença feminina na produção cultural.

Além disso, a Fancha abre espaço para que mulheres atuem na organização dos eventos, adquiram experiência profissional e ampliem seus portfólios em áreas como fotografia, comunicação, audiovisual, design e produção cultural. O coletivo também incentiva o empreendedorismo feminino ao convidar mulheres para comercializarem suas marcas durante os eventos, fortalecendo a circulação de renda dentro da própria comunidade.

Em agosto, a programação será concentrada na Casa Yara, com diversos encontros voltados às mulheres lésbicas e sáficas, incluindo um evento marcado para o dia 16.

A Fancha nasceu com um propósito: ser um espaço onde mulheres que amam mulheres possam se encontrar
A Fancha nasceu com um propósito: ser um espaço onde mulheres que amam mulheres possam se encontrar - yasmin munhóz

De uma festa para um movimento

A ideia surgiu quando Isabela percebeu que, ao contrário dos homens gays, as mulheres lésbicas tinham poucos espaços próprios para convivência.

“Me entendi como mulher lésbica em 2014 e lá para 2015/2016, quando eu ainda morava no Rio (sou carioca), comecei a acompanhar amigos produtores de eventos nos eventos deles que eram voltados para a comunidade gay. Eu comecei a perceber que eu não tinha um espaço daqueles dentro da minha comunidade, uma festa na qual eu poderia encontrar pessoas como eu. E assim nasceu a Fancha! Começou no Rio, depois que me mudei pra SP fiquei por aqui com ela. Já tivemos eventos no Rio, SP, Salvador e Curitiba.”

Com o passar dos anos, a própria comunidade passou a mostrar que precisava de muito mais do que encontros para lazer. A demanda por acolhimento, informação e fortalecimento coletivo impulsionou uma transformação natural do projeto.

O projeto nasceu como uma festa, mas ao longo dos quase 10 anos de existência foi revelando uma necessidade de expandir e virou um coletivo
O projeto nasceu como uma festa, mas ao longo dos quase 10 anos de existência foi revelando uma necessidade de expandir e virou um coletivo - yasmin munhóz

O pertencimento como principal necessidade

Segundo Isabela, a necessidade mais frequente entre as mulheres que chegam ao coletivo é encontrar um espaço onde possam simplesmente existir sem medo.

“A principal demanda é, sem dúvida, por pertencimento. Muitas mulheres chegam à Fancha dizendo que nunca tiveram um grupo de amigas lésbicas, que não conheciam outras mulheres com histórias parecidas ou que passaram anos sem frequentar espaços onde pudessem demonstrar carinho pela parceira sem medo de olhares ou julgamentos”, lembra.

“Existe uma vontade muito grande de trocar experiências e perceber que nenhuma de nós está sozinha.”

Aos poucos, o coletivo ampliou sua atuação para além dos eventos culturais, oferecendo espaços permanentes de convivência e fortalecendo redes de apoio entre mulheres.

O coletivo funciona como um espaço seguro para criar vínculos, compartilhar vivências, fortalecer a cultura lésbica e construir uma rede de apoio entre mulheres
O coletivo funciona como um espaço seguro para criar vínculos, compartilhar vivências, fortalecer a cultura lésbica e construir uma rede de apoio entre mulheres - yasmin munhóz

Mais espaços, investimento e visibilidade

Apesar dos avanços, Isabela acredita que as mulheres lésbicas ainda enfrentam invisibilidade mesmo dentro dos espaços LGBTQIA+.

“Ainda falta reconhecimento. Muitas vezes, quando pensamos em espaços LGBTQIA+, as experiências das mulheres lésbicas acabam ficando em segundo, terceiro plano. Precisamos de mais lugares pensados para nós, onde possamos existir sem hipersexualização, sem invisibilidade e sem precisar justificar constantemente quem somos. Também falta investimento e patrocínio para nós! Muitos bares lésbicos vem fechando as portas por falta de patrocínio, por exemplo.”

Para ela, investir em iniciativas voltadas à comunidade significa fortalecer redes que têm impacto direto na vida das pessoas.

“Criar espaços seguros exige apoio, continuidade e reconhecimento de que esses encontros têm um impacto real na vida das pessoas.”

Conexões que transformam vidas

Ao longo dos anos, o coletivo testemunhou histórias que mostram o impacto dos encontros promovidos pela Fancha.

“Já ouvimos mulheres dizerem que passaram anos sem conhecer outra lésbica e que foi na Fancha que fizeram suas primeiras amizades dentro da comunidade.”

O evento também já proporcionou que muitas conhecessem suas parceiras ou encontrassem apoio para enfrentar processos de aceitação ou simplesmente descobrissem que não precisavam mais viver escondidas.

“Também nos emociona ver mulheres que chegam sozinhas e, algum tempo depois, voltam acompanhadas de uma rede inteira de amigas que se formou durante nossos eventos”, diz Isabela.

Talvez esse seja o maior impacto da Fancha: criar conexões. Quando uma mulher encontra um espaço onde pode ser ela mesma, ela ganha coragem para ocupar outros lugares também. E quando isso acontece repetidas vezes, percebemos que não estamos apenas organizando eventos, estamos ajudando a construir uma comunidade!

Com o amadurecimento do projeto, a Fancha passou a atuar também em frentes de incidência política e defesa de direitos. O coletivo participa da Secretaria das Lésbicas na Parada LGBT+ de São Paulo, além de manifestações, seminários e debates sobre políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+.

Mais do que organizar eventos, a Fancha busca fortalecer uma comunidade baseada em representatividade e pertencimento. Em um contexto em que mulheres lésbicas e sáficas ainda enfrentam invisibilidade e escassez de espaços próprios, o coletivo aposta na cultura, na informação e na construção de vínculos como caminhos para ampliar oportunidades e garantir que essas mulheres possam ocupar todos os espaços como protagonistas de suas próprias histórias.