Os especialistas em psicologia explicam: quem anda rápido nem sempre está com pressa e pode estar focado nos objetivos

Estudo ligou o ritmo habitual da caminhada a traços como organização e autodisciplina, sem rótulos

Andar rápido nem sempre é sinal de pressa. Para especialistas em psicologia ouvidos pelo jornal espanhol OKDiario, o passo acelerado de quem caminha assim por costume pode estar ligado à organização, à iniciativa e ao foco nos próprios objetivos.

Isso não transforma o jeito de andar em teste de personalidade. A velocidade depende também de idade, condição física, calçado e terreno, e funciona no máximo como uma pista entre muitas.

Gostar de cumprir tarefas e horários pode aparecer até no jeito de andar – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Gostar de cumprir tarefas e horários pode aparecer até no jeito de andar – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

O que a psicologia observa no passo acelerado

Segundo a reportagem do OKDiario, algumas pesquisas encontraram relação entre caminhar mais depressa e características como capacidade de administrar o tempo, iniciativa e organização.

Quem gosta de manter horários, concluir tarefas e cumprir prazos tende a aproveitar melhor cada trajeto. Para essas pessoas, ir de um ponto a outro sem rodeios faz parte da rotina, tanto no trabalho quanto nas tarefas do dia a dia.

Um estudo com mais de 15 mil pessoas

Um estudo amplo sobre o tema foi publicado em 2018 na revista científica Social Psychological and Personality Science. Os pesquisadores Yannick Stephan, Angelina Sutin, Gabriel Bovier-Lapierre e Antonio Terracciano analisaram dados de mais de 15 mil adultos, de 25 a 100 anos, em cinco grandes levantamentos feitos nos Estados Unidos.

No artigo, disponível no site do estudo MIDUS, da Universidade de Wisconsin, os autores mostram que pessoas com mais conscienciosidade, extroversão e abertura a novas experiências, e com menos neuroticismo, tendiam a caminhar mais rápido nos anos seguintes. Conscienciosidade é o traço ligado à autodisciplina e à organização.

Num dos levantamentos, o mesmo perfil também esteve associado a uma queda mais lenta da velocidade ao longo do tempo. A conclusão dos pesquisadores é que o ritmo da caminhada reflete, em parte, a personalidade.

O interesse dos cientistas pelo tema não é só curiosidade. No mesmo artigo, os autores lembram que a velocidade da marcha é considerada um marcador de saúde na vida adulta, e que um passo lento costuma aparecer associado, em outras pesquisas, a limitações físicas e a problemas de memória com o avanço da idade.

Pressa e passo rápido são coisas diferentes

A distinção é importante. Correr porque o ônibus está chegando ou porque o compromisso já começou não diz nada sobre o temperamento. O que interessa aos pesquisadores é o ritmo habitual, aquele que a pessoa mantém mesmo quando não há motivo para acelerar.

O mesmo vale para o lugar. Uma calçada esburacada, uma ladeira ou um sapato desconfortável mudam o passo de qualquer um, e o cérebro ajusta o movimento ao terreno quase sem que a gente perceba.

Dá para julgar alguém pelo jeito de andar?

Não. Uma associação encontrada em pesquisa não significa causa, e a própria reportagem espanhola reforça que é incorreto dizer que caminhar depressa torna alguém mais organizado ou decidido.

A linguagem do corpo pode até sugerir algo, como já mostramos ao falar de quem anda com as mãos para trás, mas qualquer leitura isolada é limitada. A organização, por exemplo, aparece de muitas formas, inclusive em quem deixa a sala arrumada e o quarto bagunçado por questão de prioridade.

Um detalhe que conta só parte da história

O passo rápido pode ser o reflexo de quem tem metas claras e gosta de aproveitar o tempo, mas também pode ser só costume, boa forma física ou um dia corrido. Observar o próprio ritmo é curioso; rotular os outros por ele, não.