“Navio do inferno” japonês com mais de mil prisioneiros é descoberto no fundo do mar

Por mais de 80 anos, famílias de mais de mil prisioneiros não sabiam onde estava o navio que se tornou seu túmulo no Pacífico.

Por mais de 80 anos, famílias de mais de mil prisioneiros não sabiam onde estava o navio que se tornou seu túmulo no Pacífico. Agora, uma combinação de arquivos militares, sonar, mergulho técnico e fotogrametria permitiu localizar o Hōfuku Maru, cargueiro japonês afundado em 1944 com centenas de britânicos e holandeses presos nos porões.

Construído originalmente como navio de carga, o Hōfuku Maru foi requisitado pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial para transportar prisioneiros aliados
Construído originalmente como navio de carga, o Hōfuku Maru foi requisitado pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial para transportar prisioneiros aliados - Imagem gerada por IA

O que aconteceu com o Hōfuku Maru?

Construído originalmente como navio de carga, o Hōfuku Maru foi requisitado pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial para transportar prisioneiros aliados. Em setembro de 1944, ele navegava em um comboio militar próximo à costa oeste da ilha de Luzon, nas Filipinas, levando aproximadamente 1.289 homens em direção ao Japão.

Em 21 de setembro, aviões norte-americanos atacaram o comboio sem saber que o cargueiro transportava prisioneiros. O navio não apresentava uma identificação visível de sua carga humana. Registros históricos indicam que 1.047 prisioneiros morreram no naufrágio, enquanto pouco mais de 240 conseguiram sobreviver.

Por que essas embarcações eram chamadas de navios do inferno?

O Hōfuku Maru fazia parte dos chamados hell ships, ou navios do inferno. O termo foi criado pelos próprios prisioneiros para descrever embarcações mercantes usadas pelo Japão na transferência de militares capturados para campos de trabalho e outros territórios ocupados durante a guerra.

Documentos preservados por instituições militares relatam porões superlotados, pouca ventilação e fornecimento insuficiente de água e alimentos. Como os navios frequentemente navegavam sem símbolos que indicassem a presença de prisioneiros, podiam ser confundidos com transportes militares comuns e atacados pelas próprias forças aliadas.

Ataque aéreo aliado afundou cargueiro japonês sem saber da presença de prisioneiros.
Ataque aéreo aliado afundou cargueiro japonês sem saber da presença de prisioneiros. - Imagem gerada por IA.

Como os pesquisadores encontraram o naufrágio?

A localização permaneceu incerta por décadas porque relatórios japoneses, registros de ataques e depoimentos de sobreviventes apresentavam informações incompletas ou contraditórias. A mudança ocorreu quando pesquisadores da Hellships Memorial Foundation localizaram um documento japonês com dados mais precisos sobre a rota e a posição do comboio.

  • Arquivos japoneses foram comparados com relatórios militares dos Estados Unidos.
  • Sonar foi utilizado para localizar estruturas compatíveis no fundo do mar.
  • Mergulhos permitiram examinar características físicas dos destroços.
  • Fotogrametria transformou imagens subaquáticas em um modelo tridimensional do navio.

A expedição liderada pelo explorador Josh Gates encontrou os destroços a cerca de 49 metros de profundidade, ao largo da costa ocidental das Filipinas. A estrutura, as dimensões e os danos observados foram comparados com plantas e registros históricos, permitindo confirmar a identificação do Hōfuku Maru.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube O POVO mostrando a descoberta do “Navio do Inferno”, conhecido como Hōfuku Maru.

Por que a confirmação tem valor histórico?

Encontrar o navio não altera o que ocorreu em 1944, mas oferece uma localização concreta para uma tragédia que permaneceu sem referência física por gerações. Muitos dos homens transportados haviam sobrevivido ao trabalho forçado na Ferrovia da Birmânia, conhecida como Ferrovia da Morte, antes de serem colocados novamente em condições extremas.

A descoberta também ajuda a recuperar um capítulo menos conhecido da guerra no Pacífico. Mais de uma centena de embarcações japonesas foram associadas ao transporte de prisioneiros, mas poucos naufrágios foram identificados com segurança. Cada localização permite cruzar documentos, corrigir registros e reconstruir trajetórias individuais antes esquecidas.

O que deve acontecer com o Hōfuku Maru agora?

Os destroços são tratados como um local de memória e sepultamento de guerra, não como um ponto destinado à retirada de objetos. A documentação subaquática permite estudar o navio sem desmontá-lo ou perturbar sua estrutura. Para as famílias, saber onde ele repousa representa uma forma tardia de reconhecimento e encerramento.

A descoberta exige mais do que curiosidade sobre um naufrágio. Ela pede que os nomes e as histórias dos prisioneiros sejam preservados enquanto documentos e testemunhos ainda podem ser reunidos. Depois de oito décadas de silêncio, o Hōfuku Maru voltou ao mapa, e agora existe a responsabilidade urgente de impedir que suas vítimas desapareçam novamente da memória.