Fóssil encontrado na Austrália revela que um pliosauro matou um predador marinho que havia acabado de devorar um pterossauro
Estudo publicado na Gondwana Research usou imagens de nêutrons para revelar uma rara cadeia alimentar do Cretáceo preservada na Austrália.
Um fóssil de cerca de 100 milhões de anos encontrado no interior da Austrália parece guardar uma sequência extraordinária: um ictiossauro engoliu restos de um pterossauro e, pouco depois, seu próprio corpo foi atacado ou consumido por um predador ainda maior. O achado, analisado com tecnologia de nêutrons, oferece uma rara janela para a cadeia alimentar do antigo Mar de Eromanga.

O que os cientistas encontraram dentro do ictiossauro?
O espécime, apelidado de “BOB”, de “Bag of Bones”, pertenceu a um ictiossauro com aproximadamente 6 a 7 metros de comprimento. Segundo o estudo liderado pelo paleontólogo Matt White, pesquisador associado da Universidade de New England, restos de peixes, cefalópodes e fragmentos da mandíbula de um pterossauro estavam preservados em sua cavidade corporal.
A pesquisa, publicada em 28 de julho de 2026 na revista científica Gondwana Research, apresenta o caso como a primeira evidência definitiva de um ictiossauro consumindo um pterossauro. Esses répteis voadores dominavam os céus do Mesozoico, mas evidências diretas de sua participação na dieta de grandes répteis marinhos são extremamente difíceis de encontrar.

Como uma refeição conseguiu sobreviver por 100 milhões de anos?
Conteúdos digestivos raramente chegam ao registro fóssil porque normalmente desaparecem rapidamente após a morte. White explicou que o animal precisa ser enterrado depressa para evitar decomposição e dispersão dos restos, além de morrer pouco depois de se alimentar, antes que a digestão destrua completamente as evidências.
No caso de BOB, os pesquisadores acreditam que o ictiossauro morreu pouco depois de sua última refeição e afundou. A posição incomum de parte dos restos perto da região frontal do corpo pode ter sido produzida quando o animal atingiu o fundo marinho com a cabeça, deslocando internamente materiais ainda ligados aos tecidos.
Como os pesquisadores enxergaram o que estava escondido?
A equipe contou com técnicas avançadas de imagem da Australian Nuclear Science and Technology Organisation, a ANSTO. A tomografia por nêutrons permitiu visualizar estruturas escondidas dentro da rocha sem destruir o fóssil, diferenciando ossos e outros materiais que seriam difíceis de analisar apenas pela superfície.
A investigação reuniu pistas que, quando observadas em conjunto, transformaram o espécime em uma espécie de registro de uma cadeia alimentar pré-histórica:
- Fragmentos de mandíbula indicam que um pterossauro foi consumido pelo ictiossauro.
- Restos de peixes e cefalópodes também revelam outros componentes da dieta do animal.
- Mais de 30 marcas de mordida e ossos esmagados indicam o ataque ou consumo por um predador maior.
- As características das lesões apontam para um grande pliossauro como possível responsável.

Um Kronosaurus realmente matou o ictiossauro?
O esqueleto apresenta costelas quebradas, partes ausentes e grandes marcas de esmagamento. White e seus colegas consideram que um Kronosaurus queenslandicus, enorme pliossauro que habitava a região, é um forte candidato a ter causado os danos. Contudo, os fósseis não permitem afirmar com certeza se houve um ataque ao animal vivo ou consumo da carcaça depois da morte.
O paleontólogo britânico Dean Lomax, que não participou diretamente do estudo, descreveu a descoberta como um dos exemplos mais claros de interação entre três níveis de predadores já encontrados. Para ele, o fóssil oferece evidência excepcional do comportamento dos animais que viveram nos mares australianos durante o Cretáceo.
Por que esse fóssil é tão importante para a ciência?
Há cerca de 100 milhões de anos, grande parte da Austrália central estava coberta pelo Mar de Eromanga. Conhecer quais animais viviam ali é relativamente possível por meio dos fósseis, mas descobrir quem comia quem é muito mais difícil. Conteúdos digestivos e marcas de mordida fornecem evidências diretas de relações ecológicas que ossos isolados não conseguem revelar.
A descoberta mostra também como novas tecnologias podem fazer fósseis antigos contarem histórias que permaneceram invisíveis durante décadas. Com imagens cada vez mais precisas, pesquisadores podem reconstruir relações entre predadores e presas sem destruir os exemplares. Neste caso, um único ictiossauro preservou pistas suficientes para revelar uma cadeia alimentar inteira congelada no tempo.