O exercício não só fortalece: cientistas encontraram o interruptor que envelhece os músculos e a atividade física é capaz de desligá-lo

Pesquisadores descobriram como o exercício pode reduzir a atividade do gene DEAF1 em músculos envelhecidos. Entenda o mecanismo estudado em animais

A perda de força muscular com o passar dos anos não depende apenas da redução da atividade física: mudanças moleculares também podem interferir na capacidade de reparação dos músculos. Um estudo conduzido por pesquisadores da Duke-NUS Medical School, em Singapura, identificou o gene DEAF1 como um dos participantes desse processo e mostrou que o exercício pode reduzir sua atividade por meio de proteínas reguladoras chamadas FOXO. Publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), a pesquisa encontrou resultados promissores em camundongos e moscas-da-fruta. Embora a descoberta ajude a explicar como a atividade física atua dentro das células, ainda não comprova que o mesmo mecanismo possa ser revertido da mesma maneira em seres humanos.

O gene DEAF1 pode participar da deterioração muscular com a idade. Saiba como exercícios influenciaram essa via molecular e por que faltam estudos em humanos.
O gene DEAF1 pode participar da deterioração muscular com a idade. Saiba como exercícios influenciaram essa via molecular e por que faltam estudos em humanos.Imagem gerada por inteligência artificial

O que os cientistas descobriram sobre o gene que contribui para o envelhecimento muscular?

O estudo, publicado em novembro de 2025, identificou que o DEAF1 pode ficar excessivamente ativo nos músculos envelhecidos. Esse gene participa da regulação de processos celulares e, quando sua atividade aumenta de maneira inadequada, estimula a via molecular mTORC1. Esse sistema é importante para controlar a produção de proteínas e o crescimento muscular, mas sua ativação persistente pode desequilibrar a manutenção dos tecidos, prejudicando a remoção de proteínas danificadas e favorecendo a deterioração das células.

Nos experimentos, os pesquisadores observaram que o aumento de DEAF1 estava associado a alterações na qualidade muscular e à perda de função. Quando reduziram sua atividade nos modelos estudados, conseguiram melhorar indicadores de manutenção celular e força. O trabalho, disponível na publicação científica sobre DEAF1, exercício e envelhecimento muscular, identificou, assim, uma conexão entre o gene, o controle da produção de proteínas e a capacidade de preservar os músculos ao longo do tempo.

Como o exercício físico interfere nesse mecanismo celular?

Os pesquisadores descobriram que a atividade física estimula proteínas reguladoras da família FOXO, que ajudam a controlar a expressão do DEAF1. Com essa regulação, a atividade excessiva da via mTORC1 diminui, permitindo que processos de manutenção celular voltem a funcionar de maneira mais equilibrada. Entre eles está a autofagia, mecanismo pelo qual as células degradam e reciclam componentes danificados. Esse sistema é essencial para manter a qualidade das proteínas e o funcionamento adequado dos tecidos.

Nos camundongos idosos submetidos a exercícios, os cientistas observaram redução da atividade de DEAF1 e melhora de indicadores relacionados à manutenção muscular. Os experimentos também mostraram que interferir na atividade das proteínas FOXO ou manter DEAF1 elevado podia bloquear parte desses benefícios. Isso indica que o mecanismo tem um papel relevante nos resultados observados, mas não significa que o exercício desligue definitivamente um gene ou reverta todo o envelhecimento. A resposta depende de processos biológicos complexos e de condições que ainda precisam ser investigadas em humanos.

Estudo identificou o gene DEAF1 ligado ao envelhecimento muscular e mostrou como o exercício influencia essa via. Entenda a descoberta e seus limites em humanos.
Estudo identificou o gene DEAF1 ligado ao envelhecimento muscular e mostrou como o exercício influencia essa via. Entenda a descoberta e seus limites em humanos.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que o treino de força é importante para preservar os músculos?

O treinamento de força oferece aos músculos um estímulo mecânico que favorece a adaptação, a manutenção da massa muscular e o desenvolvimento da capacidade de produzir força. Exercícios com pesos, máquinas, faixas elásticas ou o próprio peso corporal podem ser usados para trabalhar diferentes grupos musculares. Embora o estudo sobre DEAF1 não tenha demonstrado que a musculação seja superior a todas as outras modalidades para controlar esse gene, o fortalecimento continua sendo uma estratégia central para reduzir os efeitos funcionais da perda muscular associada à idade.

Uma rotina pode incluir exercícios como agachamentos adaptados, remadas, movimentos de empurrar e levantar-se de uma cadeira, com dificuldade ajustada à condição física. Para quem está começando, a prioridade é aprender a técnica e aumentar a resistência gradualmente, de preferência com orientação profissional. Conteúdos sobre como ganhar massa muscular com o avanço da idade ajudam a compreender a importância da regularidade, da recuperação e da alimentação no processo de fortalecimento.

É possível impedir o envelhecimento muscular com exercícios?

O envelhecimento muscular não pode ser completamente interrompido, mas seus efeitos sobre a força, a mobilidade e a autonomia podem ser atenuados. Além do treinamento resistido, atividades aeróbicas, exercícios de equilíbrio, sono adequado e alimentação suficiente contribuem para a manutenção da saúde. A combinação dessas estratégias é importante porque a perda muscular envolve diversos fatores, incluindo alterações hormonais, doenças, sedentarismo e mudanças na capacidade de regeneração dos tecidos.

Os resultados da pesquisa oferecem uma pista sobre como o exercício atua em nível molecular e podem ajudar a orientar futuras investigações sobre a sarcopenia, condição caracterizada pela perda de força e massa muscular associada ao envelhecimento. No entanto, ainda são necessários estudos em seres humanos para confirmar a relevância clínica dessa via e determinar como ela responde a diferentes modalidades e intensidades de exercício. Por enquanto, a conclusão mais sólida é que manter uma rotina física adaptada à própria capacidade continua sendo uma das medidas mais importantes para preservar a função muscular e a independência ao longo da vida.