Os vitorianos tinham cartões de Dia dos Namorados feitos especificamente para insultar pessoas de forma anônima
No século XIX, cartões de Dia dos Namorados eram usados para enviar caricaturas e insultos anônimos a desafetos e pretendentes.
Nem toda correspondência de Dia dos Namorados no século XIX trazia corações e declarações. Uma pessoa podia abrir o envelope e encontrar uma caricatura chamando-a de preguiçosa, feia, bêbada, intrometida ou desesperada para casar. Esses cartões de zombaria, hoje conhecidos como “valentines de vinagre”, transformavam uma data romântica numa oportunidade para enviar insultos pelo correio.

O que eram os chamados valentines de vinagre?
Historiadores observam que esse nome se popularizou posteriormente, enquanto os próprios vitorianos falavam em cartões de zombaria ou de troça. Eram impressos baratos, com desenhos exagerados e versos ofensivos, produzidos para ridicularizar tipos sociais reconhecíveis. Muitos chegavam sem assinatura, deixando o destinatário sem saber quem havia escolhido o ataque.
A historiadora Melissa Chim, citada pela Smithsonian Magazine, chama atenção para o caráter industrial desse mercado. A partir das décadas de 1840 e 1850, cartões podiam ser produzidos em massa e vendidos por pouco dinheiro. Isso tornou a provocação acessível: não era necessário contratar um artista nem escrever um insulto original para atingir alguém.

Quem costumava virar alvo desses cartões?
Praticamente qualquer característica vista como inadequada podia render uma caricatura. Havia cartões dirigidos a vendedores, médicos, artistas, funcionários, pretendentes rejeitados, pessoas consideradas vaidosas e homens ou mulheres fora das expectativas de casamento. A piada funcionava porque o leitor reconhecia imediatamente o estereótipo que estava sendo usado.
O problema é que o humor também servia para vigiar comportamentos. Mulheres que rompiam papéis tradicionais, inclusive integrantes do movimento sufragista em períodos posteriores, tornaram-se alvos de imagens agressivas. Assim, os cartões ajudam a enxergar não apenas o que fazia as pessoas rir, mas também quais condutas a sociedade tentava punir por meio da vergonha.
Esses insultos eram sempre apenas uma brincadeira?
Não. Alguns eram relativamente bobos, mas outros atacavam aparência, profissão, idade, condição econômica ou vida amorosa de maneira bastante cruel. A Smithsonian Magazine registra inclusive casos em que o recebimento provocou conflitos reais. O anonimato ampliava o efeito porque permitia ofender sem assumir publicamente a autoria.
As mensagens mais recorrentes mostram o repertório social daquela época:
- Solteiros e solteiras podiam ser ridicularizados por não encontrar um parceiro considerado adequado.
- Profissionais eram desenhados como incompetentes, gananciosos ou inconvenientes.
- Características físicas e hábitos pessoais viravam matéria-prima para caricaturas ofensivas.
- Mulheres que desafiavam papéis sociais tradicionais também podiam ser atacadas por meio dessas imagens.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Victoria and Albert Museum que fala sobre a história dos cartões de Dia dos Namorados, incluindo os ofensivos “vinegar valentines”:
Por que o correio ajudou esse comportamento a se espalhar?
O século XIX combinou impressão em massa, comércio de cartões e sistemas postais cada vez mais acessíveis. Isso permitiu que uma mensagem provocadora fosse comprada pronta, colocada num envelope e enviada a alguém sem contato direto. A tecnologia era muito diferente da internet, mas reduzia de forma semelhante a distância entre impulso e ataque.
O contraste fica ainda mais curioso porque a mesma infraestrutura transportava declarações amorosas sinceras. O Dia dos Namorados podia gerar tanto afeto quanto exposição pública e ressentimento. O que mudava era a escolha do cartão e, muitas vezes, a coragem que vinha de não colocar o próprio nome.
Os valentines de vinagre eram os trolls antes da internet?
A comparação tem limites, mas é difícil ignorar a semelhança. Uma pessoa usava um meio de comunicação popular, escondia a identidade e enviava um comentário feito para constranger alguém. Os temas também parecem familiares: aparência, profissão, vida afetiva e comportamento público continuam sendo alvos frequentes de ataques anônimos nas redes.
Esses cartões sobreviveram em bibliotecas e coleções porque são muito mais do que curiosidades românticas. Eles funcionam como pequenos arquivos das crueldades e expectativas sociais do século XIX. O suporte mudou do papel impresso para a tela, mas a vontade de dizer algo que talvez não fosse dito cara a cara atravessou a mudança de tecnologia.