Ferramentas, animais caçados e conchas revelam que duas espécies humanas mantiveram costumes semelhantes por milhares de anos
Uma caverna na costa mediterrânea da Turquia preservou uma sequência rara da história humana: primeiro foi ocupada por neandertais e, depois, pelo Homo sap
Uma caverna na costa mediterrânea da Turquia preservou uma sequência rara da história humana: primeiro foi ocupada por neandertais e, depois, pelo Homo sapiens. Mesmo separados pelo tempo, os dois grupos deixaram ferramentas, restos de animais e conchas tão semelhantes que os pesquisadores suspeitam de uma continuidade cultural há cerca de 59 mil anos.

O que foi encontrado na caverna turca?
As descobertas vieram da caverna Üçağızlı II, localizada no sul da Turquia, perto da fronteira com a Síria. O sítio fica em uma região que funcionou como corredor entre o Levante e a Eurásia. Escavações revelaram fósseis humanos, ferramentas de pedra, ossos de animais caçados e conchas marinhas modificadas.
Um estudo publicado em 2026 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences identificou ocupações neandertais entre aproximadamente 77 mil e 59 mil anos atrás. Depois disso, humanos modernos utilizaram a caverna entre cerca de 59 mil e 47 mil anos atrás, sem sinais de convivência direta no local.

Como os cientistas identificaram os habitantes?
Os pesquisadores encontraram dentes e parte de uma mandíbula, mas a aparência externa dos fósseis não era suficiente para determinar a qual população pertenciam. A equipe analisou a estrutura interna dos dentes, cujas características ajudaram a distinguir os restos de neandertais daqueles associados ao Homo sapiens.
As camadas foram datadas por luminescência opticamente estimulada, técnica que estima quando determinados grãos minerais foram expostos à luz pela última vez. O método permitiu organizar as ocupações em uma sequência cronológica e mostrou uma transição biológica entre os grupos sem uma mudança cultural igualmente evidente.
Quais costumes aparecem nas duas ocupações?
As camadas atribuídas aos dois grupos apresentaram estratégias muito parecidas de sobrevivência. Neandertais e humanos modernos buscaram sílex em fontes locais, produziram ferramentas com técnicas semelhantes e caçaram animais disponíveis na região. A continuidade aparece em diferentes aspectos da vida cotidiana:
- Uso das mesmas fontes de matéria-prima;
- Produção de ferramentas de pedra semelhantes;
- Caça de cabras selvagens, gamos, corços e javalis;
- Coleta de pequenas conchas marinhas;
- Possível uso de adornos corporais.
Segundo os autores do estudo, as estratégias de caça, coleta e fabricação de instrumentos permaneceram substancialmente uniformes. Esse resultado desafia a ideia de que a chegada do Homo sapiens sempre provocou uma substituição imediata das tradições neandertais por comportamentos completamente novos.

As conchas indicam pensamento simbólico?
Os arqueólogos localizaram 29 conchas do pequeno molusco Columbella rustica. Como não serviam para alimentação e algumas estavam perfuradas, elas provavelmente foram transportadas para a caverna como ornamentos. Uma concha da ocupação neandertal apresentava sinais de aquecimento deliberado, possivelmente para alterar sua cor.
Naoki Morimoto, coautor da pesquisa e paleoantropólogo da Universidade de Kyoto, afirmou que os resultados indicam um nível profundo de interação cultural. A semelhança nas escolhas simbólicas não prova um encontro dentro da caverna, mas sugere que ideias poderiam circular entre populações próximas e biologicamente distintas.
O estudo prova que houve troca cultural?
A hipótese é forte, mas ainda não pode ser tratada como certeza. Os grupos também podem ter desenvolvido hábitos semelhantes porque exploravam o mesmo ambiente e encontravam os mesmos recursos. Além disso, a sequência arqueológica não registra neandertais e humanos modernos vivendo juntos em Üçağızlı II.
Mesmo com essas limitações, o estudo amplia a imagem dos neandertais como populações culturalmente complexas e conectadas. Investigar novas camadas e comparar outros sítios do Levante será decisivo. Cada descoberta pode revelar que a história entre eles e nossos antepassados envolveu mais aprendizado e compartilhamento do que uma simples substituição.