Os “hobbits” da ilha de Flores podem não ter sido caçadores como se pensava, mas aproveitadores de carcaças deixadas por dragões

Durante anos, ferramentas de pedra, ossos cortados e supostos sinais de fogo ajudaram a construir a imagem de um pequeno humano capaz de caçar elefantes an

Durante anos, ferramentas de pedra, ossos cortados e supostos sinais de fogo ajudaram a construir a imagem de um pequeno humano capaz de caçar elefantes anões em uma ilha da Indonésia. Uma nova análise, porém, propõe uma cena bem diferente: o Homo floresiensis, apelidado de “hobbit”, provavelmente aproveitava carcaças deixadas por dragões-de-komodo e consumia a carne sem cozinhar.

Descoberto em 2003 na caverna de Liang Bua, o Homo floresiensis tinha cerca de 1,06 metro de altura, cérebro pequeno, dentes relativamente grandes e pés compridos.
Descoberto em 2003 na caverna de Liang Bua, o Homo floresiensis tinha cerca de 1,06 metro de altura, cérebro pequeno, dentes relativamente grandes e pés compridos. - Imagem gerada por IA

Quem era o pequeno humano da ilha de Flores?

Descoberto em 2003 na caverna de Liang Bua, o Homo floresiensis tinha cerca de 1,06 metro de altura, cérebro pequeno, dentes relativamente grandes e pés compridos. A espécie habitou a ilha de Flores por milhares de anos e desapareceu há aproximadamente 50 mil anos, período próximo à expansão do Homo sapiens pelo Sudeste Asiático.

Além dos restos humanos, arqueólogos encontraram ferramentas de pedra e ossos de animais com marcas de corte. Alguns fragmentos pareciam carbonizados. Esse conjunto levou à hipótese de que os “hobbits” caçavam grandes presas e dominavam o fogo, comportamentos considerados importantes para compreender sua posição na história evolutiva do gênero Homo.

Hominídeo pequeno habitou a ilha de Flores até a pré-história.
Hominídeo pequeno habitou a ilha de Flores até a pré-história. - Imagem gerada por IA.

O que os ossos de elefante anão revelaram?

Um estudo publicado em julho de 2026 na revista Science Advances, liderado pela paleoantropóloga E. Grace Veatch, reexaminou fósseis de Stegodon florensis insularis. Esse parente anão dos elefantes viveu em Flores e teve seus ossos encontrados na mesma caverna que preservou ferramentas e restos do Homo floresiensis.

Os pesquisadores identificaram 54 marcas produzidas por ferramentas de pedra, mas encontraram quase o dobro de marcas atribuídas aos dentes de dragões-de-komodo. A localização dos danos foi decisiva: os répteis acessaram principalmente regiões com mais carne, enquanto os cortes feitos pelos hominídeos se concentraram em partes menos nutritivas da carcaça.

Como os cientistas testaram essa hipótese?

Para diferenciar cortes de ferramentas e mordidas, a equipe realizou um experimento com um dragão-de-komodo mantido no Zoológico de Atlanta. O animal recebeu a carcaça de uma cabra, cujo esqueleto foi recuperado e examinado. Cavidades, sulcos e entalhes deixados pelos dentes serviram como referência para a comparação com os fósseis.

A análise reuniu sinais que sustentam a hipótese de acesso inicial pelos dragões e aproveitamento posterior pelos “hobbits”:

  • Mordidas concentradas nas áreas mais ricas em carne;
  • Cortes humanos encontrados principalmente em partes menos carnudas;
  • Maior quantidade de marcas de dentes do que de ferramentas;
  • Ausência de um padrão compatível com caça e abate da presa;
  • Falta de evidências consistentes de cozimento dos animais.

    Experimento com répteis comprova padrão de marcas de mordidas.
    Experimento com répteis comprova padrão de marcas de mordidas. - Alamy

Os hobbits realmente não controlavam o fogo?

O trabalho também questionou os indícios de combustão encontrados anteriormente em Liang Bua. Ao examinar milhares de ossos de roedores, a equipe não encontrou marcas confiáveis de exposição ao fogo. Segundo os pesquisadores, parte da coloração escura interpretada como queimadura pode ter sido provocada por depósitos naturais de manganês.

Isso não prova que nenhum indivíduo da espécie tenha usado fogo em qualquer momento ou lugar. O estudo mostra que, no material analisado, faltam evidências de controle habitual das chamas ou de carne cozida. A conclusão mais segura é que os comportamentos atribuídos ao Homo floresiensis podem ter sido menos complexos do que se imaginava.

A descoberta aprofunda o mistério da ancestralidade

Os resultados reacendem duas hipóteses. Uma propõe que a espécie descendeu do Homo erectus e diminuiu pelo nanismo insular, processo associado à escassez de recursos. A outra sugere uma origem em uma linhagem humana mais antiga e naturalmente pequena, que teria se separado antes da consolidação da caça e do uso do fogo.

Para Veatch, o comportamento precisa fazer parte desse debate, enquanto o arqueólogo Adam Brumm destaca que o isolamento de Flores pode ter produzido mudanças anatômicas e comportamentais profundas. A resposta continua escondida nos fósseis. Cada osso reanalisado pode mudar nossa árvore evolutiva, tornando urgente preservar os sítios e ampliar as escavações.